S. Paulo – A polêmica em torno da minissérie “O Sexo e as Negas”, dirigido pelo ator Miguel Falabella e apresentado as terças-feiras na Globo, continua ocupando espaço nas redes sociais e já provocou pelo menos uma baixa na Faculdade Zumbi do Palmares: a professora Ellen de Lima Souza, coordenadora do Curso de Pedagogia e responsável pelo lançamento de um manifesto em que protestava pelo convite ao diretor para debater o tema na Flink Sampa, foi afastada pela direção da Faculdade.

Em entrevista exclusiva à Afropress, o reitor José Vicente, confirmou o afastamento da coordenadora do Curso, e culpou o clima de “emocionalismo exacerbado” que está permeando o debate público sobre a minissérie. “Houve até uma leitura errônea equivocada e que não considerou sequer o direito à livre manifestação de pensamento, o direito, inclusive, de você pelo menos argumentar. Nós em nenhum momento convidamos o Falabella para receber o troféu, ou mesmo para participar do troféu”, disse, afirmando que o diretor, por iniciativa da produção da Flink, foi convidado para uma mesa de debates, porém, não confirmou presença.

“O desejo nosso é que ele viesse sentasse à mesa e dissesse quais são os fundamentos, porque ele acha que está certo, porque não pode fazer de forma diferente, se tem conhecimento de que agindo assim, ele produz essas repercussões. Até porque a Flink é para isso, é para debater as mais diferentes ocorrências”, disse o reitor.

Vicente se disse preocupado com o clima de intolerância que tem marcado a discussão desses e de outros temas por parte de segmentos do movimento negro. “O que tenho observado é que está havendo uma radicalização do debate e da postura e uma radicalização em que estão tentando se apropriar dos fundamentos desse movimento negro, desse ativismo negro, dos objetivos dessa luta para finalidades que não estão de acordo com o que se construiu, com o que se discursou e do que se precisa alcançar. As finalidades para onde se quer levar essa discussão, essa ação, estão totalmente destoantes do que tradicionalmente tem sido a luta do tema negro, que é uma luta por espaço, por respeitabilidade, por reconhecimento, pelo empoderamento e valorização dos negros, mas partindo do pressuposto de que o Brasil bom para os negros é o Brasil bom para os negros e para os brancos”, acrescentou.

Veja, na íntegra, a entrevista do reitor José Vicente, ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira.

Afropress – Como é que você está acompanhando o debate em torno da minissérie da Globo “O Sexo e as Negas”. Temos informação de que já houve gente da Pedagogia se demitindo ou sendo demitida, em razão de um manifesto contra o convite ao diretor Miguel Falabella. Como você está vendo isso?

José Vicente – Eu estou vendo tudo isso, pelo menos aqui do meu lado, como um emocionalismo muito exacerbado, cuja exacerbação está, inclusive, permitindo que se tome posições e encaminhamentos em cima de leituras equivocadas.

O emocionalismo reforçado por essa dimensão extraordinária que o fato tomou. Era sabido que deveria ter repercussão, mas foi incrível a repercussão estrondosa, viral e em decorrência dela foram atropeladas uma série de preceitos de consenso, de prudência e até de responsabilidade, digamos assim.

A nossa leitura é essa. Que houve em decorrência desse emocionalismo, dessa sensibilização que o tema como latência nesse momento então se acabou atropelando, inclusive, fundamentos importantes. Houve até uma leitura errônea equivocada e que não considerou sequer o direito à livre manifestação de pensamento, o direito, inclusive, de você pelo menos argumentar.

Nós em nenhum momento nós convidamos o Falabella para receber o troféu, ou mesmo para participar do troféu. A coisa se deu de uma forma tão caricatural, que ao final ela nos obriga até a ficar mais chateados.

Na verdade tem uma equipe de produção da Flink Sampa que está produzindo conteúdo. Então ficam o dia inteiro procurando algum conteúdo que possa ter aderência ou que seja interessante. Como nós estamos fazendo a celebração do centenário de Carolina [de Jesus], então estamos procurando discutir vários aspectos da trajetória de Carolina e a mulher negra que no conjunto permita fazer um balanço geral, para saber para onde vamos e como podemos ir.

