Na segunda metade do século 19, sob pressão da Inglaterra – a potência dominante da época – a elite política brasileira passou a adotar medidas pontuais para acabar com o tráfico de carne humana negra que por três séculos e meio praticou. 
 

A partir de 1.850, com a Lei Eusébio de Queiroz, decretou o fim do tráfico transatlântico. Mesmo assim o tráfico clandestino continuou intocável. Mais adiante, em 1.871, a Lei do Ventre Livre, declarando livres os filhos de pais escravizados. Como se isso fosse possível ou aceitável. 

Depois a Lei do Sexagenário, decretando a liberdade para quem completasse 60 anos, quando a expectativa de vida na época não chegava a 40 anos. Todas eram leis para atenuar a pressão inglesa, para quem o trabalho escravo impedia a ampliação do mercado assalariado, fundamental para a pátria- mãe da revolução industrial. Todas eram leis “para inglês ver”, expressão que passou a ser sinônimo do faz de conta nacional.

Passados mais de 117 anos de uma Abolição, que também não significou mais que a mudança do estatuto jurídico e o lançamento de milhões de negros na rua – sem acesso ao trabalho, a moradia e a Educação – agora surge o “consenso para inglês ver”, decretado pelo Ministro da Educação Fernando Haddad. Trata-se do “consenso” que o ministro acaba de anunciar depois de se reunir com a UNE, UBES, MSU e a Educafro. Essas entidades e o ministro teriam chegado a um acordo de que as cotas devem ser implantadas nas Universidades Estaduais e Federais, “gradualmente” no período de seis anos.

A estratégia “conta gotas” do ministro e seus parceiros, não é mais do que aparenta: uma jogada governista para deixar bem os deputados – inclusive da sua base – contrários as ações afirmativas para negros e indígenas. Tanto é verdade que, até mesmo o deputado Luiz Alberto, do PT da Bahia, um dos mais ativos e históricos militantes do Movimento Negro Unificado, favorável a adoção das cotas-já, foi barrado. É uma dessas manobras espertas, bem ao gosto de quem não quer solução alguma para um problema que se arrasta há mais de um século: a exclusão da população negra dos espaços de Poder, como a Universidade, por exemplo.

Nesse tipo de esperteza vale o princípio de todos se darem bem. O Governo, porque “negociou” com o movimento social e com entidades negras dóceis aos chamados do Planalto. Fica com a imagem de um governo aberto aos movimentos sociais e às suas demandas. Os reitores das Universidades, na sua imensa maioria contrários às cotas, porque, afinal, não fica bem a Universidade se insurgir contra um dos princípios que deveria constituir-se em pilar e alicerce de sua existência: o princípio da universalidade, inexistente quando se sabe que 98% dos seus alunos e professores são brancos, em um país com metade da população negra.

E, especialmente os parlamentares, de todos os partidos – de A a Z -, igualmente contrários às cotas, mas que não podem correr os riscos inerentes a votar medidas que contrariam parcelas da população em um ano eleitoral. Imagine-se o estrago, em especial para alguns, aparecer com a foto e em listas como contrário a medidas de reparação à população negra. As conseqüências de um voto contrário à metade do eleitorado do país, ainda que disperso, não são pequenas.

E ainda mais quando as pesquisas de opinião, feitas pelos donos de faculdades privadas acabam de concluir que, nada menos que 36% das pessoas ouvidas, são favoráveis à adoção de cotas para negros e indígenas. Mesmo com toda a campanha contra feita pelos meios de comunicação mais poderosos do país – a Rede Globo à frente. Que o Governo em um ano eleitoral, com Lula em plena campanha, pretenda patrocinar acordos para livrar a cara de sua base numa questão polêmica, é razoável.

É o papel de qualquer Governo, de qualquer partido. Porém, que entidades supostamente comprometidas com os interesses da população interessada se prestem a participar da jogada, aí é o caso de perguntar: de que lado estão? Mais ainda: que a UNE, UBES e esse autodenominado Movimento dos Sem Universidade (MSU) façam parte do acerto governista, não é de estranhar. Afinal são entidades que fazem parte da base de apoio do Governo no movimento social.

E a Educafro, o que tem a ver com o tal consenso? Fala em nome de quem, quando o consente e avaliza? Por mais respeitáveis que sejam as intenções, por mais sérios os propósitos, por mais admiração que tenhamos pela figura de Frei David – um protagonista de primeira grandeza no movimento pelas cotas e em defesa da igualdade racial no país – não é possível silenciar. Não pediram procuração aos milhões de negros e negras que lutam por reparação. Não tem procuração das lideranças das duas Marchas Zumbi + 10, que no mês de novembro passado lotaram a Esplanada, sendo recebidas ambas pelo Presidente da República.

Aliás, não custa lembrar que nenhuma dessas entidades participou de qualquer uma das Marchas, o que na prática configura um desrespeito deste Governo ao movimento social, não dócil a estratégia palaciana. Para estes – que não foram chamados a se manifestar e que não foram levados em consideração – é uma indecência que acordos políticos protelem, adiem, medidas que já tardam 117 anos, e que se recorra a consensos para “inglês ver”, apenas para que o estabilishment, não se desgaste com a população negra em um ano eleitoral.

Editorial