Nova York – O cantor, compositor e ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil, disse que as políticas de ação afirmativa no Brasil, defendidas pelo movimento negro, são "uma compensação equilibradora às discriminações negativas". “Se os negros e outros segmentos da população brasileira, como os índios e setores nordestinos, tiveram discriminação negativa, que lhes impediram oportunidades de trabalho, de educação, oportunidades de convívio pleno na sociedade, se sofreram e ainda sofrem discriminação negativa, eu acho que políticas que proponham, e efetivamente implementem discriminação positiva, são um instrumento de equilíbrio que nós devemos adotar”, afirmou.

Para o compositor baiano, a resistência a adoção de ações afirmativas deve-se ao temor de certos setores da sociedade do "racismo às avessas", temor que considera “infundado”, porque a tendência da sociedade humana hoje “é de pluralismo, multiculturalismo e multirracialismo”. “O perigo de que o retorno a estágios anteriores venha a ocorrer, especialmente no Brasil, eu acho que é um medo infundado e exagerado. A tendência geral da sociedade humana hoje é de pluralismo, de multiculturalismo, de multirracialismo, enfim, porque é assim que os negócios, é assim que o comércio, é assim que o mercado, é assim que os grandes interesses do dinheiro, do capital querem. Como eu dizia, o capitalismo contemporâneo precisa de mercados extensivos, mercados amplos e a constituição destes mercados não virá sem sociedades que sejam pluralistas“, acrescentou.

Na segunda e última parte de sua entrevista ao correspondente de Afropress em Nova York, Edson Cadette, no início deste mês, Gil, além de defender ações afirmativas, falou da Lei 10.639/2003, que institui no currículo das escolas de ensino fundamental e médio, a obrigatoriedade do ensino de História da África e Cultura afro-brasileira, do Dia da Consciência Negra, de como começou abordar a questão racial após o Movimento Tropicalista, de sua passagem pelo ministério da Cultura e que tem ouvido Racionais MC's e música americana, européia e africana no seu IPOD.

Confira, na íntegra, a segunda e última parte da entrevista ao correspondente em Nova York.

Afropress – Qual sua opinião sobre as Ações Afirmativas, introduzidas no Brasil há mais de 10 anos?

Gil – Sou a favor. Sempre me manifestei a favor porque eu acho que a discriminação positiva é uma espécie de compensação equilibradora às discriminações negativas. Se os negros, e outros segmentos da população brasileira, como os índios e setores nordestinos etc, tiveram discriminação negativa, que lhes impediram oportunidades no trabalho, oportunidades na educação, oportunidades de convívio pleno etc, na sociedade brasileira, se eles sofreram, e sofrem ainda esta discriminação negativa, eu acho que polítcas que proponham e efetivamente implementem discriminação positiva são um instrumento de equilíbrio importante que nós devemos adotar. Por isso eu sempre me manifestei favorável a cotas na questão da educação, a programas que contemplem especificamente os negros positivamente. Sempre, sempre fui a favor.

Afropress – Qual e sua opinião sobre a Lei 10.639/2003, que obriga o ensino de história da África e Cultura Afro-brasileira nos currículos das escolas brasileiras, mas que ainda é pouco implementada. Como você vê isso?

Gil – Eu tenho a impressão de que o que inibi um pouco a sociedade brasileira no seu conjunto a admitir, e ao admitir, adotar própriamente os programas de inserção da visão histórica negra nos trabalhos curriculares, nos livros de história etc, etc, é um certo receio do que se chama no Brasil, o racismo às avessas. É o receio de que isto fomente na sociedade brasileira o racismo do negro contra o branco. O receio é que a sociedade brasileira acabe se encaminhando para uma situação parecida com a dos Estados Unidos. Um situação de apartheid, ainda que disfarcado nos EUA. Diferentemente do que foi na África do Sul, que foi explícito. Um certo Apartheid. Que é evidente ainda hoje em dia. Tem diminuido muito, mesmo nos EUA. Por causa das mudanças dos costumes. Especialmente dos meios de comunicação. Por causa daquilo que acabou se admitindo como o chamado capitalismo negro.