E o fato em questão encaixava-se direitinho numa perspectiva de discutir justamente esses estereótipos, caricaturas etc e tal. E por isso sem conhecimento (e não precisava também de conhecimento), a menina que estava produzindo conteúdo mandou um e-mail convidando ele se não conseguir participar de um debate ele e todo elenco na Flink Sampa

E como ele já tinha estado conosco em duas oportunidades no Troféu, eu acho que ele entendeu mau, ou na hora de se expressar acabou  incluindo uma mistura das coisas e ficou a impressão de que ele foi convidado para participar do Troféu. Então, ele diz “olha fui convidado para ir no Troféu Raça Negra, debater a minissérie, o trabalho etc. e tal”. Mas, logicamente o troféu não debate nada, ele foi convidado para debater na Flink Sampa. Eu acho que ele não relacionou Flink Sampa, ou a primeira coisa que veio dele foi Trofeu Raça Negra e ele acabou dizendo que viria participar do Troféu Raça Negra e debater a minissérie. Em cima disso parece que houve a compreensão de que ele estaria sendo convidado para receber o Troféu Raça Negra. Daí as mais variadas manifestações se deram em cima dessa compreensão equivocada.

Afropress – Mas, você não acha que ele participar do debate na Flink Sampa, é muito pertinente até?

JV – O desejo nosso é que ele viesse sentasse à mesa e dissesse quais são os fundamentos, porque ele acha que está certo, porque não pode fazer de forma diferente, se tem conhecimento de que agindo assim, ele produz essas repercussões. Até porque a Flink é para isso, é para debater as mais diferentes ocorrências. Inclusive estamos levando o caso do racismo no futebol, o racismo no mercado de trabalho, enfim. Como sempre na Flink se discute todas as dimensões importantes desse tema. E essa era uma dimensão, mulher negra, mercado, negro na mídia, enfim,era muito importante, muito oportuna, e por isso foi feito o convite para que ele viesse participar do debate.

E o convite então acabou sendo apresentado e compreendido como, parte acharam que ele estava sendo convidado para receber o troféu, e não era devido, não era merecido e logo a instituição precisava ser questionada, e parte que ele não podia ser convidado nem para debater a minissérie porque tendo em conta o que ele representa, o que pudesse representar, então nem a discussão seria uma ação oportunidade, devida e razoável.

Então, ficou esse diz-que-diz-que nas mídias sociais e, ao final, resultou um problema interno porque a nossa coordenadora de Pedagogia, de uma forma indevida e totalmente antiprofissional reuniu com os alunos e professores do curso fez toda uma argumentação porque o olhar dela era indevido, ilegal, inoportuno e questionável e, juntamente com esse pessoal, acabou produzindo um manifesto a esse respeito.

Então, isso daí gerou um desagrado, um desconforto, porque ao final de contas, a despeito da liberdade de expressão ser um fundamento basilar, isso era um problema que deveria ser debatido internamente, o que no cargo de confiança que se encontrava (era coordenadora de curso), era uma posição que estava fora de lugar, uma vez que o debate crítico de ideias é o sentido e o fundamento da Academia. Senão não tem sentido participar da Academia se for pensamento único. No caso de coordenação é uma posição muito delicada. Em decorrência disso tivemos aí um desconforto e também ataques fora de hora, fora de lugar e até injustos e também tivemos uma movimentação interna, principalmente, no curso de Pedagogia, que culminou então com o pedido de demissão da nossa coordenadora, tendo em conta que, logicamente, estávamos diante de uma posição diversa – a instituição não poderia manter uma atitude daquela, para quem estava ali à frente representando a instituição e os valores e fundamentos da instituição. Então, ela acabou sendo afastada e a gente tocando a vida e seguindo adiante.

Afropress – A que você atribui esse volume, parece que esse debate adquiriu uma dimensão muito grande nas redes sociais, a que você atribui isso?

JV – Pois é, rapaz. Primeiro porque eu sou o cara mais inadequado para responder isso porque eu não assisto TV. Quando está passando a TV eu estou trabalhando. Não sei nem o que diabo é essa bendita minissérie “O Sexo e as Negas”. Não acompanhei não assisti, não assisto, muito menos essa minissérie. O segundo é que eu também só soube, incrível, eu fui tomado de surpresa porque só soube depois da repercussão, porque começaram a chegar alguns e-mails prá mim, eu não sabia que a tal da produção do programa… Veja bem, a Flink deve apresentar esse ano pelo menos umas 100 atividades, tem música, dança, tem debate, tem de tudo. Então, em nenhum momento tomei conhecimento de que havia sido feito esse convite e quando soube, soube então só a repercussão. E logo eu não acompanhei, não sabia desse negócio do “Sexo e as Negas”, do que se tratava, só tomei conhecimento depois.

