S. Paulo – Para o advogado capixaba, André Luiz Moreira, ativista do movimento negro e antirracista, a crise política provocada por manifestações que tomaram as ruas em todas as cidades brasileiras há cerca de 20 dias, revela o “déficit de representatividade e a incompatibilidade entre o modelo representativo existente no Brasil e os anseios da maioria da população”.

“O sistema de representação que a gente tem hoje não representa sequer proporcionalmente a população brasileira. Só prá gente tratar de um tema que é nosso, a quantidade de negros representados nas Assembléias, no Senado, no Congresso, é muito menor que a parcela de cidadãos negros no Brasil. No Caso do Senado, por exemplo, nós temos um negro que é o Paim [senador Paulo Paim, petista pelo Rio Grande do Sul). Estados majoritariamente negros como o Espírito Santo, a Bahia, não tem representação negra. O Executivo e o Legislativo não representam a população. Não são uma fotografia do que é a população brasileira e este déficit mais cedo ou mais tarde ia ser cobrado e está sendo cobrado nesse momento”, afirmou.

Na entrevista ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira (veja a entrevista no vídeo em TV Afropress), o ativista disse que a ausência de respostas do movimento negro se dá pelo fato da maioria das lideranças terem sido cooptadas pelos governos. “Acho que houve um engessamento do movimento pela participação desse movimento nos governos, com uma agenda que é mais dos governos para os movimentos, do que propriamente dos movimento para os governos. É mais uma agenda de evitar o embate, uma pressão da população negra para a igualdade em relação aos governos do que exatamente de incorporar essas demandas as pautas dos governos”, acrescentou.

Segundo ele, a mesma cooptação aconteceu com o movimento sindical e que agora é hora dos negros brasileiros se organizarem. “O Brasil tem cara e a cara dele é essencialmente também uma cara negra, e essa cara tem de estar muito bem representada. Infelizmente, por aquilo que agente já falou, o movimento negro não está preparado e não se organizou para esse momento. Então vamos nos organizar no movimento. Esse é o momento. A gente fala que é “calçar o sapato enquanto anda”. Eu acho que agente vai ter de fazer isso, por um erro histórico do movimento negro”, concluiu.

Veja a entrevista na íntegra.

Afropress – Como está vendo as imensas mobilizações de massa que estão ocorrendo no Brasil, de norte a sul, já há mais de 20 dias?

André Luiz Moreira – O que acho que está acontecendo é que o Brasil há muito tempo tem problemas com o sistema representativo. A gente tem um déficit de representatividade. Uma incompatibilidade entre o modelo representativo real e os anseios da população. Uma coisa que a gente pode lembrar é que o sistema de representação que temos hoje no Congresso, por exemplo, (e isso se repete nas Assembléias e nas Câmaras Municipais), não representa sequer proporcionalmente a população brasileira.

Só pra tratar de um tema que é nosso, a quantidade de negros representados nas Assembléias,  no Senado, no Congresso, é muito menor do que a parcela de cidadãos negros no Brasil, a gente sabe bem disso. No caso do Senado a gente tem um negro, que é o Paim [senador Paulo Paim], que é oriundo do Rio Grande do Sul. Estados majoritariamente negros como o Espírito Santo, a Bahia, não  tem representação negra. E aí a gente tem esse déficit de representatividade, no sentido de que o Executivo e o Legislativo não representam a população. Não são uma fotografia do que é a população brasileira e esse déficit mais cedo ou mais tarde ia ser cobrado e está sendo cobrado nesse momento.

Afropress – Qual a posição que você acha que nós negros brasileiros, militantes ativistas – e somos milhares pelo país – qual a posição que nós devemos levar para às ruas, que propostas nós podemos apresentar nessa agenda nova que está sendo construída nas ruas?

ALM – Pois é. Nós temos que lembrar que hoje a gente se ressente do fato do movimento negro não está organizado para esse momento. Os meninos do MPL [Movimento Passe Livre] são organizados, outras bandeiras já estavam meio que pressentindo que um movimento desses estaria para acontecer, estão organizados; o movimento negro parece que desapareceu no tempo, todo o acúmulo desde os anos 60, parece que foi perdido e a gente não sabe mais o que fazer.