A possibilidade do progresso do negro norte-americano na vida econômica, na vida produtiva. Isto tem sido fundamental na área cultural, do entretenimento, dos esportes etc. Onde você tem desenvolvido uma riqueza, digamos assim, em mãos de negros nos EUA. Isto tem ajudado do ponto de vista geral, inclusive na relação física, na aproximação dos negros e dos brancos. A saída dos guetos, os negros tem começado a poder viver em outras áreas. Não as áreas estigmatizadas, como áreas só de negros, excluídas, e de pouco contacto com o resto da sociedade. Portanto, mesmo aqui isto já está acontecendo.

O perigo de retorno a estágios anteriores venha a ocorrer, especialmente no Brasil, eu acho que e um medo infundado e exagerado. A tendência geral da sociedade humana hoje é de pluralismo, de multiculturalismo, de multirracialismo, enfim, porque é assim que os negócios, é assim que o comércio, é assim que o mercado, é assim que os grandes interesses do dinheiro, do capital querem. Como eu dizia, o capitalismo contemporâneo precisa de mercados extensivos, mercados amplos e a constituição destes mercados não virá sem sociedades que sejam pluralistas. Então, eu tenho a impressão que está na direção do próprio interesse daquilo que foi até hoje históricamente os setores dominantes brancos. É do interesse destes setores dominantes que finalmente haja o pluralismo. Pelo menos e assim que eu vejo.

Afropress – Como se sentiu na entrevista promovida pela Biblioteca Pública de Nova York, com todos os lugares tomados e com o clima geral de celebração à sua presença?

Gil – Achei muito interessante. Haviam muitos brasileiros que acompanham meu trabalho há muito tempo. A maioria deles residentes em Nova York. Alguns deles, há muitos anos por aqui. Havia tambem o público deste próprio programa da Biblioteca, que é um programa que já vem sendo feito há mais de 10 anos. Já apresentou mais de 500 palestrantes e entrevistados, enfim, de tantas áreas tambem. Havia jornalistas brasileiros, você é um exemplo.

A mídia norte-americana ontem mesmo na famosa revista “New Yorker” publicou uma matéria muito grande sobre a noitada, enfim… E o Paul é um entrevistador muito carismático, muito dinâmico, e muito atento. Ele faz um trabalho de preparação muito bem feito em relação a biografia dos entrevistados, e os interesses dos entrevistados, aquilo que mais interessa a eles na vida. Então, a entrevista acaba sendo muito interessante e muito dinâmica. E não foi diferente no meu caso. Foi uma entrevista muito boa, muito interessante. Eu mesmo sugeri ao Paul que levasse meu violão, e ilustrasse a entrevista com músicas dos vários períodos que estavam sendo enfocados, e tal. Acabou sendo uma entrevista muito tranqüila.

Afropress – Esta foi sua primeira experiência com este tipo de evento, ou seja, sentado em frente a uma platéia ao vivo?

Gil – Já tive outras oportunidades em televisão. Já tive uma entrevista com o apresentador Charles Rose (apresenta um programa de entrevista todas as noites na rede pública da cidade). Houve outras entrevistas também. Entretanto, este tipo de programa aberto ao público, ao vivo, transmitido apenas pela Internet, que atualmente é uma possibilidade que a gente tem, mais que antigamente só com a televisão e o rádio, agora nós temos também a Internet. Foi a primeira vez neste sentido.

Afropress – Quando se fala em Movimento Tropicalista, pensa-se em Gilberto Gil, Caetano Veloso, Morais Moreira, os Novos Baianos, Gal Costa, Maria Bethania etc. A intencao deste movimento era impor uma nova discussão na realidade cultural em geral dentro do Brasil. Agora, o problema racial brasileiro foi ou não discutido pelo Movimento Tropicalista?

