S. Paulo – O coordenador Acadêmico da Faculdade Zumbi dos Palmares, Hédio Silva Jr., um dos nomes mais respeitados do movimento negro brasileiro, fez nesta quarta-feira (27/03), uma defesa enfática do programa de inclusão de negros e indígenas nas universidades paulistas, lançado pelo Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (CRUESP), com o aval do governador Geraldo Alckmin.

“Do ponto de vista conceitual a iniciativa é mais arrojada do que a federal [a Lei 12.711/2012, sancionada pela presidente Dilma Rousseff], que criou cotas sócioraciais nas instituições federais de ensino médio e superior”, afirmou Hédio, durante o debate promovido pela Palmares que reuniu o ex-reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Naomar de Almeida Filho e o responsável pelo programa paulista, reitor Carlos Vogt.

Segundo Hédio, também do ponto de vista material o Programa Paulista representa uma vantagem sobre o federal, porque prevê um Fundo que, em três anos, será de R$ 94,6 milhões para a assistência a estudantes pobres e negros, o que não está previsto na Lei Federal.

O Programa de Inclusão Social ao ensino Superior, que não prevê cotas, mas metas, vem sendo fortemente contestado por ativistas reunidos pela Frente Pró-cotas do Estado de  S. Paulo, que o rejeita em todos os seus termos e defende os dois Projetos de Lei que tramitam na Assembléia Legislativa (o PL 530 e PL 321), de deputados do PT, que propõe a adoção de percentuais de cotas para negros e indígenas.

“Sob qualquer ponto de vista, o projeto é positivo. Essa partidarização tem um dado de racismo. O pai dessa criança não é o partido A, nem B, é o movimento negro brasileiro”, afirmou, numa referência ao fato de partidos de oposição à Alckmin – especialmente o PSOL e o PT – promoverem uma campanha contra o Programa, a quem atribuem “ser racista e discriminatório”.

Defesa da proposta

No debate coordenado pelo reitor José Vicente (foto) e que reuniu professores e estudantes da instituição, o reitor Carlos Vogt, forneceu números, defendeu a proposta e bateu na tecla de que o programa representa um avanço na medida em que prevê para os próximos três anos, a reserva de 50% das vagas (inclusive nos de maior prestígio como Medicina e Engenharia), para estudantes oriundos da escola pública “em cada curso, em cada turno”. “O passo seguinte é ampliar as vagas e as oportunidades para toda a sociedade”, frisou Vogt.

Segundo dados de 2012, a participação de alunos da Escola Públicas nas Universidades paulistas é insuficiente: 28% na USP, 40% na Unesp, 31% na Unicamp e 75% nas Fatecs.

O reitor também concordou ser pequena a oferta de vagas no sistema público de ensino superior – apenas 10% das vagas  (90% são oferecidas por faculdades e universidades particulares).

Vogt terminou sua intervenção antes de se reunir, em privado com o reitor da Palmares, dizendo que o Programa “não pode ser visto nem como caridade, nem como questão de Justiça, apenas”. “Para a Universidade cmprir o seu papel, tem de ter na sua composição a reprodução da diversidade racial e étnica existente na sociedade. É bom [a inclusão de negros e indígenas] para a sociedade, mas é muito bom para a universidade”.

Universidade

Pouco antes, ao falar pela instituição, Hédio lembrou que o significado da palavra “Universidade, quer dizer universalidade” e se “não tem preto e pobre é parcialidade”. “A universalidade atende a uma demanda de inclusão social. O Brasil vai se dar conta em pouco tempo que nós só somos campeões de futebol, só exportamos futebol porque as seleções de futebol expressam essa diversidade. Daqui a 50 anos alguém dirá que a inclusão de pretos e pobres, melhorou a qualidade das universidades brasileiras. Vão mandar uma carta para o Movimento Negro dizendo: “que bom que você nos fizeram fazer juste ao conceito de Universidade”, finalizou.

 

Da Redacao