Maceió – Quinhentos e cinco anos depois do descobrimento e com um genocídio responsável pelo extermínio de centenas de nações (eram cerca de 1000, em 1.500, hoje reduzidas a pouco mais de 180) esta quarta-feira, 19/04, Dia do Índio, entrará para história: pela primeira um indígena, no caso, uma indígena – Maria das Dores de Oliveira Pankararu – chega ao doutorado.
Maria, uma Pankararu, de 42 anos, defenderá sua tese de doutorado em Lingüística pela Universidade Federal de Alagoas. Ele nasceu numa aldeia do município de Tacaratu, sertão Pernambuco. A tese é resultado de uma pesquisa da língua indígena ofayé, falada por apenas 11 pessoas da comunidade ofayé, de Brasilândia, Mato Grosso do Sul.
O trabalho, desenvolvido em parceria com a professora ofayé Marilda de Souza, consistiu numa cartilha para ensinar as crianças da comunidade o idioma – em vias de extinção – e criar uma correlação entre a língua oral e a escrita para facilitar o aprendizado.
A índia Pankararu mudou ainda criança para S. Paulo, onde os pais buscaram emprego fugindo da seca, mas foi na sua aldeia que “descortinou o mundo” quando voltou para Tacaratu.”É uma cidade pequena, mas chegar lá de novo para mim foi como descortinar o mundo. Minha família sempre me protegeu muito, mas eu tive que estudar sozinha. Tive que ter coragem para continuar na escola porque muitos tinham aquela visão de que os índios são bêbados, vagabundos”.
Maria fez o ensino fundamental e médio na sua cidade, cursou história numa faculdade próxima a Tacaratu e pedagogia, na Universidade Federal de Alagoas. Chegou ao Mestrado e ao doutorado graças a bolsas de estudo, desta vez, uma bolsa da Fundação Ford, em parceria com a Fundação Carlos Chagas. “Eu fiquei sabendo que haveria uma seleção de bolsas a partir de critérios de ação afirmativa pela Fundação Ford. Vi que me encaixava em todos os requisitos e tentei. A bolsa foi fundamental para que eu pudesse viajar com freqüência para a aldeia ofayé e fizesse minha pesquisa”, conta Maria.
O resultado das viagens de Maria e de sua pesquisa de doutorado pode significar para os ofayé o resgate de uma língua. Tentativas anteriores de ensiná-la para a geração mais jovem tiveram pouco êxito. Dessa vez, no entanto, o projeto partiu de uma índia para índios.

Da Redacao