Rio – As declarações da estilista Glória Coelho, que diz não saber porque negros deveriam estar na Passarella em eventos da moda, continuam repercutindo não apenas no mundo da moda. “Ela não sabe que é preconceituosa. Eu vou crer nisso. Isso é preconceito. Ele só serve para servir, o negro. Para brilhar na passarela, para ser internacional, para ganhar dinheiro, como a Gisele ou como qualquer um, não pode. É horrível isso. Dói. Isso dói muito, sabe? E tenho pena. Eu tenho pena. Tenho, realmente”, afirmou a atriz Isabel Fillardis.
Em entrevista concedida a Thais Bilenky, de Terra Magazine, Fillardis, que começou sua carreira de atriz como modelo pela Agência Ford Models, afirmou que fará coro Promotora de Justiça Déborach Kelly Affonso, do Grupo Especial de Inclusão Social do Ministério Público de S. Paulo quer que as grifes adotem cotas para modelos negros nos desfiles deste ano.
As declarações de Glória Coelho foram feitas ao repórter Paulo Sampaio, da Folha de S. Paulo e publicadas na edição do último domingo da Folha de S. Paulo e em E-mail enviado à Afropress (veja matéria).
Leia, na íntegra, a entrevista concedida a repórter Thais Bilenky.
Terra Magazine – Como avalia a proposta do Ministério Público de criar cotas para modelos negros em eventos de moda?
Isabel Fillardis – Essa discussão é muito ampla. Não existe só um ponto. Por um lado, o Paulo Borges (organizador da SPFW) está certo. Cada um tem o direito de escolha, de querer aquela ou aquele modelo na passarela, com a sua roupa. Mas existe a questão também, (de que) se a gente for colocar cota para tudo, onde é que vai estar a capacidade de cada um? Onde é que está o talento de cada um? A mesma coisa com cota na universidade. A coisa é muito mais profunda do que você simplesmente gerar uma cota para o negro poder trabalhar, seja em qual profissão for, em qual área for. Eu acho que tem que haver outro tipo de discussão. Discutir o por que do preconceito, de onde vem este preconceito, como é que a gente faz para eliminar este preconceito. Porque é uma coisa que está muito mais no subconsciente das pessoas. O preconceito não é uma coisa visível. E se você discutir com alguém, ninguém diz que tem preconceito e nem o por que de ter o preconceito. A questão do preconceito racial vem há tanto tempo, é tão enraizado, que ficou incutido no subconsciente das pessoas que o negro não é capaz de pensar, não é capaz de produzir por si próprio. O negro só serve como burro de carga e o negro é fedido, o negro tem cabelo duro… E por aí vai. Então, como é que a gente faz para mudar a cabeça das pessoas? Porque muita gente pensa assim. Entendeu, filha? Muita gente, que está ali, que é empresário, pensa dessa forma.
Terra Magazine – Um jeito de começar a discussão e mudar essa mentalidade é a inclusão por cotas para negros? A inciativa é válida?
Fillardis – É válida até certo ponto. Eu acho que não adianta você pegar e impor, tanto para uma universidade ou um empresário, sem pegar este empresário e discutir o por quê. Eu acho que tem discutir com as pessoas por que elas não me escolhem, ou por que elas têm preconceito. Não só perguntar para nós, negros, o que a gente poderia fazer para mudar isso. Porque a gente quer trabalhar. A gente se vê como igual, e eles não nos veem como igual. Por que não? Onde é que está isso (a discriminação)? Você tem o direito de não me contratar para a sua empresa, mas você não pode me pré-julgar pela minha cor. É muito diferente. Você pode dizer para mim que eu não sou capaz, ou que não estou apto a fazer parte do seu casting, ou da sua empresa. Mas você tem que me explicar o por quê. No Brasil a gente não admite isso porque é o país mais miscigenado do mundo.
Terra Magazine – É difícil qualificar quem é e quem não é negro.
Fillardis – É dificíl você dizer quem é e quem não é negro. A não ser que a pessoa tenha realmente a pele bem negra. Tem tanta mistura. Então fica complicado. Eu acho que tem que chamar todos estes estilistas e quem interessar e discutir.