Gil – Não, própriamente. Não me lembro, na época da Tropicália dos temas, ou discussões, ou mesmo das canções tratanto da questão própriamente racial. No meu caso pessoal, por exemplo, isto veio depois. Veio na época do álbum Refavela (1977). Um trabalho posterior ao tropicalismo. Foi deflagrado também um interesse por este tema. Foi deflagrado muito pela minha ida a África, em 1977, para participar do “FESTAC”. Quando eu voltei eu fiz exatamente o disco Refavela. É um disco que discute, não só as questões do racismo/racialismo, mas as questões das dificuldades gerais pelas quais os negros passam no Brasil: acesso à cultura, acesso à educacao, acesso ao espaco midiático, todas estas coisas. Eu diria que o nosso interesse na questão raça, especialmente raça negra, é uma coisa que vem depois do tropicalismo.

Afropress – Ainda sobre a sua entrevista na Biblioteca, você afirmou que o Caetano Veloso chamou sua atenção para sua consciência racial depois que você teve contacto com o cantor Bob Marley e sua música? Explique isto para gente?

Gil – Há um pouco de confusão nesta questão. O que o Caetano disse, é que o Bob Marley teria sido um artista fundamental para a questão da tomada de consciência dos problemas negros no mundo. Dizendo praticamente isto. Sem a existência do Bob Marley, as questões do negro e da negritude, não teriam sido propriamente colocadas em pauta. Adequadamente colocadas em pauta. Como eu disse, nosso interesse, inclusive o interesse dele pela questão racial, já vinha anteriormente à chegada do Bob Marley. Quando ele se referiu ao Bob Marley, ele se referiu no sentido amplo, no sentido mundial. No sentido da Europa, dos EUA, da propria África, enfim, das novas populações, especialmente, seguidores de música. Interessados em questões da raça negra. Tenho a impressão que é isto. Porque o interesse, tanto dele pessoal quanto o meu pessoal em relação à negritute, e seus vários aspectos, data antes da chegada do Bob Marley. No meu caso, como eu disse, desde o disco Refavela.

Afropress – Você diria então que sua música, a partir desta época começou a ser voltada tambem para o problema racial brasileiro, e a invisibilidade do negro no Brasil?

Gil – Acho que sim. Canções como “ A Mão da Limpeza”, as próprias canções ligadas aos filhos de Gandhi. A música “Tradição“, e uma série de outras canções que vem deste período do disco Refavela. E de discos posteriores. Tratam deste vários aspectos, das dificuldades dos negros no Brasil.

Afropress – Você teve passagem política pelo Governo da cidade da Bahia como Secretário de Cultura nos anos 80. Como foi esta experiência? E como ela o preparou para o cargo de Ministro da Cultura nos anos 2000?

Gil – Foi uma experiência muito interessante. Voltando às questões do problema da negritude, naquela ocasião como Secretario de Cultura da cidade de Salvador, nós desenhamos e implementamos muitos programas que atendiam a questão do negro. Um deles foi o “Parque das Folhas Sagradas”. A preservação dos espaços naturais sagrados de rituais negros. Enfim, da religião negra, do Candomblé. E programas de atendimento às comunidades negras. Programas de atendimento aos então nascentes Ilê Ayê, Oludum, que eram grupos culturais que estavam começando naquela época.

E alem disso, nós fizemos uma série de outros trabalhos, contemplando a poesia, contemplando o teatro, contemplando, enfim, os vários grupos que atuavam em Salvador naquela época. Intensificando as relações da Bahia com a África. Promovemos viagens importantes para estudiosos, Pais de Santo, Mães de Santo, estudiosos da questão negra, a África, o Benin, a Nigéria, especialmente, as áreas mais importantes de onde vieram os escravos para a Bahia. Neste sentido, eu acho que foi muito valioso como preparação para a atuação no Ministério durante o Governo Lula.

Afropress – E como foi conciliar a sua carreira artística e política durante o seu período frente ao Ministério da Cultura? Qual foi sua maior realização?

