S. Paulo – O consultor e doutorando em Economia da Educação pela Universidad de León, na Espanha, Leandro Dias, professor da cadeira de Empreendedorismo da Faculdade Flamingo fala nesta quinta-feira (13/11) sobre Afro-Economia, em palestra marcada para começar às 19h, no Auditório da Faculdade (Av. Francisco Matarazzo, 913), próxima às Estações Barra Funda e Lapa do Metrô, em S. Paulo.

Dias, que é ex-ativista da ONG Educafro, maior rede de cursinhos pré-vestibulares para negros no Brasil, considera que o empreendedorismo negro é a única saída que se apresenta para os milhões de afrodescendentes que vivem no território da exclusão em S. Paulo e no Brasil. “A criação de uma rede representativa e colaborativa de investimento, gerenciamento produção e venda de tudo o que temos, podemos e pensamos ter, é a única alternativa para rediscutirmos o poder e é pela relação de poder que se rediscute racismo e nossa demais mazelas, não o contrário”, afirma.

Em entrevista à Afropress, o economista (na foto da capa com o cineasta Spike Lee, durante as gravações do documentário Go, Brasil, go!) afirma que os negros são a maioria da classe C, maioria entre os micro e pequenos-empresários, que movimentam negócios na ordem de R$ 700 bilhões/ano. “O que podemos extrair disso? Agora, ou nos organizamos para sermos o banco e não bancários, para sermos universidade e não bolsistas ou cotistas, para sermos multinacionais no ramo têxtil e não somente box em galerias, para sermos presidente, o Supremo, o Senado, o partido e podermos desta forma realmente rediscutir a distribuição da produção e da riqueza deste país, ou teremos até uma vida mais digna de classe média baixa, mas nunca direitos plenos. Se não nos organizarmos desta forma, continuaremos sendo escravos de um sistema que só nos reconhece como minoria ou quando saímos na mídia”, acrescenta.

Confira, na íntegra, a entrevista.

Afropress – Como vê a saída do empreendedorismo negro como forma de superação do racismo e da desvantagem histórica dos negros brasileiros?

Leandro Dias – Com toda propriedade e risco digo: o empreendedorismo negro é a única saída, e quando digo negro existe um motivo e vou explicar adiante. 

Primeiramente, para respondermos esta pergunta podemos mudar a forma de analisarmos a desigualdade. Podemos, talvez, ao invés de nos compararmos aos brancos ou outros, por que não usarmos a nossa  pluralidade enquanto negros como forma de rediscutir as nossas desvantagens? Ou seja, podemos pensar que além de sermos representados em todas as classes sociais, partidos e até etnias (miscigenação) vivemos em uma economia de mercado onde grupos se privilegiam pela união e estratégia sobre outros. 

Por exemplo: um grande hipermercado oferece produtos a todos cidadãos independente de suas características mas escolhe as marcas, investidores, fornecedores e mão de obra que lhe satisfaça. As pessoas que compõem este grupo exclusivo representam o lado A e são as beneficiadas pelo dinheiro da compra de pessoas de diversas classes, raças e credos que representam o lado B. Pois bem, infelizmente quando analisamos lado A e B, percebemos que em todas organizações de consumo massificado o lado A não tem quase nenhuma representação negra e o lado B tem em sua representatividade sempre mais que 1/3 de consumidores negros. E por que isto acontece?

Básicamente isto acontece porque não nos organizamos para ser o lado A. Pedimos para compor somente o lado A como um percentual que nunca é a nossa representação genuína, uma estratégia que privilegia somente o indviduo e descaracteriza o coletivo.

A criação de uma rede representativa e colaborativa de investimento, gerenciamento produção e venda de tudo o que temos, podemos e pensamos ter é a única alternativa para rediscutirmos o poder e é pela relação de poder que se rediscute racismo e nossa demais mazelas, não o contrário.

Afropress – Quais as lições da palestra do afroempreendedor norte-americano Kumi, do qual você participou recentemente? [Kumi esteve no Brasil recentemente, falando para afroempreendedores na Assembléia Legislativa de S. Paulo].

LD – A lição de Kumi é: hoje nós afrodescendentes somos quase 1 bilhão e 200 milhões de pessoas espalhadas pelo mundo, um número quase igual ao de usuários do Facebook. Logo porque não nos conectarmos pela rede? Foi isto que ele fez. Em poucos meses conseguiu 6 milhões de curtidas na sua página e converteu estas curtidas em venda de produtos. No Brasil virou moda falar de empreendedorismo e o movimento negro acompanhou esta moda, porém, novamente sem estratégia, sem revisitar as bibliografias e, diferente de todos os demais grupos, sem buscar investimentos para projetos produtos, estruturais e lucrativos. O foco sempre é o que chamam de empreendedorismo social ou sem fins lucrativos, enfim, o mundo não funciona assim, a economia não funciona assim e nunca vai existir almoço grátis.