Afropress – O que aconteceu?

ALM – Eu acho que efetivamente o fato de que houve um engessamento do movimento pela participação desse movimento nos governos, com uma agenda que é mais dos governos para os movimentos, do que propriamente dos movimento para os governos. É mais uma agenda de evitar o embate, uma pressão da população negra para a igualdade em relação aos governos, do que exatamente de incorporar essas demandas às pautas dos governos.

Afropress – Ou seja, estamos falando de cooptação…

ALM – É, é um tipo de cooptação que aconteceu com o movimento sindical e aconteceu com o movimento negro. Isso é muito óbvio. Então, o que a gente precisa fazer hoje? Primeiro pensar na condição universal da reforma da democracia brasileira. E depois dessa reforma da democracia, especificamente no sentido mais universal, a gente tem que conquistar o processo legislativo, o processo executivo para que haja maior controle da população sobre o resultado da atuação desses poderes. Especificamente em relação ao negro a gente tem de começar a pensar que o Brasil não pode continuar tendo uma representação que não é a cara do país. E se há mais de 50% de negros compondo a população brasileira. É preciso ter esse percentual representado nos poderes, principalmente nos poderes cuja representação é proporcional, especificamente no Congresso, e mais especificamente na Câmara dos Deputados.

A gente precisa (e isso foi uma conquista do movimento feminista) ter a cota, porque a gente não conseguiu historicamente vencer o preconceito naquilo que ele está enraizado na vida cotidiana do Brasil. Nesse momento, me parece que a cota é importante. Se há cota para mulheres por conta da pouca representatividade porque não haver cota para negros? A gente vê o impacto desproporcional do processo de discriminação na representação política. A gente tem poucos governadores, poucos prefeitos, nunca tivemos um presidente negro. Os EUA com muito menos na população já tem um presidente negro. E especificamente no Congresso temos uma representação muito baixa.

Afropress – Não te parece que esse é o momento de levantar a bandeira da complementação da Abolição, que nunca foi concluída nesse país?

ALM – É isso mesmo. E isso que a gente fala que uma reforma política vai ter que integrar mais homens e mulheres negras à vida política do país, às decisões políticas do país. É disso que se está tratando. Acho que isso só pode se efetivar através de um processo constituinte exclusivo prá mudança na legislação política, no que trata aos partidos, da repersentação nas Câmaras, Assembléias e Congresso Nacional, especificamente, tratando desses instrumentos de maior participação geral do povo, mais também maior participação dos negros na vida política do país.

Afropress – Na sua opinião, que Brasil surgirá desse verdadeiro tsunami que nós estamos vivendo há cerca de 20 dias, que de fato, fez com que políticos, os poderes todos, parece que há uma sensação muito nítida, de que estão todos correndo para tentar salvar suas próprias peles?

ALM – O que espero é que seja um Brasil mais democrático, mas ninguém tem garantia do que ele será, até porque todo o processo como esse que se vive agora, não é um processo com garantias. A garantia que agente tem é de que há um processo e que ele abre a possibilidade da gente evoluir nessas instituições, aperfeiçoar as instituições da democracia brasileira. Agora, garantia não há. Eu espero que seja um Brasil mais democrático e um Brasil racialmente mais democrático.

Afropress – Por último, o que você diria para os negros, centenas, que estão indo as ruas nessas mobilizações?

ALM – Para as pessoas se organizarem enquanto participantes desasa condição do negro. O negro está dentro do movimento, mas tem se organizar como negro, prá gente não perder a oportunidade que a gente tem nesse momento de mostrar que o Brasil tem essa cara, que não é só a cara que a gente vê no Congresso, nas Assembléias, nos Governos. O Brasil tem uma cara e a cara dele é, essencialmente, também uma cara negra e essa cara tem de estar muito bem representada. Infelizmente por aquilo que a gente já falou, o movimento negro não está preparado e não se organizou para esse momento. Então, vamos nos organizar no movimento, esse é o momento. A gente fala que é "calçar o sapato enquanto anda". Eu acho que a gente vai ter de fazer isso, por um erro histórico do movimento negro.

Da Redacao