Mas, me parece que o caso Aranha [o goleiro do Santos alvo de racismo de parte da torcida do Grêmio], os antecedentes nos EUA, o caso Ferguson [a revolta negra na cidade americana de Ferguson], o que aconteceu nos últimos três meses sobre esse tema, acabou se encaminhando para um posicionamento dessa natureza, e as coisas acabaram tomando uma proporção desmesurada, porque a impressão que passou é que ele estava sendo alforriado que ele estava sendo, então, referendado, o que ele estava fazendo estava correto, uma vez que fora convidado por uma instituição temática que tem expressão e um certo referenciamento. Então, tenho a impressão que isso acabou afetando mais ainda as coisas e aí o que aparentava a ser um posicionamento normal e tradicional como foram os interiores desbordou.

Foi uma situação bastante difícil, mas de qualquer maneira foi uma proposição acima do tom. Nós temos uma folha de serviços prestados a esse tema, foi uma agressão gratuita, deselegante, deseducada [da coordenadora do curso]. Ao final no conjunto da obra está sendo um tratoramento, está se jogando a água de banho com bebê e tudo.

Afropress – Você não acha que há em certos setores do movimento negro, uma postura meio que resistente ao debate das diferenças? Isso me soa muito a defesa de pensamento único, não te parece?

JV – Estou muito preocupado com essas e outras manifestações e elas, na sua essência, ao final, estão parecendo mandar um sinal de que o debate está interditado. De que só pode se debater se você, à priori, estiver concorde com o pensamento do movimento negro ou de certa representação do movimento negro. Acho que isso é muito perigoso e também contra-produtivo, porque a construção terá de ser sempre a construção com o outro. Segundo que a interdição do debate, seja de um pensamento diverso, pode nos levar, no limite, a um fanatismo, a um xiitismo.

Daqui a pouco vai se determinar como você pode se comportar, o que pode pensar, de que maneira você pode achar. E se você agir de forma diferente, no limite pode correr o risco de sofrer um apedrejamento. Acho isso muito perigoso, preocupante e acho que todos nós precisaremos rever esses posicionamentos esses encaminhamentos porque isso parece nos levar para um confronto. Não me parece que seja a melhor forma de produzir as soluções que nosso tema precisa.

Afropress – Isso parece não ser novo, não é reitor, mas parece que está crescendo, essa posição de intolerância com a diferença que, na realidade, é contraditória com aquilo que defendemos. Nós somos vítimas da intolerância com a diferença e ademais nós somos plurais. Nós não pensamos a mesma coisa e seria esquisito que defendêssemos esse pensamento único. Por isso fico sempre muito atento quando ouço em reuniões, manifestações, palestras e seminários essa coisa de alguém dizer: “o movimento negro pensa isso”, o “movimento negro decidiu aquilo”. Primeiro: que movimento negro? Que movimento negro é esse? Não te parece que esse negócio vem crescendo, porque ele não é novo?

JV – O raciocínio é que de que todas essas aberturas, todos esses progressos, todas essas conquistas e toda essa qualificação do debate das pessoas, nos levaria a uma ação de mais estratégia, de mais habilidade, de mais inteligência do ponto de vista estratégico para que a gente agora consolidasse essas conquistas e continuássemos construindo condições e alcançar outras. O que tenho observado é que está havendo uma radicalização do debate e da postura e uma radicalização em que, como estamos dizendo, estão tentando se apropriar dos fundamentos desse movimento negro, desse ativismo negro, dos objetivos dessa luta para finalidades não estão de acordo com o que se construiu, com o que se discursou e do que se precisa alcançar.

As finalidades para onde se quer levar essa discussão essa ação, estão totalmente destoantes do que tradicionalmente tem sido a luta do tema negro, que é uma luta por espaço, por respeitabilidade, por reconhecimento, pelo empoderamento e valorização dos negros mas partindo do pressuposto de que o Brasil bom para os negros é o Brasil bom para os negros e para os brancos.

E que o elemento central a ser combatido, a ser atacado, é a intolerância, o racismo e a discriminação de quem quer que seja, preto ou branco. E o caso aqui está se colocando de que o racismo e a discriminação é só do outro, a nossa vale, a nossa está referenciada, referendada e autorizada. Estou  muito preocupado mesmo, não foi para isso que fizemos a revolução. A gente quer um Brasil em que as pessoas possam ter o direito de debater as idéias, de ter idéias contrárias e que as pessoas possam fazer escolhas. Aquelas meninas tem o direito individual, pessoal de fazer escolha de trabalhar na Globo, naquele seriado, onde elas quiserem.

