Cubatão/SP – Apesar de ser uma instituição marcada pelo veto à presença de negros em seus quadros, não há mais “preconceito étnico" na Polícia Civil de S. Paulo e o negro está totalmente integrado. Quem garante é o delegado Paulo Roberto de Queiroz Motta, há 38 anos na Polícia, e que faz pelas redes sociais um trabalho de resgate da história da corporação. (http://memoriadapoliciacivildesaopaulo.com/)

Mesmo assim, ele reconhece que “a erradicação do racismo é condição fundamental para uma Polícia efetivamente cidadã”. “O alto escalão da Polícia Civil ainda se ressente de mais negros”, reconheceu, apesar de considerar que a discriminação se dá mais "por fatores econômicos do que de raça”.

No edital de recrutamento da Guarda Civil, em 1.929, foi lançada uma circular com a proibição explícita à presença negra, com a exigência de que os candidatos deveriam ser de, de preferência, de "cor branca". “Senhor Delegado, solicito as vossas providencias no sentido de serem angariados neste município e apresentados nesta capital, na Guarda Civil, indivíduos que desejem alistar-se nessa corporação. Os candidatos deverão reunir as condições essenciais exigidas pelo respeitoso regulamento e que são; 1 metro e 72 centímetros de altura, no mínimo, saber ler e escrever, ter boa conduta, idade mínima 22 anos, preferindo-se homens robustos, maiores de 25 anos, de cor branca, de boa dentição e constituição física perfeita”, dizia a circular publicada no Diário Nacional de 12 de junho de 1.929.

Na década de 70 a Guarda, criada em 1.926, seria extinta e a maioria dos seus integrantes passou a integrar os quadros da Polícia Militar ou optou pela Polícia Civil.

Resgate da história

O interesse do delegado, que hoje é titular do 2º DP de Cubatão, na Baixada Santista, em S. Paulo, pelo resgate da história da Polícia Civil – e consequentemente da presença negra nos seus quadros – começou porque segundo ele há muita distorção nas redes sociais e porque as pessoas quase sempre esquecem que a Polícia também é formada por cidadãos. “Estou há 37 anos na Polícia Civil e sempre estudei a história da instituição. Mas, com o surgimento das redes sociais, percebi que nossa história verdadeira estava sendo desvirtuada, só aparecendo na mídia fatos negativos. Esclareço que me vangloria muito estar participando nesta empreitada no resgate da história de nossos irmãos [negros]”, afirmou.

Veja, na íntegra, a entrevista concedida pelo delegado à Afropress:

Afropress – Como o senhor vê hoje a situação do negro na Polícia Civil de S. Paulo? Tem dados sobre qual a porcentagem de negros que pertence a corporação?

Paulo Roberto de Queiroz Motta – Hoje na Polícia, o negro está integrado de tal forma, que não percebo nenhum tipo de preconceito étnico na instituição.

Afropress – De 1.929, quando havia um veto explícito à presença negra, aos dias de hoje, como avalia os avanços que foram feitos e o que mais precisa ser feito para que a Polícia Civil de S. Paulo seja regida pelo princípio constitucional da igualdade?

PRQM – Como já respondi na pergunta anterior, desconheço algum tipo de discriminação.

Afropress – A presença negra é maior na Polícia Civil do que na Polícia Militar?

PRQM – Acho que está igualada a quantidade de negros na Polícia Civil e Polícia Militar, talvez tenha que se avaliar estes dados com relação aos oficiais e delegados.

Afropress – Há quantos anos o senhor está na Polícia Civil e quando começou o seu interesse em preservar a história da corporação?

PRQM – Estou há 37 anos na Polícia Civil e sempre estudei a história da instituição, mas com o surgimento das redes sociais, percebi que nossa história verdadeira estava sendo desvirtuada, só aparecendo na mídia fatos negativos.

Afropress – O senhor considera que a erradicação do racismo é condição para uma Polícia efetivamente cidadã?

PRQM – Sem dúvida, a erradicação do racismo é condição fundamental para uma Polícia efetivamente cidadã.

Afropress – Por gentileza, cite alguns nomes de negros que se destacaram e quais as funções ou cargos que ocuparam.

PRQM – Na história da Polícia Civil de São Paulo, muitos afrodescendentes se destacaram como grandes profissionais. Vamos lá: Nas décadas de 50 e 60, podemos elencar o investigador Antônio Deodato da Fonseca, "Deusdato". Nas décadas de 70 e 80, os investigadores Lourival Carneiro, hoje presidente do Sindicato dos Investigadores do Estado de São Paulo, Darcy Resende e outros.

Da Redacao