S. Paulo – Os atuais gestores da Secretaria Especial de Comunicação da Presidência da República (SECOM) estão comprometidos com a lógica do mercado e as agências de publicidade e os veículos tradicionais não respeitam os negros e negras como atores sociais. A opinião é do jornalista Renato Rovai, presidente da Associação Brasileira de Empresas e Empreendedores da Comunicação (Altercom), e editor da revista Fórum.

“Já ouvi de muitos gestores de agências que negros não têm poder de compra e por isso tem espaço razoável em campanhas. Em relação à mídia livre, alternativa e comunitária o preconceito também é grande. Somos tratados como pequena mídia. Como se nossos projetos fossem menores. Quando hoje temos milhões de leitores e dialogamos como uma grande parte da população brasileira”, acrescentou.

A secretária da SECOM, que tem status de ministério, é a jornalista Helena Chagas. A ministra chefe da SEPPIR, Luiza Bairros, chegou a relacionar como ação estratégica da sua gestão o agendamento de reunião com a SECOM para propor elaboração de plano de ação destinado às agências de publicidade contratadas pelo Governo Federal, visando a aplicação dos dispositivos do Estatuto da Igualdade Racial (Artigos 43 a 46 – Dos Meios de Comunicação). A proposta previa a aplicação dos dispositivos do Estatuto nos seus contratos privados. Não se sabe dos resultados da reunião, embora o prazo previsto no planejamento estratégico fosse o ano de 2012.

Manutenção do status quo

Segundo Rovai, anualmente cerca de R$ 2 bilhões são divididos praticamente entre os mesmos veículos. “É uma política de manutenção do status quo midiático. E não tem nada de técnica. Como ficou comprovado recentemente com a lista divulgada pelo Viomundo dos 20 sites que receberam mais publicidades do Governo no ano, em internet, no ano de 2012. Sites bizarros chegaram a receber mais de meio milhão de reais num ano, sendo que sites importantes e de grande qualidade editoral foram desprezados”, afirmou.

Na entrevista ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, Rovai fez criticas duras a política de comunicação do Governo Federal e observou que, embora o Governo Lula tenha iniciado uma política de descentralização no período de 2008, 2009, 2010, era compreensível a Internet ser contemplada com apenas 5% a 6% das verbas publicitárias. "Hoje não. Hoje é imoral. Todos os instrumentos que eles utilizam de repartição das verbas está associado a um cenário onde só a mídia tradicional é considerada. Não se trata de uma política inocente. Ela tem relação com os interesses do mercado”, assinalou.

Veja, na íntegra, a entrevista.

Afropress – Por que razão a política de comunicação do Governo Federal, por meio da SECOM, privilegia os veículos que detém o monopólio da comunicação no Brasil, em especial, a Globo e os grandes jornais?

Renato Rovai – Os atuais gestores dos recursos governamentais de comunicação no Governo federal fazem questão de não entender as novas possibilidades informacionais. Todos os instrumentos que eles utilizam de repartição das verbas está associado a um cenário onde só a mídia tradicional é considerada. Não se trata de uma política inocente. Ela tem relação com os interesses do mercado. São quase 2 bilhões de reais por ano que são divididos praticamente entre os mesmos de sempre. E que colaboram para que a democratização das comunicações no Brasil não avance na velocidade que deveria e poderia. É uma política de manutenção do status quo midiático. E não tem nada de técnica. Como ficou comprovado recentemente com a lista divulgada pelo Viomundo dos 20 sites que receberam mais publicidades do governo no ano, em internet, no ano de 2012. Sites bizarros chegaram a receber mais de meio milhão de reais num ano, sendo que sites importantes e de grande qualidade editoral foram desprezados.

Afropress – Como isso pode ser medido, dimensionado. Como foi antes nos dois Governos Lula?

RR – O Governo Lula iniciou uma política de descentralização das verbas. E naquele momento se discutia fórmulas para se avançar nela. Havia debate de teses e buscava-se encontrar caminhos para melhorar a situação do ponto de vista da democratização. Não que tenha sido algo muito melhor, até porque era mais difícil naquele momento do que agora. Em 2008, 2009 e 2010, a Internet receber 5% ou 6% do total das verbas publicitárias do Governo era até compreensível. Hoje não. Hoje é imoral. O Governo Lula também não foi um oásis neste tema das comunicações. É importante que se diga isso. O PT parece ter mais medo da mídia tradicional do que dos bancos e dos ruralistas.

Afropress – Por que a mídia étnica e alternativa não tem espaço nas prioridades da SECOM?

RR – Porque, como te disse, os gestores atuais são comprometidos com a lógica das agências e do mercado. Eles trabalham para esses setores. Essa é a verdade. E as agências de publicidade e os veículos tradicionais não respeitam os negros e negras como atores sociais. Já ouvi de muitos gestores de agências que negros não têm poder de compra e por isso tem espaço razoável em campanhas. Em relação à mídia livre, alternativa e comunitária o preconceito também é grande. Somos tratados como pequena mídia. Como se nossos projetos fossem menores. Quando hoje temos milhões de leitores e dialogamos como uma grande parte da população brasileira.

Afropress – Como isso afeta a democratização da informação?

RR – Muitos veículos importantes acabam sendo fechados e muitos que poderiam ser muito melhores e mais influentes lutam apenas pra não acabar. É uma política que impede que novos projetos floresçam. É como se você tivesse uma grande área de terra e usasse toda a água que tem para regar apenas um pedaço desse lote. Exatamente aquele em que você tem apenas um tipo de produto e eles fossem cactos, porque os veículos tradicionais estão cada dia mais parecidos e cada dia mais parecidos com cactos. E deixasse absolutamente seca a parte em que tem uma imensa variedade de produção. Onde há multiplicidade de cores e sabores.

A mídia livre é muito mais vibrante e múltipla do que a tradicional. E é muito mais importante para o processo democrático brasileiro. Afora isso, ela é também mais eficiente para se discutir políticas públicas, que deveria ser o objetivo do Governo ao usar sua verba de comunicação. Na verdade, o governo não deveria fazer publicidade, mas informar a sociedade sobre ações e processos que estão ocorrendo. E hoje isso é o que menos se faz.

 

Da Redacao