S. Paulo – A realização do ato "Paixão de Cláudia", na Sexta Feira da Paixão deste ano, em homenagem a Cláudia Ferreira, a mulher negra, morta e arrastada por uma viatura da Polícia do Rio, expôs a omissão das entidades negras tradicionais – no geral vinculadas a Partidos – e revelou que os coletivos negros de cultura, pela via da arte, podem assumir o papel da conscientização para a luta antirracista.

 

“Enquanto a questão partidária for determinante, ou seja, enquanto não for a nossa agenda em pauta, nada mudará. Discursos antigos. Temos que renovar a forma de agregar”. A afirmação é da idealizadora do ato, a educadora e atriz Renata Felinto. Segundo os organizadores pelo menos 2 mil pessoas participaram da manifestação.

 

Renata, que é companheira de Manoel Abílio Trindade, bisneto de Solano Trindade, mãe de Chico, tataraneto do poeta de “Abolição Número Dois” e extensa obra em que trata da temática negra, disse que o ato foi uma resposta mais do que necessária dos negros que não aceitam a acomodação e voltou a criticar o papel omisso de muitas entidades.

 

“Só posso dizer que como negra e cidadã gostaria de ver mais ações efetivas nas ruas, nos bairros, nas cidades, baseadas na educação, na cultura, no compartilhamento de informação, na formação de uma juventude afinada com a nossa agenda, na conscientização do cidadão negro comum. Como pode um negro ser a favor da pena de morte? Negro ser contra cotas? Isso é desinformação, desconhecimento”, acrescentou.

 

Veja, a seguir, a entrevista de Renata Felinto à Afropress:

 


Afropress – Qual a avaliação que você faz do ato "Paixão de Cláudia"? Do número de presentes e do significado da manifestação?


Renata Felinto – A avaliação é muito positiva em termos de adesão, tanto em relação às pessoas que compareceram, quanto do ponto de vista da logística. Participar do ato, colocar o rosto na rua, reservar e dedicar tempo, o capital mais importante da nossa época à essa manifestação, parece simples, porém sabemos que não é. Então, em nome de toda a equipe de organizadores agradeço muito aos seres humanos que se privaram de seus prazeres pessoais para unir-se a uma causa de todos.

As atrizes de “As Capulanas Cia de Arte Negra” e os atores de “Os Crespos”, importantes coletivos de teatro, estiveram presentes e foram fundamentais. Ou ainda o Manoel Trindade, bisneto de Solano Trindade, que deixou de viajar a trabalho porque soube que não teríamos um técnico de som e ele tem justamente essa formação. Para citar mais duas pessoas, o Almir Rosa, ator de Embu das Artes e o Fábio Xangô, que deram uma super ajuda. Toda a soma foi fundamental porque estávamos numa construção conjunta e pensando na coletividade. Cada um fez um pouco e o que sabe.

O ato demonstrou a nós organizadores e aos participantes que podemos e precisamos organizar mais ações como esta que independem do Poder Público, de ONGs, de instituições etc. Aliás, gostaríamos de frisar que CNPJs [Cadastro de Nacional de Pessoa Jurídica] entraram simplesmente porque o Poder Público exigiu que houvesse um responsável, para responsabilizar caso ocorresse depredações ou algo do tipo. Ou seja: eu e você, pessoas físicas não podemos nos manifestar. Tem que ser ou ter empresa, ONG, Associação etc. Também gostaria de frisar que o ato mostrou que podemos, enquanto negros, somar com brancos, amarelos, coloridos e enfrentar o racismo estrutural da sociedade brasileira. Juntos sabemos que não podemos fazer isso sózinhos. Até porque ele [o racismo] nos afeta a todos.

Poderia ter mais adesões se as pessoas deixassem de pensar no feriado e na praia e uma única vez adiassem seus compromissos pessoais em pról da coletividade. Entretanto, alguns brasileiros sonham com o feriado a cada semana e preferem se manifestar via redes sociais, de forma geral. Indignam-se contra o mundo protegidos pelo monitor do computador.

De qualquer forma, nos sentimos realizados, emocionados e com a sensação de termos enterrado, não somente a Cláudia da Silva Ferreira. Devido ao local onde o ato ocorreu, o percurso percorrido, nós enterramos muitos antepassados, negros e negras que estavam conosco. Não foram 500, 600, 700 pessoas ao longo do ato, triplique isso. Como afrodescendente acredito numa espiritualidade que extrapola o mundo visível e muitos participantes sentiram que éramos muitos,  mais do que os visíveis ali. Foi necessário, foi regenerador de nossa humanidade numa sociedade que nos dilacera a cada dia.

 

 Afropress – Como foi o contato com o viúvo de Cláudia, Alexandre, e qual o significado da presença dele na manifestação?

 

RF – A Juliana Gonçalves, do CEERT, fez a ponte. Combinamos que ela seria a única a tratar com ele. Num primeiro momento ele enviaria a filha mais velha. Porém, combinamos que ele viria e voltaria no mesmo dia a fim de não se ausentar por longo tempo de seus filhos e sobrinhos. Ele se sentiu muito acolhido, ficou hospedado no apartamento de Adriano José, produtor que trabalha com vários coletivos negros, e disse que não esperava que esse movimento acontecesse em São Paulo, cidade que tem uma população com fama de fria, insensível. Ele viu que não, que existe coração batendo aqui, sangue correndo.

A presença dele, à despeito dos apoios que gostaríamos de ter e não tivemos, nos mostrou que não éramos um bando de loucos desocupados se preocupando com algo que não tem nada a ver conosco. Teve um momento em que particularmente, eu pensei isso. Sou doutoranda, trabalho em casa (e muito!), tenho um filho pequeno, e junto com pessoas que conheço e conheci durante o processo, fomos planejando tudo isso em vez de cada um cuidar somente de sua própria vida.

