Porto Alegre/RS – Dois dias depois de ser anunciado como o maior acordo da América Latina em que o Carrefour pagará R$ 115 milhões por intermédio de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado com os Ministérios e Defensorias Públicas do Estado do Rio Grande do Sul e da União, com o Ministério Público Federal do Trabalho e com as ONGS Educafro e Centro Santo Dias dos Direitos Humanos, de S. Paulo, o acordo passou a ser questionado fortemente por lideranças negras e pelo advogado Hamilton Ribeiro, defensor da viúva Milena Freitas.

Em entrevista exclusiva à Afropress, Ribeiro considerou “um acinte, um deboche, um tapa na cara” que pelo TAC assinado, os advogados da Educafro devam receber mais que que a própria família, fazendo referência ao fato de que os honorários devem ficar em cerca de R$ 5 milhões, “pelo menos, 20% mais do que todos os valores pagos a família”.

“Uma indenização como a que nós fizemos no acordo, tanto nós quanto o resto da família, provavelmente, todos os valores somados são menores do que, supostamente, receberão os advogados da Educafro, que parece que vai chegar em torno de 5 milhões. Todas as indenizações somadas, a da Milena, a da Stefany, que é a enteada, a do “seo” João, que é o pai do Beto, a dos filhos de sangue, não atingem os honorários que serão pagos no TAC para os advogados. Eu não estou aqui dizendo – e eu sou advogado também – que os advogados não devam receber os seus valores,  de forma coerente e de forma que satisfaça, realmente, o trabalho. Porém, quando eu comparo o que receberam os diretamente envolvidos na situação, ou seja, os familiares, os filhos de sangue, a viúva  e a enteada que morava com ele, e saber que os advogados que a associação Educafro de S. Paulo vão receber  mais honorários do que a própria família, eu acho um descalabro, acho uma acinte, um deboche, um tapa na cara, tanto do Ministério Público, quanto da Defensoria Pública deixar que isso tipo de coisa aconteça. Porque, embora seja lícito que os advogados recebam um valor condizente, deixar que os honorários que é a parte mais singela do que será pago no TAC, ser maior do que foi pago para a família, para mim é um tapa na cara, pra mim é um deboche. O Carrefour é o grande responsável por isso”, garantiu.

O advogado, na entrevista, contou os bastidores da negociação com o Carrefour, o papel e a postura de total falta de solidariedade com a família que tiveram as entidades do movimento negro beneficiárias do TAC (“a Milena, nunca recebeu uma única ligação”) e anunciou que ele e o colega Carlos Barata estão ingressando com ação de indenização por danos morais contra o Carrefour por terem sido atacados pela rede de hipermercados na sua imagem profissional, na estratégia da empresa de jogar a opinião pública contra a viúva e seus defensores.

Veja, na íntegra, a entrevista concedida ao jornalista e editor responsável pela Afropress, Dojival Vieira.