Em um certo dia tumultuado do inverno de 1977, um pantera negra de nome Hamilton Bernardes Cardoso entrou pela primeira vez no velho sobrado que servia como sede do jornal Versus, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. O fato logo deixaria conseqüências inarredáveis nas trajetórias de cada um de nós, intelectuais brancos, pouco familiarizados com a presença de um jornalista negro na redação. Sigo marcado por ele ainda hoje, quando busco relembrar os momentos que compartilhamos no jornalismo, na militância política ou nas poucas horas em que podíamos simplesmente conversar sobre qualquer assunto que nos levasse para longe de nossas pequenas verdades, que imaginávamos grandes.
Nossa sorte mudou a partir de Hamilton, sempre com uma palavra crítica para cada deslize racista daquela parcela da “elite branca” de esquerda que se reunia em Versus, e ali trabalhava e conspirava sem qualquer disciplina e regra. Ele sorria quando lhe pedia para repetir seu nome africano de guerra. Era quase como um cerimonial entre nós dois:
– Hamilton, qual é o seu nome africano?
-Vou dizer mais uma vez para que você não esqueça: Zulu Nguxi…
Com Hamilton, outros chegaram. Os rumos de Versus foram lentamente se transformando, alterados, em parte, pela contribuição daquele grupo radical, de fina sensibilidade à flor da pele. Foi o jornalista e poeta Oswaldo de Camargo o responsável pela aproximação que resultou na edição de Afro-Latino-América, um suplemento que passou a fazer parte permanente do jornal e de sua história.
Marcos Faerman e eu discutíamos mudanças editoriais no Versus (o que fazíamos todos os dias). As cobranças por posicionamentos firmes não paravam. Disse a ele, certa vez:
Marcão, a situação política exige nossa manifestação sobre os problemas brasileiros. Os leitores querem ler sobre o assunto. O Brasil negro, por exemplo, está ausente de nossas páginas. Estamos girando em torno da revolução africana e nada de Brasil.
Faerman tinha uma rápida solução editorial para tudo:
– Conheço o Oswaldo Camargo, um intelectual. Vou falar com ele e resolver o assunto.
Versus era um mutante que se arrastava em permanente penúria financeira e exigia fervor religioso na sua sustentação. A cada número impresso era preciso buscar os recursos da próxima edição, que raramente cumpria a data para ir às bancas, podia ser em 30, 60 ou até 80 dias. Nosso crédito era limitadíssimo junto às gráficas e fornecedores de papel, que ainda sofriam pressões e ameaças por parte do regime militar para deixassem de aceitar Versus entre seus clientes.
Além disso, tínhamos que driblar a censura, uma ameaça permanente, e tratar, mesmo sob uma conjuntura difícil, de editar o melhor jornal possível a partir da proposta original. Ríamos muito da frase, que seguidamente era citada na redação: “O melhor repórter de Versus é o carteiro”. De todos os lados do Brasil chegavam colaborações pelo correio. Era esse o quadro quando, para sempre, encontramos Hamilton Bernardes Cardoso, o Zulu Nguxi, e as lições de humanidade e jornalismo em Afro-Latino-América.
Quem chegou primeiro, um pouco tímida, foi a jornalista Neusa Maria Pereira, que redigiu um texto de poucas laudas editado nas páginas centrais da edição número 11 de Versus, datada de junho de 1977. Era um breve e contundente manifesto em defesa da dignidade das mulheres negras em uma sociedade racista, que iniciava assim: “A mulher negra pertence a uma das minorias raciais mais cruelmente vitimadas pelos castigos da divisão da sociedade em classe. Esta divisão é a maior responsável pela campanha da difamação sofrida pela mulher negra, considerada pelos representantes desta sociedade de classes como objeto sexual de consumo. Há muito que nós, afro-brasileiros, estamos lutando para apagar esta mancha original e sair do lugar onde nos colocaram.”
Lançada a primeira semente, outras vieram a seguir, saudadas com uma chamada de capa na edição seguinte, a de número 12, de julho-agosto do mesmo ano: “Brasil Negro – a imprensa negra renasce”. Oswaldo Camargo, Jamu Minka, Neusa Maria Pereira, Zulu Nguxi, os irmão Prudente, Wanderlei José Maria, José Adão de Oliveira, Maria Dulce Pinheiro e muitos outros mais que, juntos, representaram uma revolução em nossa permanente instabilidade.
