Queens, Nova York – Uma das figuras centrais no desenvolvimento da Teologia da Libertação negra foi o pastor James H. Cone. Sua árdua batalha ocorreu durante as tumultuadas décadas de 1960 e 1970. Nestas duas décadas, em especial, disputando a atenção religiosa e política da população afro-americana, estavam a Nação Negra do Islã (Black Nation of Islam), comandada pelo carismático líder Malcolm X até seu assassinato em 1965, e o partido dos Panteras Negras (Black Panther Party) com sua ideologia do “Negro e Orgulhoso” que surgiu em Oakland, na Califórnia, no final dos anos 60 tendo na figura do jovem e também carismático, Stokely Carmichael, seu principal orador.

James H. Cone defendia a idéia de justiça racial e uma interpretação do evangelho cristão que elevasse as vozes dos oprimidos. Ele era professor emérito da União do Seminário Teological, um seminário teológico não vinculado a qualquer denominação religiosa afiliado a universidade Columbia de Nova York. James H. Cone era também pastor, autor e teólogo.

Ele descrevia a teologia da liberação negra como “uma interpretação do evangelho cristão oriundo da experiência, perspectiva, e vida de pessoas que estão na base da pirâmide social econômica e racialmente falando”. Segundo o professor, numa entrevista dada em 2008, durante a década de 1960, ele viu sua fé em perigo devido ao grande apelo as pessoas negras por parte da Nação do Islã e do movimento “Black Power.”

O cristianismo era visto por muitos dentro da comunidade afro-americana como a religião do homem branco, lembra Cone. “Eu dizia que não. O evangelho cristão não é a religião do homem branco. É uma religião da liberação, uma religião onde diz que Deus criou todas as pessoas para serem livres. Entretanto, percebi que, para as pessoas negras serem livres, elas precisam amar sua negritude.”

Durante décadas, o pastor James H. Cone falou sobre o que afligia a comunidade negra: iniquidade racial que persiste na forma de injustiça econômica, encarceramento em massa e as mortes de jovens por tiros em encontros com a polícia.

“Este tipo de consistência é, simplesmente, rara na vida intelectual americana, estar focado tão inabalavelmente nos mais vulneráveis na nossa sociedade,” disse o renomado filósofo, autor e professor da universidade Harvard, Cornel West. “James H. Cone foi o gigante teológico no nosso meio e que tinha um caso de amor com as pessoas oprimidas, especialmente com as pessoas oprimidas negras.”

De acordo com suas próprias palavras, o momento decisivo na sua vida aconteceu em 1967 durante os distúrbios raciais de Detroit – uma série de confrontos violentos entre os residentes (maioria negra) e a polícia que acabou resultando na morte de 43 pessoas; um momento decisivo que o o inspirou a desafiar a teologia branca mais declaradamente. “Eu escutei as vozes do sangre negro chorando por Deus e para a humanidade”, ele disse numa entrevista em 2017.

Seu livro de 1969 “Black Theology & Black Power” (Teologia Negra e Poder Negro) é considerado por muitos como o texto fundador da liberação negra. Numa nova introdução numa edição nova de 1997, ele disse que “queria falar em nome das massas sem vozes em nome de Jesus cujo evangelho eu acreditava, mas que tinha sido amplamente distorcido pela pregação teológica das igrejas brancas.”

Em 2008 a teologia da liberação ganhou bastante publicidade porque um dos seu proponentes, o pastor Jeremiah Wright, Jr., tinha sido o pastor do então jovem candidato à presidência dos EUA, Barack Obama. Os comentários de Wright sobre a questão racial tornaram-se uma enorme bomba e um risco para a campanha de Obama porque o pastor tinha sugerido que os EUA tinham sido atacados no dia 11/9 porque estavam envolvidos em terrorismo e que o governo poderia ter usado a vírus da AIDS como uma ferramenta de genocídio contra as minorias. Obama, óbviamente, rejeitou tais teorias e se afastou do pastor em Abril de 2008.

No mês seguinte, em entrevista para o periódico The New York Times, ele disse que a teologia era uma combinação do reverendo Martin Luther King, Jr. e Malcolm X. “Você poderia dizer que pegamos nosso cristianismo do Martin e nossa ênfase de negritude do Malcolm,” ele disse. James H. Cone acrescentou ainda que, enquanto ele discordava dos comentários mais incendiários do pastor Wright, “lá no fundo é a forte linguagem do Malcolm que grita dentro de nós.”

James H. Cone faleceu em Nova York em Abril de 2018 depois de uma longa batalha contra o câncer. Ele tinha 79 anos.

Autor: Edson Cadette

É correspondente de Afropress em Nova York (EUA)