S. Paulo – Para o ex-jogador Lima (Antonio Lima dos Santos), um dos integrantes do time do Santos que, com Pelé, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe encantou o mundo, a consciência antirracista deve ser ensinada no futebol desde cedo, a partir das equipes de base. 

"Isso já pode começar, inclusive, na preparação desses meninos quando eles estão a base. Isso tem que falar, tem que ser comentado, tem que ser perguntado. De repente, o menino que está na base e tem esse tipo de problema [racismo] como saber, no fundo, no fundo, a origem deles, é o que? a própria família, que pensa dessa forma e orienta o menino de uma forma errada. Então, a orientação e o trabalho na base, eu vou ter como exemplo o que aconteceu aqui hoje, sabe? Meninos que estão em formação e tal, não custa nada uma palavrinha, uns cinco minutos de conversa pode ajudar e muito e fazer com que ele não tenha problema mais prá frente", afirmou.

O jogador, que também integrou a seleção brasileira de 66, hoje com 72 anos, é coordenador de todas as equipes de base do Santos, do sub-11 ao sub-20, tendo conquistado os seguintes títulos: Paulista de 61,62,64,65,67,68 e 1969, mundiais de 62 e 63, Libertadores de 62 e 63, Brasileiros de 61, 62, 64 e 65.

Na entrevista ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, no Palácio dos Bandeirantes, Lima falou da importância do protagonismo dos ex-atletas e atletas na campanha "SP contra o Racismo no Esporte", lançada pelo Governo do Estado e pela Federação Paulista de Futebol.

"O Brasil é considerado por muita gente como um país que se esconde, faz a coisa e esconde a pata; arranha e esconde a pata. Não é assim. A atitude do governador ao fazer essa campanha foi maravilhosa, vai tocar no fundo de muita gente sabe, e as pessoas vão passar a ter consciência do que é ser. Isso é muito bom. Pessoas que não tem ideia do que representa isso, vão ter noção agora", acrescentou.

 

Sobre a experiência que viveu nos campos nos tempos em que integrou o time do Santos Lima diz que as agressões racistas eram mais veladas, e em conversas com amigos, costumava reagir bem humorado: “Eu não sei porque você é contra mim, eu não tenho culpa de você ser branco. Eu sou negro e tô feliz”.

Confira, na íntegra, a entrevista.

Afropress – Como você vê essa iniciativa e essa campanha contra o racismo no futebol?

Lima – Olha, eu fico triste porque em pleno 2015 precisar ter um tipo de campanha dessa contra o mal comportamento de pessoas ignorantes. Não [essas pessoas] tem ideia do que representa, do quanto dói isso. E ao mesmo tempo fico feliz porque São Paulo mais uma vez está saindo na frente e está fazendo uma campanha que eu acredito que vai encorpar e vai tomar conta do país. Isso é muito bom. Pessoas que não tem ideia do que representa isso, vão ter noção agora.

Afropress – No seu tempo você viveu muito situações de discriminação em campo, fora de campo?

Lima – Mais fora do campo. Mas era uma coisa meio velada. Aquela pessoa que te via entrar num lugar; via você namorando uma mulher branca, não te falava nada mas pelo olhar da pessoa você sentia que aquilo tava incomodando a pessoa. Mas passava batido e tudo bem.

Afropress – Você acha que o papel dos astros como vocês, ao assumir uma campanha dessa obviamente tem repercussão no país inteiro e na sociedade como um todo. Você vê dessa forma também?

Lima – Eu vejo. Eu vejo dessa forma e é uma coisa que eu acho que não vai só incomodar aqui. Isso daí vai pra fora. E é bom, porque o Brasil é considerado por muita gente como um país que se esconde, faz a coisa e esconde a pata; arranha e esconde a pata. Não é assim. A atitude do governador ao fazer essa campanha foi maravilhosa, vai tocar no fundo de muita gente sabe, e as pessoas vão passar a ter consciência do que é ser. Eu brinco muito com algumas pessoas, às vezes amigos, “Eu não sei porque você é contra mim, eu não tenho culpa de você ser branco. Eu sou negro e tô feliz”. A cor da minha pele não vai me desmerecer, pelo contrário. Se eu tiver feito a mesma coisa que você, eu posso ser como você, sem problema nenhum.

Afropress – Em recente conversa com o presidente Modesto Roma surgiu a ideia de que os jogadores sejam informados, preparados, desde as equipes de base até a principal, porque muitas vezes os jogadores, que vem de origem humilde, muitas vezes não sabem como se defender diante dos ataques, diante das agressões, porque muitas vezes não tem conhecimento da legislação, não sabem como reagir. Você não acha que é necessário, que os clubes tenham esse tipo de preocupação?

Lima – Isso já pode começar, inclusive, na preparação desses meninos quando eles estão a base. Isso tem que falar, tem que ser comentado, tem que ser perguntado. De repente, o menino que está na base e tem esse tipo de problema [racismo] como saber, no fundo, no fundo, a origem deles, é o que? a própria família, que pensa dessa forma e orienta o menino de uma forma errada. Então, a orientação e o trabalho na base, eu vou ter como exemplo o que aconteceu aqui hoje, sabe? Meninos que estão em formação e tal, não custa nada uma palavrinha, uns cinco minutos de conversa pode ajudar e muito e fazer com que ele não tenha problema mais prá frente.

Afropress – Você percebe a carência de informação nessa molecada?

Lima –  carência, sim, e se percebe quando dos jogos que eles fazem, acontece muito disso, só que eles não falam. E a imprensa como não acompanha, sei lá, como deveria ser, os jogos desses meninos, não sabe dessas coisas. Mas [atos racistas] já está acontecendo na base. Então eles estão vindo com orientação. Estão sendo mal formados. Eu acho, então a má formação prejudica eles mais prá frente.

Veja  a participação dos atletas do Santos na campanha "SP contra o racismo no Esporte".

https://www.youtube.com/watch?v=BnialrYKWpg

Crédito da foto: Santos F.C.

Da Redacao