Vitória/ES – O advogado, ativista dos Direitos Humanos e militante do movimento negro capixaba, André Moreira, disse que para os pobres e negros no Brasil, não há outra saída, senão a perda de qualquer esperança no curto e médio prazo com as alternativas políticas colocadas e em disputa no país.

“Dada a condição central da questão negra no problema que se desenvolve agora [a atual conjuntura política], os revolucionários tem de perder a esperança. O que significa perder a esperança? Perder a esperança em qualquer desses projetos que estão aí, de Lula, Ciro, Dória… Todos esses projetos são projetos que não resolverão a questão da classe trabalhadora e, portanto, não resolverão a questão dos negros, das mulheres, dos LGBTs.”, afirmou.

Segundo ele “só países em que a esperança foi perdida estarão, no momento adequado, com as condições subjetivas adequadas para tentar, pelo menos, não cair na mesma armadilha que vem sendo armada para os países da América Latina e da África nos últimos 150 anos”, acrescentou.

Moreira, que é filiado ao PSOL e foi candidato por esse Partido, primeiro ao Senado e a vereador nas últimas eleições municipais, disse que “a Argentina, Brasil, Uruguai são ainda países com esperança”. “Não sobreviverão porque ficarão ali, como a gente disse no começo, igual a rã iludida pela luz, que está ali só esperando a pancada na cabeça para ser jogada dentro do saco. Essa imagem aí resume tudo o que está acontecendo”, enfatizou.

Na entrevista concedida ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, para marcar o retorno da Agência com novo layout e nova linguagem, o ativista, falou da crise capitalista, e “da ilusão de que a luta seja entre uma direita e uma esquerda no sentido de uma esquerda revolucionária, ou uma esquerda que proponha alteração no modelo capitalista”. “Trata-se de uma esquerda que quer conservar, uma esquerda conservadora, uma esquerda que quer conservar o capitalismo humanizado que a gente chamou de Estado do bem Estar social”, afirmou.

Veja, na íntegra, a entrevista.

Afropress – Qual a análise que você faz da conjuntura política após a reabilitação do direito do Lula voltar a ser candidato?

André Moreira – A conjuntura está mudando a todo o momento, mas o que está mudando, na verdade, são os elementos superficiais da conjuntura. Eu acho que a conjuntura é a mesma: crise capitalista se aprofunda, soluções para o aumento da concentração na mão dos capitalistas, o arrocho e a destruição do que foi o Estado do bem Estar Social, uma criação do próprio capitalismo para enfrentar o crescimento do socialismo na Europa, pós segunda Guerra.

Esse arrocho que acontece agora decorre então da demanda do próprio capitalismo de restrição dos gastos públicos com direitos sociais, quer dizer: nós estamos lutando pela manutenção do capitalismo humanizado enquanto o capitalismo quer se desumanizar.

Do ponto de vista, portanto, da conjuntura, é ilusória a ideia de que a gente tem uma luta entre uma direita e uma esquerda, no sentido de uma esquerda revolucionária, ou então uma esquerda que propõe uma alteração no modelo do capitalismo. É uma esquerda que quer conservar, uma esquerda conservadora, uma esquerda que quer conservar o capitalismo humanizado que a gente chamou de Estado do bem Estar social.

A análise dos movimentos é um pouco mais complexa. Bolsonaro foi a saída do sistema em 2018, ante as condições subjetivas da classe trabalhadora no Brasil, que já não acreditava nem em uma direita liberal, nem na esquerda liberal como saída. Agora, Bolsonaro atrapalha até mesmo o sistema, ante a persistência da crise e a ameaça de que o Brasil continue a atrapalhar o retorno à normalidade. As condições da crise no Brasil podem desencadear situações como as do Chile e Paraguai, por exemplo, só que no Brasil isso se torna mundialmente relevante.

Então Bolsonaro atrapalha até os negócios das indústrias farmacêuticas americanas que veem no Brasil um grande mercado. Somente agora, nestas condições limites, Bolsonaro fez a compra de vacinas da Pfizer, por exemplo. Permitindo com sua guerra contra a vacina a loucura, que a China se estabelecesse no Brasil neste área da indústria farmacêutica, via Dória e governo de S. Paulo/Butantã. Isso explica inclusive a jogada do Lula aparecendo para tentar se cacifar como embaixador da vacina.

Afropress – O que significa a reabilitação eleitoral de Lula e o papel do lulismo?

