Tempos complicados estes que vivemos: entre caciques, coronéis, entreguistas, vende pátrias e vira-latas, temos, do outro lado, um conjunto de reboquistas dispostos a seguir o carisma e não as posições ideológicas do ex-sindicalista. Como não resisto a comparações históricas, Dilma poderia puxar o tapete de Lula, tal como o golpe final para o golpe de 64 foi do PSD com JK à frente. Só não combinaram com a caserna, e o papelão foi do ex-governador de Minas e da embaixada dos EUA.

Para mim houve – e há – promiscuidade entre o ex-presidente e o cartel das empreiteiras e isso é uma característica do capitalismo praticado no Brasil e não é exclusividade do partido da ex-esquerda. Insisto, há corrupção, o ex-presidente é conivente ou corrupto e assim ele, Lula, repete o padrão de comportamento do governo anterior, tucano-udenista.

Mas, esse não é o tema de fundo, este não é o problema de ordem estratégico. Devemos tentar separar a condenação política ao comportamento da ex-esquerda para com o ato irresponsável de fazer coro com a direita que perdeu na urna e quer levar na marra. Há diferença entre neoliberais tucano-udenistas e o atual projeto, ladeira abaixo e à direita, ancorado numa oligarquia podre e corrupta. Nem o reboquismo ao pacto de classes lulista e menos ainda o entusiasmo tucano-udenista leva ao poder do povo.

Estamos realmente diante de um paradoxo. De um lado, o pacto de classes do lulismo está fazendo água, e ao que parece, as frações de classe dominante que acompanhavam a aliança estão sendo pressionadas para deixar a caravela naufragar (reparem que disse caravela e não foi á toa). Ao mesmo tempo, a burocracia de Estado e, em especial, a tecnocracia dos bacharéis, está deitando e rolando.

Agora, o alvo é o espelho retorcido de seus piores adversários, e, de fato, Lula e seus correligionários mais próximos, estabeleceram relações promíscuas com cartéis brasileiros e se portaram de forma absurda com recursos coletivos.

A Bancoop é alvo de denúncias dentro do CMI há mais de dez anos; destacando os papéis sim de João Vaccari Neto e Ricardo Berzoini. Qualquer semelhança com o PCI italiano antes do seu racha ou com o braço bancário do PC Argentino não são coincidência alguma.

Mas, repito: nada disso impede a crítica e o alerta máximo para as manobras da direita que perdeu as urnas e quer levar na marra, mesmo sabendo que o programa de governo de Dilma no segundo mandato, até o momento, peca por austericídio e não por distribuição de recursos.

Nada, absolutamente nada do conteúdo das acusações contra o ex-presidente é novidade no Brasil. A direita ideológica corroeu por dentro as fracas convicções do partido social-democrata brasileiro, (o PT) e, visando o desmonte do aparelho de Estado e a maior presença das transnacionais no Brasil, junto com o intento permanente de atropelar as garantias e direitos da Constituição de 1988, viram a chance de partir para um vale quase tudo, desde que com um verniz legal e o reforço midiático.

Se alguém tem de criticar a Lula e seus auxiliares diretos é a esquerda restante e não o moralismo hipócrita de quem não quer ver um "novo entrante" neste disputado mercado do tráfico de influências, gerando relações assimétricas distintas daquelas às quais os cartéis brasileiros já estavam habituados.

Antes da onda do triplex no Guarujá tínhamos o escândalo da Sabesp (esse é das antigas, 1991) e também o buraco da Linha 4 do metrô de São Paulo, sendo que, neste último, participaram as mesmas empresas do oligopólio da construção pesada no Brasil e ainda a Siemens.

Logo, não há diferença substantiva entre o Trensalão do Metrô e da CPTM de São Paulo e o Petrolão. Para tristeza da esquerda e alegria de todas as direitas, o PT se transformou – majoritariamente – em um partido de caciques cujo comando oscila entre a promiscuidade com o capital ou a corrupção dos cartéis. Isso não significa que a direita está correta em querer derrubar o governo eleito, e sim que o lado que perdeu nas urnas, se arvora de moralismo para esconder o vale quase tudo para não deixar Dilma fazer quase nada – ainda que ela mesma não queira nada fazer.

Vamos guardando as palavras para acompanhar o domingo dia 13 com ares de sexta feira 13 ou 24 de agosto se é que me faço compreender. Mesmo nunca tendo militado em partido eleitoral de tipo burguês, fico com pena, pena mesmo, pois esta força política nos anos 80, era reformista, mas popular e legítima. Agora é o espelho retorcido das práticas políticas do ex-inimigo de classe, justamente os aliados que não querem mais saber do lulismo, a saída por conveniência dos cartéis brasileiros.

Quem ataca o governo por direita, mais que nada defende os pressupostos do neoliberalismo e os cartéis transnacionais (Serra e a Chevron que o digam). Sem reboquismo e menos ainda tucano-lacerdismo. Dias difíceis teremos.

 

Bruno Lima Rocha