Afropress – Agora haveria, então, uma patrulha que diria o que as pessoas negras podem ou não fazer na televisão ou não? Que absurdo é esse? Isso está mais para a Coreia do Norte, não acha?

JV – É Talibã, o tal de Estado Islâmico…

Afropress – No momento em que houver uma norma em que negros devem se comportar, ou podem assumir esses ou aqueles papéis…, porque é o seguinte: a grita é contra o Miguel, mas também atinge as negras que fazem parte desse seriado, porque também estão satanizadas por essa campanha, não te parece?

JV – Lógico, que é que é isso? Que uma atriz negra ou branca… A gente vai querer que, de novo, Sérgio Cardoso pinte o rosto de preto para fazer papel de preto [o ator chegou a pintar-se de preto para a novela A Cabana do Pai Tomás, na década de 60]. Só nos faltava essa agora. Essa discussão merece uma série de observações. Se você ligar a televisão e mudar de canal para novela das sete ou das nove, estão lá a Taís Araújo e o Lázaro Ramos nos papéis principais. E se você mudar de canal para a novela de qualquer canal, você vai ver que todas as mulheres e homens brancos estão roçando-se nas camas de lingerie as 6h, 7h da tarde, ou no “Vale a Pena ver de Novo”, às 2 horas da tarde.  Então, eu não sei se tem lugar, se cabe um pensamento dessa natureza. As mulheres negras não podem. O que fazem é imoral, ilegal ou engorda?

Afropress – Parece uma coisa fundamentalista, inclusive, da temática da sexualidade…

JV – Só não pode as mulheres negras, todas as outras podem. Não dá para entender essa luta contra o sexismo de um lado só.

Afropress – Você pode identificar de onde parte isso?

JV – Não. Eu precisaria me debruçar sobre essas correntes, essas fontes geradoras. Precisamos de tempo para nos debruçar sobre isso. O que me chamou mais a atenção é que não vi muito sobre isso, mas vi muitos poucos negros se posicionarem. E não digo nem que fossem em defesa do Miguel Falabella. Parece um pouco um pacto de silêncio.

Afropress – Nós abrimos o debate, inclusive, o professor Júlio Tavares da Universidade Federal Fluminense. Tivemos vários artigos sobre isso, mas acontece que esses artigos não refletem a radicalização que aconteceu aí, com essa atitude dessa professora lançando um manifesto contra, e que acabou posteriormente sendo afastada.

JV – Eu acho que todos nós temos nessa luta essa trajetória. Essas conquistas, que não estão nenhuma delas consolidadas, é de responsabilidade de todos nós. E todos nós temos de ser chamados para a responsabilidade. Responsabilidade significa continuar conduzindo esse tema de uma maneira que continuemos a construir sem nos tornarmos, nós mesmos, nossos “capitães do mato”, os que vão interditar o debate e mais ainda definir o que as pessoas podem fazer ou falar.

Afropress – O convite para o Miguel Falabella para debater o tema você faria novamente?

JV – Nós vamos fazer um Seminário Internacional para debater a discriminação, o racismo, e debater as formas mais diversas de intolerância. Nós somos uma instituição que produz o debate crítico, nós somos amantes da livre manifestação de pensamento. Logicamente que se a equipe do “Sexo e as Negas” quiser debater, lógico que será recebida com o respeito devido e a ela será permitido colocar os seus argumentos que iremos respeitar e também colocar os nossos.

Afropress – Ele não confirmou, mas as atrizes virão?

JV – Não sei. Não sei com todos esses acontecimentos não ficaram assustadas, não ficaram preocupadas. Mas de toda a maneira se não puderem vir agora, vai ficar aberto. É um pecado o que está sendo feito com essas meninas, sequer puderam dizer o que elas pensam. É um pecado. Todos o nossos espaços estarão abertos para elas se em algum momento quiserem conversar sobre isso. Nós vamos debater o racismo no futebol, na ação policial, esse seria mais um, entre as quase oitenta atividades que irão se desenvolver.

Afropress – Você pretende falar com o Falabella?

JV – É uma pessoa digna do meu respeito, tenho admiração por todos os seus trabalhos. Falabella já teve no Troféu, já entregou o Troféu para a Xica Xavier [atriz]. O Troféu Raça Negra é um espaço onde recebemos todos. Seja na Flink, seja no Troféu ou em outro espaço, se o Falabella quiser conversar comigo, eu terei todo o respeito para sentar conversar, ouvir fazer as minhas ponderações se for necessário, se for possível, sem problema algum.

Da Redacao