Um incisivo editorial, que alterou nossa geografia, abriu os trabalhos: “Afro-Latino-América, e não apenas América Latina, porque define melhor a importância da presença africana nesta parte do mundo. Nossas raízes africanas – prova da vitalidade e resistência do negro às situações criadas pelo colonialismo – vêm sendo avaliadas com maior exatidão e resultam de novas correntes que emergem nas comunidades de origem africana. Uma das fontes de inspiração de Afro-Latino-América é a imprensa negra, que por seis décadas viveu na sociedade brasileira.” (…) “Desde 1961, ano em que circularam os últimos periódicos negros, até recentemente, houve um intervalo em que a criação cultural da expressão negra entrou em recesso. Agora que a questão racial ressurge como uma das grandes preocupações da humanidade”(…).
Zulu Nguxi logo mostraria as garras levantando a possibilidade de se repetirem, em São Paulo, os saques ocorridos em Nova Iorque durante um blecaute: “Se num blecaute em São Paulo, as fotos de Nova York se repetirem ninguém deve se assustar. Afinal um negro imita o outro, numa louca e frenética (como o Soul) procura de seus ancestrais mortos nos pelourinhos da vida e nas organização das histórias”(…).
A radicalização e o encontro da questão racial com a luta pelo socialismo era quase que uma decorrência natural naquelas circunstâncias. Eu já atuava como militante da clandestina Liga Operária (LO), organização ligada a uma fração da IV Internacional, quando nosso companheirismo se transformou em algo mais do que cumplicidade. Uma parcela dos colaboradores de Afro-Latino-América aderiu, então, ao trotsquismo proposto pela LO.
As primeiras reuniões da grande célula de Versus foram realizadas em minha casa, na Vila Madalena. Mais tarde, por razões de segurança, assim como políticas, o grupo se dividiu. O Afro-Latino-América organizou sua própria unidade e passou a receber atendimento do comitê central, de forma a permitir a discussão de um programa de ação próprio para a comunidade negra. A transcender os limites das páginas do jornal, representou outra semente em solo fértil. O surgimento do Movimento Negro Unificado passa, de algum modo, também por aqui.
A entrada em cena do movimento estudantil e, posteriormente, do movimento operário sob a liderança de Lula, à frente dos metalúrgicos do ABC, abalou de uma vez por todas a redação de Versus. O governo, em surtos autoritários, deu sua parcela de contribuição com suas provocações, mobilizando o corpo editorial e trazendo o foco dos debates para os temas brasileiros. Até então, relembremos, Versus estava imerso em seu sonho de unidade latino-americana, na ideologia da “Pátria Grande”, e na defesa dos direitos humanos vilipendiados por governos autoritários, para dizer o mínimo. A fórmula editorial tinha funcionado bem até aquele momento. O jornal ganhara espaço público e respeitabilidade, e mantinha-se na épica plataforma histórica, cultural, literária e poética de seu DNA. A aproximação do Brasil com os países e as culturas de origem hispânica seguiria em pauta em nosso trabalho diário, mas com outras mediações.
A necessidade de mudanças colocou em xeque nosso “fazer Versus”. Buscávamos atingir regularidade nas bancas, aumentar a tiragem, estabelecer um novo fluxo de produção de matérias, e regular as relações políticas internas, quase sempre caóticas nas seguidas reuniões de pauta. Na tentativa inviável de racionalizar o caos, optamos por criar um Conselho de Redação, para o qual Hamilton Bernardes Cardoso foi chamado como representante do Afro-Latino-América. Com a colaboração do economista Paulo de Tarso Venceslau, o PT, na administração de Versus, conseguimos melhorar nossos resultados. Passamos para uma tiragem de 25 mil exemplares, distribuição nacional mais homogênea, com picos de até 30 mil, quase três vezes mais do que a primeira edição, que fora de 12 mil exemplares, em outubro de 1975. O jornal nascera quase que no mesmo momento em quem o país chorava a morte do jornalista Vladimir Herzog, fato que influenciou Versus por muito tempo.
Em julho-agosto de 1978, Versus 23, um marco de inflexão. Afro-Latino-América dá uma manchete antes inimaginável: “Os negros estão nas ruas”! O texto leva a digital de Zulu Nguxi: “Mais de mil negros nas ruas! Sem dúvida, uma grande vitória para o Movimento Negro. Isto demonstra como já afirmamos o ânimo da Comunidade. Daí uma necessidade de uma alternativa”(…) E mais além, ainda na mesma edição, em “Chegamos às ruas”: “Havia medo, ironias e preocupações nas entidades, nas redações de jornais brancos. E a repressão? Se a polícia atuasse seria um golpe mortal para a democracia racial.”
