Havemos de fazer melhor – e em alguns casos já estamos mesmo a fazer melhor. O que não significa que baixemos a guarda e que comecemos a enveredar por um discurso triunfalista.
Porém, esta é também uma época que me deixa um tanto triste pelo estado das coisas. E uma dessas coisas é a qualidade de quem está à frente na gestão dela, a herança (e não me venham com a demagogia de que todos somos responsáveis, quem não tem como intervir na gestão e nas decisões não pode ser responsabilizado de igual forma que um governante).
Apesar de não ser muito adepta de biografias, há algumas que me apaixonam (Che Guevara, Mahatma Ghandi, Nelson Mandela, Edward Said, Kwame Nkrumah…). E há pouco tempo li um livro intitulado “Jamais Ceder: os Melhores Discursos de Winston Churchill”1.
Quem lê este livro fica com a nítida noção da importância deste político britânico, o seu lugar na história do seu país e da Europa, por se tratar de alguém que governou a Inglaterra – na altura um grande império – em situações bem difíceis para os europeus, quando se confrontavam com um ditador louco (e não serão todos os ditadores loucos?), que conseguiu fazer as alianças certas para impedir a dominação da Europa pela Alemanha nazi e de ser, por isso, para todas as gerações seguintes de britânicos e europeus, como um exemplo de político e de cidadão. Ele há políticos que realmente fazem a diferença.
Ora, Churchill não foi apenas um bom político. Bons políticos, não sejamos niilistas, há muitos, felizmente. Tal como o sul-africano Nelson Mandela não é apenas um bom político e exemplo de democrata.
Não é por acaso que os relaciono: estão os dois, Churchill e Mandela, desde 2007, lado a lado na Praça do Parlamento, em Londres. A ideia de juntar à estátua de Churchill (que parece olhar de forma protectora para uma das casas da democracia mais antigas do Mundo) a de Mandela foi iniciativa do então (2007) presidente da Câmara de Londres, Ken Livingstone, sob proposta de outro conhecido activista sul-africano branco Donald Woods, aquele mesmo cuja existência, digamos, muitos de nós conhecemos através do filme “Grita Liberdade” protagonizado pelo actor americano Denzel Washington (filme que retrata a vida de Steve Biko, activista anti-apartheid negro, de quem Donald Woods foi amigo).
Pois nem um nem outro, isto é nem Churchill nem Mandela, são apenas bons políticos. E lembro por isso uma avaliação do historiador britânico Timothy Garton Ash que afirmou, numa entrevista radiofónica2, que a Europa está com um défice de líderes, pois há muitos políticos e poucos estadistas, isto é, a Europa estaria com défice de pessoas na política que pensem a longo prazo, planifiquem as acções, pensem em termos supranacionais.
Dizia ele que era precisamente isso que distinguia um político de um estadista – eu diria um bom político de um politiqueiro: este, não importa agora a sua honestidade ou não, é alguém que pensa em termos imediatos, para objectivos a curto prazo e até mediáticos. Por isso, exemplos de estadistas: Winston Churchill, Konrad Adenauer, Jean Monnet, Robert Schuman, Jacques Delors. Vê-se no que está a dar a falta de estadistas: uma Europa sob a batuta de Angela Merker e de Nicolás Sarkozy!
Que diremos nós africanos, dessa diferença? Depois de Gamal Abdel Nasser, Ahmed Ben Bella, Kwame Nkrumah, Amílcar Cabral, Julius Nyerere, Nelson Mandela (porventura o último estadista) que referências mais recentes tem hoje a África? Não que eu esteja à espera que chovam estadistas ou políticos de referência: mas com o que não me conformo é que o futuro dos países fique nas mãos daqueles que não são capazes de pensar para além da rua ou da aldeia em que nasceram ou para além das gerações em que vivem.
Afinal, o país vai continuar: um país não é uma empresa que pode declarar falência. Pode ficar como o Haiti, mas não desaparece. E seria bom que os nossos descendentes se orgulhassem de nós, como hoje nos orgulhamos daqueles que nos conduziram à independência.

Inocência Mata