Brasília – Surgiu finalmente uma explicação para o fato de a delegação brasileira para a Conferência de Revisão de Durban, realizada na semana passada em Genebra, Suiça, formada por ativistas negros, ter abdicado da Relatoria, a posição mais importante depois da Presidência, a que o Brasil tem direito por ser o país com maior população negra no mundo fora da África.
Segundo fontes da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) e do Ministério das Relações Exteriores, o engenheiro eletrônico Iradj Roberto Eghari foi escolhido porque era o único poliglota, com domínio de quatro línguas, critério que a ONU passou a impor para os Relatores, e que estava em Genebra uma semana antes do início da Conferência, quando ocorreu a escolha.
A escolha do Relator tinha data certa, segundo essa mesma fonte, e entre os membros da delegação que estavam em Genebra – Jurema Werneck, Lúcia Xavier, Nilza Iraci e Iradj – apenas este último preenchia esse requisito. Iradj, de origem iraniana, é engenheiro eletrônico e Secretário Nacional de Assuntos Externos da Comunidade Bahá’í, comunidade religiosa que tem cerca de 57 mil adeptos no Brasil. Fala inglês, francês, espanhol e farsi, a língua oficial no Irã.
Reação
A escolha de um Relator não negro provocou reação indignada de setores do Movimento, que consideraram uma derrota sem precedentes desde 2001, quando o Brasil ocupou a Relatoria na Conferência Durban, realizada na África do Sul. A indignação foi vocalizada, principalmente, pelo antropólogo, José Jorge de Carvalho, do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB), autor do projeto de cotas para negros na Universidade, que considerou a perda da Relatoria “um dos grandes fracassos históricos do Movimento Negro Brasileiro”.
A Relatora em Durban, Edna Roland, titular da Coordenadoria da Mulher e da Igualdade Racial da Prefeitura de Guarulhos, também esteve em Genebra, porém, faz parte do quadro da ONU, como especialista e não poderia acumular a Relatoria.
A delegação brasileira para Genebra foi escolhida pela Seppir, Ministério das Relações Exteriores e sociedade civil, segundo a mesma fonte, que não esclareceu quais os critérios para a definição dos nomes. A quase totalidade dos nomes indicados fazem parte de entidades da base de apoio do Governo Federal.
Ao todo viajaram a Genebra, na delegação chefiada pelo ministro chefe da Seppir, deputado Edson Santos, 16 representantes do Poder Público e 14 representantes da sociedade civil. Passagens e estadias por uma semana em Genebra foram custeadas pelo Governo Brasileiro, por meio da Seppir.
Confira os nomes:
Sociedade civil – Deise Benedito (Fala Preta); IradjRoberto Eghrari (Comunidade Baha’i no Brasil); Nilza Iraci (Gueledés); Ivanir dos Santos (CEAP): Maria Aparecida Bento (CEERT); Jurema Werneck (Criola); Olívia Santana (UNEGRO); Jacinta Maria Santos (Agentes da Pastoral Negra); Gilberto Leal (CONEN); Marcos Benedito (INSPIR); Samoury Mugabe (Articulação Política de Juventude Negra); Genaldo Novaes (INTECAB); Ronaldo dos Santos (CONAQ); Marcelo Paixão, professor da UFRJ especialista em História da África; e Wania Santana, pesquisadora e historiadora especialista no tema DURBAN.
Poder Público – Martvs das Chagas (subsecretário de Ações Afirmativas da SEPPIR/ PR), Alexandro Reis (subsecretário de Comunidades Tradicionais da SEPPIR/PR), Manuela Pinho (subsecretária de Planejamento da SEPPIR/ PR), Carlos Moura (ouvidor da SEPPIR/ PR), Magali Naves e Márcia Canário (assessoras internacionais da SEPPIR/ PR), Zulu Araújo (presidente da Fundação Cultural Palmares/ MinC), Regina Célia Sant’Anna Adami (assessora parlamentar da SPM/ PR), Leonor Franco de Araújo (coordenadora geral de diversidade da SECAD/ Ministério da Cultura), José Armando Guerra (gerente de projetos da Subsecretaria de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos da SEDH/PR), Maria do Carmo Rebouças Cruz (gerente de cooperação internacional da SEDH/PR), José Gregori (secretário municipal de Direitos Humanos de São Paulo e chefe da delegação brasileira em Durban, 2001), Dra. Célia Whitaker (assessora do secretário José Gregori) e Mário Theodoro (especialista em temas da diversidade do IPEA), além de um parlamentar representando o Senado Federal e o outro a Câmara dos Deputados.

Da Redacao