Esta proibição, não escrita, da entrada de africanos no Brasil, era desnecessária, pois a maioria dos africanos, até 1975, não podia viajar. Vítimas que eram do aprisionamento coletivo provocado pelo colonialismo que durou nas colônias portuguesas até 1975.
Trabalhos forçados, palmatórias e castigos corporais faziam parte do cotidiano dos milhões de habitantes da ex-colônias portuguesas, até a saída do último navio português carregado de tropas coloniais das terras de Angola.
Até 1975, os africanos que falam a mesma língua colonial que nós brasileiros, viviam na mesma ilha cultural, que nós brasileiros vivemos até o fim do regime militar no Brasil.
Provavelmente estes africanos contemporâneos nosso pensavam em seu senso comum, que o mundo era assim mesmo, brancos superiores de um lado, e pretos inferiores do outro lado. O acesso à leitura e à informção eram vedados a estes povos. Era a política sistemática de desinformação das populações para manterem-nas caladas, e para que aceitassem como natural o colonialismo e a escravização dos povos baseados em sua cor da pele, ou hierarquizados como primitivos ou civilizados.
Para que pensemos e como poderia pensar um africano das colônias portuguesas até 1975, basta fazermos um viagem mental até antes de 1888 no Brasil. O mundo era assim mesmo, brancos com tudo de um lado, e pretos sem nada do outro.
O ilhamento cultural, político e econômico em que viveram os africanos das colônias portuguesas até 1975, tem seu espelho nos brasileiros de minha geração.
Nós em 1960 só conhecíamos os africanos através dos filmes de Tarzam, assim como os únicos índios que conhecíamos eram a Ceci e o Peri das modinhas de carnaval.
É neste quadro de desinformação generalizada de minha geração, que procuro entender a ingenuidade, do senhor Jô Soares, que por acaso estou escutando deliciosamente em sua leitura do poeta português Fernando pessoa.
O senhor Jô Soares escorregou na casca de banana da ignorância consensual brasileira sobre os males do colonialismo e da mancha barbosiana da escravidão jogada para debaixo do tapete da consciência de culpa brasileira.
Escravidão e colonialismo são dois horrores, que nem Cacá Diegues de Ganga Zumba conseguiu glamouriar em Quilombo, apesar de tentá-lo.
Talvez por esta ignorância, e por suas visitas constantes à Portugal, Jô Soares, acha que está tudo bem, e que o barbosianismo funciona também no terceiro milênio.
Barbosianismo, eu defino como resolver um problema, apagando-se o passado da história.
O povo português ainda vai levar muitos anos para “trabalhar” em sua mente este passado ultramamarino. Lhes desejo sorte coragem e responsabilidade.
Nós brasileiros temos uma tarefa não menos penosa. Que é aceitar a nossa brutalidade herdada do colonialismo e da escravidão.
Somos a sociedade construída no relho. Na violência exponencializada no torná-la natural.
Só assim dá para entender a ignorância da equipe jornalística do Jô Soares ao “talkar” com este simplório “taxista” colonial angolano.
Tem seu lado positivo toda esta encenação. Pois nos revela até que ponto o poder que mesmo um finório representante do colonialismo possuia em Angola sobre as almas e corpos das peças humanas que eram os habitantes negros destas terras.
O colonialismo e a escravidão formou nossas almas neste grande império ultramarino. São nas piadas que escorregamos. É preciso ter coragem para nos conhecermos. A brutalidade deste sistema que durou 500 anos nos fez todos menos humanos. Ainda temos tempo de recuperar nossa humanidade, é só começar.

Marcos Romão