Gil – A conciliação do trabalho se deu com diminuição drástica da atividade artística. O compromisso que eu assumi com o presidente Lula foi exatamente de desacelerar completamente o trabalho artístico no sentido de criar o tempo necessário para atender ao Ministério. As minhas apresentações em concertos, em shows, se restringiram aos finais de semana, quando eu estava fora do Ministério. E houve pequenos períodos de um mês a cada ano no Ministério que eram licenças permitidas. O que poderíamos chamar de férias do ministro. Nestas férias do ministro, eu aproveitava para ir à Europa, ou vir aos EUA e fazer apresentações durante este período. Tambem evitava contratações que conflitassem com a questão ética do interesse governamental.

Então, não era contratado nem por governos, nem por prefeituras, nem por empreendimentos que tivessem ligações diretas com o Governo, e ou o Ministério. E foi assim que a conciliação pôde ser feita durante os quase 6 anos que eu fiquei no Ministério. Os projetos e programas do Ministério foram vários. Porém, eu tenho a impressão que o programa mais celebrado, mais bem acolhido, foi o “Cultura Viva”. Trabalhava diretamente com as comunidades, criando pontos de cultura, que eram programas culturais das próprias comunidades. Várias delas. Hoje em dia são 4 mil pontos de cultura espalhados pelo país. Nós começamos do zero naquela época, hoje já se chega a 4 mil pontos de cultura nas áreas indígenas, nas áreas quilombolas, nas periferias das cidades, até mesmo nos setores da classe média, nas universidades, nas comunidades das favelas, nos centros culturais.

Logo no início do programa tínhamos um ponto de cultura que era num lixão, nos arredores de Maceió. Você sabe que os lixões no Brasil são locais de acorrência de público para procurar coisas para sobrevivência. Neste local nós instalamos um ponto de cultura que permitia aquelas pessoas terem uma atividade cultural, trazerem suas questões culturais, seus programas, seus projetos culturais e terem acessos tambem a programas ofertados pelo Ministério, pelo município, ou pelo Estado, e até mesmo pela comunidade. Então, eu tenho a impressão que este programa, os pontos de cultura dentro do programa “Cultura Viva” foi o mais bem acolhido, e o que resultados mais diretos acabou apresentando.

Afropress – Você tem Ipod?

Gil – Sim.

Afropress Você escuta no Ipod? 

Gil – Um pouco.

Afropress – O que você esta escutando últimamente?

Gil – Eu escuto muita coisa, em geral, música brasileira. Lançamentos recentes. Música norte-americana, o pop norte-americano, o pop europeu, música africana. É muito variado o que eu escuto.

Afropress – Você escuta música rap brasileira?

Gil – Um pouco. Os Racionais, os rappers menos conhecidos. Agora o Crioulo que esta surgindo com muita força no Brasil.

Afropress – Gostaria que você fizesse suas considerações finais neste quase 20 de Novembro.

Gil – É mesmo. Dia da Consciência Negra no Brasil. Assim como o Dia do Martin Luther King Jr. aqui nos EUA, que foi uma data pela qual muitos lutaram, mais especificamente alguns com mais empenho, entre eles o Stevie Wonder. Eu me lembro que me encontrei com o Stevie Wonder em Washington numa ocasião em que ele lá estava em busca de apoio para que esta data se tornasse oficial. O Stevie Wonder foi um batalhador por esta data aqui nos EUA. Muitos de nós fomos batalhadores pela data da Consciencia Negra, e pelo Dia do Zumbi no Brasil. Eu acho que tudo isto faz parte exatamente deste conjunto de luta pela redenção definitiva das populações negras no mundo inteiro, onde quer que elas existam, onde quer que elas tenham sido, como foram, históricamente discriminadas. Isto é como diz Bob Marley: “Redemption Song”, pela redenção do homem negro no mundo.

Afropress – Muito Obrigado.

Gil – Obrigado a você!

Da Redacao