S. Paulo – Acionados pelos seguranças, os taxistas do Shopping Ibirapuera, em Moema, zona do Sul de S. Paulo, recusaram-se a aceitar como passageiro, o pastor batista negro Marco Davi de Oliveira, 42 anos. O fato ocorreu no dia 1º de março passado, quando o pastor, acompanhado da mulher e filhos foi ao Shopping comprar material escolar.
Davi (o primeiro da esquerda para a direita, na foto com membros da Comunidade Pão da Vida) é ativista do Movimento Brasil Afirmativo e também colunista de Afropress, onde escreve, eventualmente, sobre o movimento negro evangélico. Ele estava acompanhado da mulher, a jornalista Nilza Valéria Zacarias do Nascimento Oliveira, e de dois filhos menores – Laticia Mariah Zacarias de Oliveira, 9 anos, Marco Davi de Oliveira Filho, 11 anos -, quando tentou voltar à sua casa, no bairro do Cambuci, para apanhar o cartão de crédito que havia esquecido.
O primeiro taxista a ser abordado, de nome Lourenço, foi direto. “Negão, eu não te levo e saiu do carro”, contou Davi. O taxista havia recebido comunicação por rádio dos seguranças informando que o pastor era suspeito. “Saí e comecei a pedir outros taxistas que me conduzissem. Ninguém quis me conduzir. Ao contrário: se afastavam de mim. Diziam que não levariam mais ninguém. Depois apareceram duas senhoras brancas que foram conduzidas normalmente, com tranqüilidade”, acrescentou .
Segundo o pastor, a cena se repetiu com mais seis ou sete taxistas, que tiveram a mesma atitude. “Fui do outro lado, o outro taxista também me negou a condução, alertados por rádio passado pelo segurança do shopping. Entre si, segundo Marco Davi, confidenciavam: “cuidado, ele é suspeito”.
Depois de quase uma hora, um outro taxista que assistia à cena – Ronaldo Brito – indignado, resolveu tomar uma atitude, e fez a corrida. “O que aconteceu comigo é porque a população negra é marginalizada. Eles pressupunham que eu era um bandido”, afirmou Marco Davi.
Crime
“Qualquer cidadão pode esquecer seu cartão de crédito. “Fui tratado como um criminoso”, ressalta. Chocado com o ocorrido o pastor entrou em contato com o jurista e ex-secretário da Segurança Pública Hédio Silva Jr.
“A discriminação fere a dignidade e abala a auto-estima da indivíduo discriminado de forma cruel. Racismo é crime e deve-se denunciar este tipo de intolerância”, diz Hédio, ponderando que como afirmava Martins Luther King, a lei não irá acabar com o preconceito, mas irá obrigar os preconceituosos a respeitarem todos os cidadãos , independente de raça, cor, sexo religião etc. Segundo Hédio os seguranças, assim como os taxistas praticaram crime de racismo.
Ações
Na tarde desta quarta-feira (26/03), Hédio protocolou junto a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, uma representação contra funcionários e taxistas do Shopping Ibirapuera envolvidos no caso.
Hédio anunciou que, mais adiante entrará com mais três ações. Uma no Procon, baseada no direito do consumidor; uma segunda na Prefeitura com base na Lei Municipal que prevê a cassação do alvará de funcionamento do estabelecimento comercial acusado de discriminação racial e, por último, uma ação indenizatória contra o Shopping Ibirapuera por danos morais e à imagem do pastor.
Quem é
O pastor Marco Davi de Oliveira é carioca de Teresópolis e bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil. Militante do Movimento negro evangélico é presidente fundador da organização não-governamental Simeão, o Níger, e tem tido participação ativa como um dos coordenadores do Fórum de Lideranças Negras Evangélicas.
É autor do livro “A religião mais negra do Brasil”, em que lança um olhar sobre os anos de luta da negritude pelo reconhecimento de sua identidade no contexto do segmento evangélico e alerta sobre a manutenção de um sistema que ainda mantém o negro longe das esferas de decisão, reproduzindo com freqüência, nas estruturas das igrejas, o preconceito ao qual suas lideranças afirmam se opor.

Da Redacao