Por isso, ter o Alexandre Fernandes da Silva aqui nos mostrou que se esse ato era preciso para nós, imagine para ele. Nós estávamos com bebês, haviam idosos, crianças, famílias inteiras, calados caminhando lentamente ao som de tambores, das queridas percussionistas do Ilú Oba De Min junto com o Alysson Bruno, que é um jovem percussionista que se juntou a nós no dia; com a Larissa Glebova, que ficou exausta, coordenando o cortejo; com a Janaina Barros em performance com Wagner Viana abrindo caminho, exibindo o rosto ensangüentado de Cláudia como num santo sudário; com a Palomaris arrastando carne no asfalto; com a Cris Rangel realizando os desenhos de contornos de corpos; todos carregando rosas vermelhas que o Manoel Trindade foi comprar na madrugada na CEAGESP.


Vi o Alexandre ajudando a controlar o tráfego e o fluxo de pessoas, se envolvendo com a organização do evento; o vi carregando sua rosa; conversando conosco contando sobre como era a vida deles, que estava para mudar o nome dele nas redes sociais para “Xande da Cacau”; carregando sua rosa. Foi muita união, ele sentiu isso, foi tudo feito devido à dor e transbordando solidariedade, amor e fé, fé na gente, nas pessoas.

Afropress – Há outras iniciativas sendo pensadas nessa linha do fortalecimento de um movimento negro e antirracista autônomo em relação a partidos e independente em relação ao Estado?

 

RF – O tempo inteiro, mas por meio da cultura e da arte sempre. Há muitos artistas sempre tocando de forma incisiva no problema do racismo e em seus desdobramentos na nossa sociedade. Arte é meio de comunicação e fruição, não é só decoração como pensam alguns para colocar na sala de jantar.


Como já disse, é preciso visibilizar mais ainda as produções de “As Capulanas – Cia de Arte Negra”, “Os Crespos”, “O Coletivo Negro”, para ficar nas artes cênicas. Os trabalhos dos artistas visuais como Sidney Amaral, Rosana Paulino, Tiago Gualberto, Janaina Barros, Michelle Mattiuzzi, o meu, também produzo e reflito via arte.


A revista O Menelick 2º Ato, do jornalista José Nabor Júnior, que retoma a história da imprensa negra em São Paulo. Já estamos tratando de fortalecer o movimento negro antirracista a partir de nosso trabalho de arte que está fora da cena coberta pela grande crítica, pelos grandes jornais, como algumas mudanças à vista, viu?


Agora enquanto iniciativa organizada de rua visando essa continuidade, ainda não encontramos uma forma de amalgamar o coletivo a fim de darmos continuidade. Estamos planejando algo para novembro.

Afropress – Qual foi a atitude das entidades tradicionais do movimento negro, e o que gostaria de destacar?

 

RF – A única única entidade que somou conosco foi as APN’s [Agentes Pastorais Negros] porque o Vinicius Almeida era o representante desta entidade junto ao coletivo que se formou e estava conosco desde a segunda reunião, sendo foi fundamental em termos de alguns contatos. A doutora Aparecida Bento, do CEERT, e a deputada Leci Brandão, que realizaram vídeos convidando todos a participarem do ato, fazendo a chamada com a frase “Somos todos Cláudia”, também nos deram esse apoio.


Sobre as demais entidades, as tradicionais, só posso dizer que como negra e cidadã gostaria de ver mais ações efetivas nas ruas, nos bairros, nas cidades, baseadas na educação, na cultura, no compartilhamento de informação, na formação de uma juventude afinada com a nossa agenda, na conscientização do cidadão negro comum.


Como pode um negro ser a favor da pena de morte? Negro ser contra cotas? Isso é desinformação, desconhecimento. Se as instituições de ensino e a grande (des) educadora que é a TV e suas emissoras abertas não discutem tais questões de forma idônea e imparcial, não prestam esse serviço a essa parcela da população, seriam as entidades tradicionais do Movimento Negro que deveriam informar e formar ativistas, negros e negras simpáticos às nossas lutas, que a reconheçam como nossa.


Entretanto, são os coletivos negros de cultura quem têm feito esse papel, estamos conscientizando via arte. E, enquanto a questão partidária for determinante, “que partido nós dá verba”, “a partir de que contrato”, “o que temos que fazer”, “como devemos nos posicionar sobre determinados assuntos”, ou seja, enquanto não for a nossa agenda em pauta,  nada mudará. Discursos antigos. Temos que renovar a forma de agregar.


Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes.


RF – Espero que em vez de julgar e apontar os motivos de não termos solicitado “autorização” das entidades tradicionais do movimento negro para realização do ato cultural, que elas sintam-se representadas e que acordem para o fato de que há muitos negros e negras, brancos e brancas, amarelos e amarelas, coloridos conscientes de que o racismo afeta a sociedade brasileira de forma geral. Há brancos racistas? Há. Assim como há negros que não se identificam com tais questões voltadas às políticas de ação afirmativa, que não se sentem ou se reconhecem como negros. Há de tudo. A cisão pode estar em qualquer lugar, menos dentro do movimento negro. De forma geral, temos de falar a mesma língua, ter o mesmo discurso, entrando num consenso acerca do que queremos, precisamos e como faremos para atingir tais objetivos, e não criticando as iniciativas uns dos outros. Apropriando-se do que é positivo em relação à maneira como os não negros agem. Eles não se digladiam publicamente quando uma entidade tem uma iniciativa que outra não teve. Não precisamos disso.

Da Redação