A Universidade Federal da Bahia (UFBA) acaba de criar um sistema de cotas no mestrado e no doutorado, juntando negros e pardos, quilombolas, indígenas, pessoas com necessidades especiais e trans (transgêneros, transexuais e travestis), em todos os cursos de pós-graduação.

A resolução reserva 30% das vagas e começa a valer a partir do segundo mestre deste ano, em todos os cursos. A cada 10 vagas em um edital, três serão para negros. Será criada uma décima primeira para indígena, uma décima segunda para quilombola, e assim por diante, conforme explica o coordenador de ensino de pós-graduação Ronaldo Lopes Oliveira.

Há uma exigência, contudo, que desmascara as boas intenções da iniciativa. Para concorrer o candidato deve preencher um formulário em que se auto-afirma pertencente a uma “minoria social”.

Ora, a Bahia é o Estado que tem o segundo maior número de pessoas autodeclaradas pretas e pardas – 76,3% -, de acordo com levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no Censo demográfico de 2010. Mesmo ficando atrás do Pará – 76,7% – é o Estado com o maior número de pessoas que se autodeclaram pretas (17,1%); pardos representam 59,2%, de acordo com o mesmo levantamento.

Sem entrar no mérito do debate sobre se cotas na pós-graduação é defensável do ponto de vista de uma política afirmativa e de defesa de direitos, exigir que negros na Bahia se autodeclarem “minoria social” para ter acesso ao direito, além de soar como ironia cruel, é uma cilada para que continuem exercendo o papel de símbolos de uma “inclusão para inglês vê”. Esse tipo de “inclusão”, todos sabemos, quando acontece é reservada apenas aqueles que – por ausência de auto-estima, ignorância política e ou ideológica, oportunismo, ou por todas as alternativas citadas acima – aceitam essa espécie de inclusão pela janela.

O mais lamentável é ver as mesmas lamentáveis figuras que se autoproclamam lideranças do movimento negro brasileiro, saudarem esse tipo de medida como um “avanço”, “diminuição do enorme abismo social” e outras bobagens do gênero.

A medida da UFBA para além das boas intenções – e a calçada do inferno está cheia de bem intencionados – é apenas uma cilada para atender a demandas de um tipo de militante que está mais para lobista do que ativista de uma causa social e que aceita comodamente o papel de ser – para sempre e eternamente – símbolo dessa inclusão farsesca, em troca de títulos para engordar o currículo na academia.

Esse tipo de militante, como o provou os 14 anos de governos do PT e a inutilidade prática dos lobbies que defendem para si cotas na pós-graduação nas universidades – é extremamente útil à manutenção e preservação do sistema racista no Brasil.  

Dojival Vieira