AM – A tática de anular Bolsonaro pode passar por reabilitar Lula, ainda que apenas na imagem, um engodo, pois não querem um retorno da velha conciliação com direitos sociais garantidos. Assim, Lula pode ser uma passagem para a superação de Bolsonaro utilizada pelo próprio sistema. Seja eleitoralmente, seja somente de forma transitória. Aparecem aí as ideias como afastar Bolsonaro da gestão da pandemia via TCU, que é outra forma de anulá-lo sem impeachment. E se o sistema quiser, o impeachment sai. Mas, se a decisão for manter Bolsonaro até 2022, Lula é a melhor saída. Por outro lado, não há dentre os principais partidos da esquerda qualquer projeto fora da esperança de uma nova conciliação. Os que propõe algo diverso não estão no jogo eleitoral.

Afropress – Qual o papel dos negros revolucionários diante de um quadro em que os capitalistas nos ameaçam de morte – pela pandemia ou pela fome?

AM – A gente já vem discutindo a centralidade que tem toda a questão da luta dos negros, com tudo o que acontece. Não tem nenhum elemento da conjuntura atual, que não se remeta, em alguma medida a herança da escravidão nas Américas. Isso se dá porque a escravidão nas Américas foi, e a sua sucessão é o motor do desenvolvimento capitalista. Não seria possível desenvolver o capitalismo ao tamanho que foi, nem na Inglaterra nem nos Estados Unidos, se não fosse o processo da escravidão.

E a superação da escravidão para o novo modelo de trabalho assalariado manteve, no fundo, os pressupostos reais da realidade da classe trabalhadora em que as senzalas foram substituídas pelos cortiços, favelas e tudo o mais, a ponto de os marxistas falarem da nova escravidão; o contrato de trabalho é a nova escravidão.

A gente tem que lembrar que existiu uma primeira escravidão que era colonial, digamos assim. A escravidão como ela se inicia,  por exemplo, no período em que a Inglaterra dominava os EUA, em que os EUA era uma colônia da Inglaterra e, no momento em que há a substituição do poder inglês com a guerra de independência dos Estados Unidos, há uma nova escravidão, não há um rompimento dos modelos; eles transitam de um para o outro – e essa nova escravidão se dá na plena capacidade de desenvolvimento do capitalismo. Então o capitalismo não se desenvolveria nesse primeiro momento, não faria essa acumulação primitiva fantástica, se não fosse a nova escravidão.

No Brasil isso nem passa direito porque o Brasil é tardio em tudo, inclusive, na superação do Brasil colônia que só vai acontecer em 1.822, e quando o Brasil se torna independente ele ainda continua sob os mesmos pressupostos, a única monarquia que existiu nas Américas, por isso que o resto dos países americanos olham prá gente com olhar torto e tem razão de olhar. E a superação desse modelo atrasado nas Américas, no Brasil só se dá com a República, em 1.889, quando todo mundo nas Américas já estava com algum processo de industrialização, algum processo de adoção de mão de obra empregada, já iniciado, já desenvolvido, o Brasil e o último país a fazer a transição da mão de obra escrava para o regime de trabalho livre, entre aspas. E isso, inclusive, faz com que ocorra a superação do regime monárquico porque os fazendeiros do Vale do Paraíba se uniram para dar um golpe, eles que eram escravagistas e monarquistas se uniram num republicanismo tardio e mentiroso para dar o golpe da República, com a finalidade de assumir o poder para ficar na mão deles o desenvolvimento das forças produtivas.

Dito isso, a gente tem que falar o seguinte:  os revolucionários negros, dada a condição central da questão negra no problema que se desenvolve agora, os revolucionários tem de perder a esperança. O que significa perder a esperança?  Perder a esperança em qualquer desses projetos que estão aí, de Lula, Ciro, Dória, todos esses projetos são projetos que não resolverão a questão da classe trabalhadora e, portanto não resolverão, a questão dos negros, das mulheres, dos LGBTs. É a perda da esperança, como perdeu a esperança o Paraguai, como tem perdido a esperança o Chile. Só países em que a esperança foi perdida  estarão, no momento adequado, com as condições subjetivas adequadas para tentar pelo menos não cair na mesma armadilha que vem sendo armada para os países da América Latina e da África nos últimos 150 anos.

A argentina, Brasil, Uruguai são países com esperança. Não sobreviverão porque ficarão ali, como a gente disse no começo, igual a rã iludida pela luz, que estarão ali só esperando a pancada na cabeça para ser jogada dentro do saco. Então, essa imagem aí, na minha avaliação, resume tudo o que está acontecendo.