S. Paulo – O caso do incêndio da Vila Socó, em Cubatão, na Baixada Santista – o maior em número de vítimas do Brasil, na sua maioria negros e migrantes nordestinos – que o regime militar tentou abafar no último ano do Governo do general João Batista Figueiredo – não terminou. “Estamos preparados para dar continuidade a todo o processo. Queremos levar a tragédia da Vila Socó para o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, além de recorrer a outros órgãos independentes”, afirma o presidente da Comissão Estadual da Verdade "Rubens Paiva", deputado Adriano Diogo (PT/SP).

Adriano, que é candidato a deputado federal nas eleições de 5 de outubro, diz que, nas duas audiências da Comissão que trataram do incêndio – uma das quais com a presença do presidente da Petrobrás, à época, o ex-ministro Sigheaki Ueki -, “não conseguimos resolver todos os problemas”.

Ueki, ex-ministro das Minas e Energia durante o período militar, foi ouvido no dia 30 de julho na Assembléia Legislativa de S. Paulo, e negou a “Operação Abafa”. Ele forneceu informações desencontradas sobre o caso, mas se ofereceu para colaborar com a Comissão fazendo gestões com os atuais gestores da Petrobrás.

“Nós só abrimos a tampa do caldeirão e não conseguimos resolver todos os problemas. Deve ser jogada mais luz neste caso tão grave, valorizando-se os trabalhos das Comissões de Cubatão”, acrescentou numa referência, principalmente, a Comissão formada pela subseção da Ordem dos Advogados para investigar o incêndio.

Como foi

O incêndio da Vila Socó, como ficou conhecido no mundo, aconteceu na madrugada de 24 para 25 de fevereiro de 1.984, há 30 anos, na Vila Socó, em Cubatão, resultado do vazamento de 700 mil litros de gasolina das tubulações da Refinaria Presidente Bernardes, da Petrobrás, em função da ausência de manutenção e de um erro de operação.

Segundo as informações oficiais morreram 93 pessoas pessoas, entre homens e mulheres e crianças, porém, investigações do Ministério Público concluíram que o número de mortos foi, no mínimo, 508 pessoas. Seus corpos viraram cinzas – nunca foram encontrados. Nenhum dos responsáveis foi punido e as famílias que tinham crianças de até 12 anos mortas – não foram indenizadas -, pois segundo a empresa, "não eram força produtiva".

Na entrevista, que a Afropress inicia a partir desta quarta-feira (17/09), com candidatos comprometidos com a causa do combate ao racismo e a luta pela igualdade no Brasil, Adriano Diogo, afirma que pretende continuar na Câmara Federal, o trabalho iniciado na Comissão da Verdade “Rubens Paiva”, que ele considera ter "redesenhado" o Brasil: "Existe um Brasil antes da Comissão da Verdade e um Brasil depois da Comissão da Verdade", assinalou.

Veja, na íntegra, a entrevista concedida ao jornalista Dojival Vieira, editor responsável pela Afropress.

AfropressQual a avaliação que faz do seu mandato como deputado estadual, em especial, das iniciativas adotadas para fortalecer os setores de esquerda comprometidos com as transformações estruturais no país?

Adriano Diogo – Considero que este foi um mandato totalmente ideológico e integro que consegui fazer na linha de Direitos Humanos, com o SOS Racismo e a Comissão da Verdade. Foi um mandato em que me reconciliei com a minha própria historia e com a história do povo brasileiro. Abordamos temas como a violência e repressão policial e o genocídio da população preta, pobre e periférica.

Afropress – Como presidente da Comissão da Verdade Rubens Paiva da Assembléia Legislativa de S. Paulo, você colocou na pauta o resgate desse período recente da história do Brasil, de mortos, torturados e desaparecidos pela ditadura militar. Qual o balanço que você faz da Comissão da Verdade Rubens Paiva e em que fase se encontra o Relatório que deverá ser elaborado ao final?

AD – Sem dúvida a Comissão Nacional da Verdade (CNV) foi o projeto mais importante que a presidenta Dilma criou para o Brasil. Foi um grande marco deste Governo. A Comissão “Rubens Paiva” foi um marco significativo da nossa trajetória. Ela fala por si só: é uma comissão formada por militantes experientes e de familiares de mortos e desaparecidos. Existe um Brasil antes da CV e um Brasil depois da CV. O Brasil foi redesenhado.

Assumi toda essa insurgência e mobilização via Comissão da Verdade. A retomada da consciência do povo brasileiro se deu por conta da Comissão da Verdade.

Afropress – Além de um balanço da violência do regime contra as organizações da esquerda que ousaram combatê-lo, foram levantados casos importantes em que o regime atingiu populações civis inteiras, como no caso do incêndio da Vila Socó. Você acha que as duas audiências realizadas – inclusive uma com a presença do ex-presidente da Petrobrás, Shigeaki Ueki ajudaram a esclarecer a "Operação Abafa" desencadeada pelo regime para encobrir o número real de mortos e garantir a impunidade dos responsáveis?

AD – A “Operação Abafa” continua existindo e ainda precisa ser desestruturada. O caso de Vila Socó foi um dos momentos mais importantes e significativos, mas ainda não conseguimos criar a visibilidade e dar o impacto merecido. Vamos continuar dando vasão a este trabalho.

Afropress – De que modo o Relatório da Comissão pode ajudar nos desdobramentos já anunciados com a entrada de uma ação junto à Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA, já anunciada pela Comissão constituída pela OAB/Cubatão para reabrir o caso do incêndio com maior número de mortos no Brasil?

AD – Estamos preparados para dar continuidade a todo o processo. Queremos levar a tragédia da Vila socó para o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, além de recorrer a outros órgão independentes. Nós só abrimos a tampa do caldeirão e não conseguimos resolvermos todos os problemas. Deve ser jogada mais luz neste caso tão grave e valorizando os trabalhos das Comissões de Cubatão.

Afropress – Como deputado federal, de que modo você pretende manter o mandato vinculado e comprometido com os setores mais combativos da esquerda brasileira que não aceitam os limites impostos por certa governabilidade e querem avançar para novos horizontes?

AD – Eu vou continuar representando os setores que estão trabalhando para me eleger e que confiam em mim. Essa candidatura é um produto mais amplo e não é de fachada. A Câmara está muito mal representada em questão de Direitos Humanos. Não é à toa que o Feliciano [pastor Marco Feliciano, acusado pelo ativismo gay de ser homofóbico e de afirmar que a herança africana dos negros brasileiros era amaldiçoada] assumiu a presidência e o Bolsonaro [Jair Bolsonaro, da extrema direita militar] quase a assumiu também. No capítulo da Comissão da Verdade, está devendo mais ainda. Estão faltando representação não só no Estado de S. Paulo, mas em todo o Brasil. É isso que estou me propondo a fazer.

Afropress – Faça as considerações que julgar importantes.

AD – Considero o trabalho da Afropress, da Comissão da Verdade e da Comissão de Cubatão. Não me conformo que em Cubatão as pessoas não saibam nada sobre a tragédia da Vila Socó. O Brasil está complicado desse jeito por conta desse vazio, desse titubeio. Mas nos temos que encarar e enfrentar essas revelações, para que nem os crimes de ontem e do presente continuem impunes.

 

 

Da Redacao