Expurgados da senzala e sem ter para onde ir o negro carioca invadiu os morros, estes que antes ficavam em locais ermos, onde o branco não tinha quaisquer interesses, na época, mormente, interesses financeiros. E tudo ficou muito legal! Até por que nós não podíamos mais voltar mais à África.
Já em 64, quando os militares chegaram ao “poder” – dizia Sandra Cavalcante que fora uma quartelada – “coincidentemente” dona Nara Leão, uma mulher branca e classe-média alta e que era amicíssima das “maiores” figuras da bossa nova – esta última que tem, aliás, por criador Jonhy Alf – resolve romper seus laços com eles e procurar as suas “origens”… Lá nos morros cariocas (?).
Aí fica a pergunta: que origem uma mulher branca ou qualquer branco poderia ter no morro? Nenhuma, é claro. Mas ninguém desconfiou de nada. O fato é que ela pegou alguns mulatinhos (Zé Kéti e Nelson Cavaquinho) e foram procurar as tais suas “origens”.
Os negros, aliás, como acontece até hoje, tinham a ilusão de que um dia os brancos liberariam uma grana para eles. Isso há longa data… É claro que uma maioria acreditava nisso, outros tantos poucos não. Isso já havia ocorrido anteriormente no candomblé e na capoeira, todavia, o samba era até então ignorada “coisa de marginais”, diziam eles.
O que pretendiam de fato era o território. Estes que antes estavam em lugares distante agora estavam dentro da própria cidade que se expandira.
Nesta época, para quem é desta e não tem memória curta, os negros não podiam descer do morro – fora algumas poucas exceções, para não contrariar a regra -, e em contrapartida o branco também não podia também subir. Antigamente não, mas isso atualmente incomoda sobremaneira o branco, que por sua vez ainda acredita que todo o território é somente dele – sinceramente! 500 anos é apenas um mísero instante na História.
O fato é que quando dona Nara Leão chegou com sua pá de lacaios, a maioria do morro não aceitou a sua subida. Então foi criada uma quadra de samba no pé do morro. Lógico que ela e seus cúmplices não aceitaram, queriam sim, freqüentar a quadra lá no alto do morro… E o pau comeu entre os negros. Entretanto, os negros de alma branca venceram. E o branco subiu ao morro, somente os negros continuaram a não poder descer.
Entretanto o branco não se contentou somente com a quadra, quiseram mais, disseram também precisar de um posto policial lá no alto do morro, para suas seguranças… E o conseguiram também. E a polícia branca conseguiu, pela primeira vez, subir o morro. Este que, aliás, era na verdade um quilombo. É como nós sempre dizemos, nós da resistência, o negro de alma branca além de pelego é a nossa pior, maior e principal desgraça.
Bem, para encurtar a história, depois vieram às drogas – “inexplicavelmente”, porque ninguém vai me convencer de que os descendentes de escravos do morro, hoje maioria miscigenada, saída do cativeiro sem pecúlio poderiam adquirir toda aquela enorme quantidade de droga, com investimento próprio… Isso é blefe, pois custa muito caro, e depois as armas. Na verdade estava aí sendo criado o pretexto para pô-los todos no olho da rua… Novamente… Isso se não falarmos do genocídio.
Agora, o secretário de segurança do Estado chamá-los “covarde” por não esperar, como disseram, “um banho de sangue” creio ser isso um imenso exagero, se não desfaçatez, e acinte também é claro. Usar as forças armadas – aquela! Que está no Haiti sendo acusada até de mesmo de estupro, isso sim, eu chamo de achincalhe à nossa consciência. Mesmo por que é um crime de Estado premeditado… Quer dizer… Apenas mais um. E a Imprensa segue junta.
Somente eu quero ver o que os negros de alma branca nos dirão desta. Não dirão nada é claro, pois são também todos cínicos e covardes. Quero ver é quando o bicho pegar também para cima deles. Aliás, isto está muito próximo, às portas. Enquanto ficam ganhando dinheiro por conta de nossa desgraça. Ah! Deixe estar jacaré, pois um dia a lagoa seca.
E eu fico pensando, tive meu estabelecimento comercial invadido, fui arbitrariamente preso, torturado, e fui também absolvido na justiça criminal nas acusações que me imputaram, e também ganhei ação cível contra o Estado por esta barbárie (não é para estar indignado?)… E quando será que estes “mocinhos, paladinos de lei, da ordem e da justiça” irão me pagar? Pagar a minha indenização? Quando será? Até para que eu possa me livrar da banda podre do movimento negro brasileiro, de suas piegas e chulas piadinhas, do tipo: “Ah! Ah! Ah! Ocê ganhou, mas não levou”, ou “Ocê não vai receber”. Logo eu! Que tenho 40 anos de militância comprovada e sacramentada… E até agora não perdi nenhuma. Pois meu filho foi covardia.
A verdade é que o povo brasileiro tem que tomar vergonha na cara. O povo só não, a sociedade brasileira também. E quanto ao negro brasileiro. . É como dizia a minha querida avó: “Ah! Ninguém perdeu para eles acharem!”
Quanto à polícia brasileira? Esta todo mundo sabe que é bandida – para não variar também corrupta. E quem afirma isso não sou eu não, e sim um desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Eu tenho Acórdão, e estou louco, apenas esperando desesperadamente encontrar um Tribunal sério de fato e de verdade, para apresentar… Assim como outros documentos são claros.
É só pagar pra ver! Me matar já não adianta mais, pois já estou com 62 anos de idade, e já contrariei, segundo o Racionais MCs, três estatísticas. Se eu não morrer assim morrerei de outra forma, pois sou até alérgico a camisinha.
São Paulo, 23 de dezembro de 2010.
PELO CESSAR IMEDIATO DO GENOCÍDIO DO NEGRO NO BRASIL!
PELA DESOCUPAÇÃO IMEDIATA DO HAITI!
PELO MEMORIAL DA ESCRAVATURA NEGRA NAS AMÉRICAS!

Neninho de Obaluwàyé