Terra Magazine – A visibilidade destes eventos pode fazer uma modelo compentente superar a barreira que o fato de ela ser negra traz?
Fillardis – Eu acho que sim. Aí entra a questão da cota, que é a questão da oportunidade. A gente só vai conseguir enxergar estes talentos quando forem dadas as oportunidades. Impostas ou não. Através de cotas ou não. Não tem como você descobrir talentos se você não dá a oportunidade, em qualquer área. O que eu coloco é o empresário ser obrigado a contratar o negro por conta de cota e a pessoa falar: “caraca, cadê meu talento? Eu estou aqui porque foi obrigado colocarem a cota”. A autoestima deste negro, como é que fica? Alguns aceitam muito bem, outros não aceitam muito bem. Isso é muito dividido. Eu já ouvi várias opiniões. Eu já ouvi opiniões de negros falando “eu não aceito cota. Eu quero que a pessoa me reconheça pelo meu valor”.
Terra Magazine – Você se sentiria bem em ser contratada por cota?
Fillardis – Não, não. Eu sei que eu sou capaz. Se eu tiver que fazer um teste para me escolherem, eu prefiro fazer o teste do que ser colocada por cota. Se o cara fala para mim: “não, Isabel, você não passou no teste, você não me agradou, eu acho que você não está para fazer…”, é uma coisa. Agora o cara nem me dar a oportunidade de eu mostrar o meu trabalho porque eu sou negra, aí não, aí eu não concordo, aí é complicado. Acho válido fazer uma discussão, promover um fórum, um bate-papo, seja lá o nome que a gente queira dar, e convocar as pessoas cara-a-cara para discutir.
Terra Magazine – Glória Coelho disse que “na Fashion Week já tem muito negro costurando… por que têm de estar na passarela?”. Como você recebe este comentário?
Fillardis – A Glória Coelho falou isso? Está vendo, minha filha, aonde está o preconceito? Eu não preciso nem responder nada… Eu fico pasma. O negro só pode ser serviçal, você está entendendo onde está o preconceito? Está no subconsciente das pessoas. É subliminar. Ela não sabe que é preconceituosa. Eu vou crer nisso. Isso é preconceito. Ele só serve para servir, o negro. Para brilhar na passarela, para ser internacional, para ganhar dinheiro, como a Gisele ou como qualquer um, não pode. É horrível isso. Dói. Isso dói muito, sabe? E tenho pena. Eu tenho pena. Tenho, realmente.
Terra Magazine – Muitas modelos negras já brilharam na passarela.
Fillardis – Muitas, muitas. A gente tem mais graça, mais cor, tudo o que coloca na gente fica bonito. Porque a nossa tez pede cores, pode até usar preto que também cai bem. Eu não vejo essa coisa… O preconceito está na questão de avaliar, de nos avaliar, como se a gente fosse menos que gente. E aí só respeitam, aí vem o outro lado, só respeitam o negro na sociedade aqueles que tem um nível social um pouco melhor. Porque aí tem que respeitar, não vai ter como. Eu quero ver alguém dizer para mim que eu tenho que ficar lá costurando. Vai dizer isso para mim. Ninguém vai dizer.
Filardis – Pode até pensar, mas não vai falar. Não tem peito para falar, não, filha. Que coisa triste. Só teve a declaração dela, ou teve de outras pessoas?
Terra Magazine – Não. Alexandre Herchcovitch, por exemplo, diz que nunca excluiu modelo por causa de cor. O que eles discutem é se a modelo interfere na recepção pelo público da roupa apresentada. Glória Coelho diz que a criação deve emocionar “o nosso grupo, as pessoas que se identificam com a gente”.
Fillardis – Olha só. Ela está escolhendo o modelo para representar sua criação. Ela está visando o cliente. Então ela está querendo dizer que o cliente dela não iria gostar de ver o negro usando a roupa dela. É isso o que ela está querendo dizer. É terrível! Estou assustadíssima com isso. Estou mesmo, estou pasma! Caramba. Olha, é uma pena. É uma pena. Eu acho que tinha que pegar essas pessoas e debater. Sei lá. Agora eu tenho até que fazer coro para a promotora.

Da Redacao