Afropress – Em S. Paulo, os afroempreendedores estão organizados em algum tipo de associação ou entidade?

LD – Não, em sua totalidade ou mínimo percentual definitivamente não. O que existem são organizações que buscam capacitá-los e o CEABRA, não o ANCEABRA, o CEABRA-SP, sim, tem sido há mais de uma década a instituição que dialoga algumas posturas de capacitação de empreendedores negros.

Afropress – O Projeto Brasil Afroempreendedor está contemplando a maioria dos que tem alguma iniciativa?

LD – O Brasil Afroempreendedor é uma iniciativa também lotada no CEABRA, um projeto que se bem administrado pode ser uma excelente vitrine nacional no que se refere a capacitação empresarial mas, infelizmente, ainda está muito aquém das reais necessidades dos empreendedores e futuros empreendedores afro. Nós, empreendedores, contamos com diversas ferramentas de formação e conexão e a maioria delas encontramos na própria Internet, em alguns meios que todos conhecem: Google, Youtube e Facebook. Hoje devemos focar este tipo de investimento em infraestrutura, marketing e dados não mais em estratégias de pequenos grupos ou pessoas. Cansei de ver diversos projetos com grana de fundações, empresas e Governos, mas cuja pretensão, não passava de um ano, ou seja uma ação paliativa no combate a desigualdade.

Atualmente a desigualdade em um mundo amplamente capitalista se combate com recursos materiais e financeiros. Estamos aprendendo a rediscutir a presença do dinheiro em nossas vidas e quando estivermos maduros o suficiente faremos jus a realidade de sermos a maioria de pessoas neste país e o país com maior presença negra fora de África. ''Preto e dinheiro são palavras rivais, é? então mostra para esses cú como é que faz'' – Racionais Mc's

Afropress – Como está vendo o movimento negro hoje em face do novo momento político que está sendo vivido no país?

LD – Os investimentos sociais hoje que combatem o racismo ou qualquer outra forma de desigualdade não podem mais financiar, congressinhos, palestrinhas, cursinhos, seminários de um ou de outra pessoa ou movimento, precisamos dar continuidade a estratégia.

Percebam: estamos hoje em maioria semi-conectados pela Internet, mas em minoria, presentes em todos partidos, fundações, associações, empresas e Governos. Somos a maioria da classe C, maioria entre os micro e pequenos empresários e movimentamos quase R$ 700 bilhões no ano. O que podemos extrair disto?

Agora, ou nos organizamos para sermos o banco e não bancários, para sermos universidade e não bolsistas ou cotistas, para sermos multinacionais no ramo textil e não somente box em galerias, para sermos presidente, o Supremo, o Senado, o partido, e podermos desta forma, realmente, rediscutir a distribuição da produção e da riqueza deste país, ou teremos até uma vida mais digna de classe média baixa mas nunca direitos plenos. Se não nos organizarmos desta forma, continuaremos sendo escravos de um sistema que só nos reconhece como minoria ou quando saímos na mídia. Tudo que negros em movimento e os movimentos negros fizeram até o momento foi excelente, acredito que conseguimos muito, sou militante a cerca dez anos e fui cotista na universidade, porem frequentei os cursos mais tradicionais das universidades mais conservadoras, inclusive militares, trabalhei em áreas e empresas extremamente conservadoras e, nestes espaços, pude conhecer as estratégias de alcance a manutenção do poder. Foi nestas instituições que percebi que todos os grupos tem uma estratégia de poder menos os afrodescendentes. Vejam o caso dos bolivianos, são um caso silencioso de vitória a cada ano que passa, e isto ocorre, sobretudo pela união.

Ou nos unimos em pról de uma economia nossa ou estaremos majoritáriamente fadados à subalternidade, e isto é orgânico em qualquer país da África ou da Diáspora.

Afropress – Qual o projeto no qual está trabalhando no momento?

LD – Estou trabalhando em uma plataforma cuja principal pretensão é unir, gerar dado, conhecimento. Estar na vanguarda do que está chegando, estar na vanguarda do big data, que já está entre nós e significa total rastreabilidade de todos nossos passos e tendências. Isto é irreversível, e já acontece quando você compra um celular. Pois bem, hoje ''dados'' é o papel mais valorizado de qualquer mercado de capitais. Somos quase 1/3 do Planeta e me especializei para dirigir a plataforma que irá produzir o melhor tipo de dados sobre afrodescendentes no mundo. E acredite: isso já está acontecendo e em modelo econômico altruísta. A Afropress será o primeiro espaço editorial que divulgaremos a plataforma.

Da Redação