Zulu Nguxi assinou o texto como Hamilton Bernardes Cardoso, e reportou do local uma histórica mobilização negra, em julho de 1977, em São Paulo. Seleciono alguns fragmentos da edição que guardei: “Cinco mil cartas abertas foram impressas no dia sete, pela manhã. Ao mesmo tempo chegavam os companheiros cariocas. Um dia de correrias. Ao fim da tarde, chegariam moções de cinco entidades negras da Bahia (…) Às 18:00 horas do sete de julho, alguns negros e brancos estavam parados defronte ao Teatro Municipal, a conversar. Mais negros, que esperam o ato público.Vez por outra chegavam outros… Da galeria Nova Barão surgem alguns jovens caminhando na direção do Teatro, com caixas de papelão nos ombros, segurando faixas, colas e um megafone. (…) Os policiais do Deops, à paisana, misturavam-se entre os presentes. Quietos. Havia negros que ao conhecê-los (qual negro não conhece um policial?) diziam para o companheiro: “Até que enfim eles, aqui, são obrigados a calar, a ficar quietos, a não agredir…”
No mesmo jornal, Marcos Faerman também se referiu ao assunto na página 2. Em “Histórias”, uma espécie de editorial, ele escreveu algumas notas, que valem a pena ser reproduzidas, para que se possa medir o impacto daqueles acontecimentos. Nosso editor-chefe acabava de retornar de uma viagem ao Rio Grande do Sul, onde lançara, publicamente, a proposta da formação da Convergência Socialista de aglutinar as forças políticas interessadas na formação de um partido de trabalhadores sob um programa de esquerda. Palavras de Marcos Faerman: “Certa vez Sartre escreveu sobre a questão negra. Ali, ele falava uma coisa inesquecível, e que eu vou citar de memória… O que vocês esperavam ouvir quando estas bocas negras se vissem livres das mordaças? Que gritassem frases doces, amenas? Foi o que vimos em São Paulo, numa noite histórica. Bocas negras gritando contra a injustiça e a opressão. Punhos erguidos no lusco-fusco daquele momento em que, numa grande cidade, os homens cansados vão para casa (…) São os novos tempos, em que a palavra ‘resistir’ se soma aos verbos ‘lutar e avançar’.”
A última vez que vi meu amigo Hamilton Bernardes Cardoso, o Zulu Nguxi, foi quase no fim de 1979, quando eu fechava a mala e me preparava para uma longa estada fora do Brasil. Para mim era um ciclo que se encerrava. Comecei a trabalhar para Versus em novembro de 1975, quando escrevi, de Porto Alegre minhas primeiras reportagens para o jornal, mudei para São Paulo, e me transformei no editor que vivenciou com intensidade as múltiplas fases da vida de Versus. Em nosso derradeiro encontro havia pouco mais de um ano que Marcos Faerman tinha deixado a redação, e lembro que a conversa girou sentimentalmente em torno disso, e também de um violento ataque que sofremos por iniciativa de uma organização de extrema direita. Se minha memória não estiver me traindo, creio que, na época Marcão procurava lançar uma nova revista, a Singular & Plural, que, no entanto, soube depois, teve curta existência.
Não demorou muito e todas as outras centenas de publicações da imprensa alternativa, independente ou nanica, como eram chamadas, também fecharam, uma a uma. Penso que, ao avançarmos na democracia, perdemos a importância e desaparecemos do cenário, à medida que mais liberdades eram alcançadas e que nossas fragilidades eram expostas. Passo a passo, no pensamento e no coração sensível dos leitores, fomos substituídos pelos grandes jornais, as redes de tv, a velocidade cada vez maior da informação.As sucessivas crises econômicas, segundo comentou comigo o jornalista Flávio Aguiar, em um fortuito encontro em Porto Alegre, fizeram o resto do serviço.
Envelhecemos e, por fim, morremos.
Naquele dia, porém, Zulu Nguxi e eu falamos sobre o futuro e apostas políticas. Prometi a ele que enviaria material informativo e notícias do movimento negro nas Cartago latino-americanas. Procurei com atenção, mas não vi e não conheci ninguém como ele.
Não cumpri a promessa.
Hamilton Bernardes Cardoso ou Zulu Nguxi
(1953 – 1999)

Omar L. de Barros Filho