A submissão aos interesses dos partidos políticos e do Estado, e a limitação imposta pelos mesmos às nossas organizações, não só legitima o paternalismo branco, como também legitima a ideologia de que “os(as) negros(as) não possuem sabedoria suficiente para buscar e trilhar, sozinhos(as), os caminhos solucionadores dos seus problemas”.
Ainda, essa maldita dependência e subserviência ao “Poder Branco” é um grande empecilho para construção das bases de sustentação da nossa unidade racial. Pois a regra utilizada historicamente pelos nossos opressores é a de “dividir para governar”, ou seja, nos dividir para nos governar. Daí, surge uma pergunta: como poderemos construir as bases de sustentação da nossa unidade racial se estamos divididos e submissos aos interesses dos partidos políticos e, quando não, do Estado? O que vemos e vimos, neste país, são tentativas frustradas de construção da chamada unidade negra, pois o chamado “Poder Branco” coopta nossas lideranças e militantes para suas fileiras, fazendo com que estas submetam todos os planos, projetos e sonhos de desenvolvimento da nossa comunidade aos interesses daquele, recebendo estes, em troca, as migalhas, os restos e a falsa sensação de participação no poder daquele.
É tão vergonhosa a submissão das organizações do movimento negro que chegamos a ponto de excluirmos uns aos outros por causa dos interesses partidários e a necessidade de sermos reconhecidos e legitimados, pelo “Poder Branco”, como verdadeiros representantes da comunidade negra. Assim, surge uma outra pergunta: como podemos confiar nessas organizações e lideranças negras vendidas aos interesses do “Poder Branco”, se eles não possuem autonomia e liberdade nas suas ações para defenderem os interesses do povo negro ?
Infelizmente, no Brasil, a situação sócio-econômica e identitária da população negra são caóticas, também, por causa da omissão e subserviência das organizações e lideranças negras, que submetem nossos planos de libertação aos interesses dos algozes do povo negro.
A realidade da nossa gente hoje exige muito mais do que discursos apaixonados e inflamantes. Necessário se faz traçarmos novos caminhos em direção a nossa autodeterminação enquanto povo, como também, de ações revolucionárias que coloque em choque a estrutura de poder vigente sobre nós.
Veja o que disse o escritor negro afro-norte-americano James Baldwin: “Tente imaginar se uma bela manhã você despertasse e vi-se o sol brilhando e as estrelas a rutilarem, você se assustaria, por que isso está fora da ordem da natureza. Qualquer alteração brusca no universo é terrificante por atacar profundamente a sensação da nossa própria realidade. O preto tem funcionado no mundo do homem branco como uma estrela fixa, uma pilastra imóvel, no que ele se desloca de seu lugar, céus e terras são abalados nos seus alicerces”.
Contudo, acredito fielmente que nós, negros e negras, que possuímos um verdadeiro sentimento da necessidade de libertação do nosso povo da opressão racial, não devemos desistir do nosso sonho de construirmos uma comunidade negra unida, forte, autônoma e auto-suficiente. Devemos continuar a acreditar, incondicionalmente, no nosso potencial transformador e revolucionário para superar nossos próprios problemas, pois os irmãos e irmãs “vendidos(as)” ao “Poder Branco” serão julgados(as) pela sua própria consciência e condenados pelas suas próprias ações. Como pan-africanista e seguidor do nacionalismo negro, sigo a linha de militância que afirma que “nós negros e negras estamos por nossa própria conta”. Que ninguém, a não ser nós mesmos, tem o verdadeiro compromisso pela causa de libertação da nossa gente.
Por fim, vou finalizando este presente escrito transcrevendo abaixo uma história de libertação do educador africano James Aggrey, que se encaixa perfeitamente com o contexto histórico que vivemos.
A águia e a galinha
“Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa.
Conseguiu pegar um filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/rainha de todos os pássaros.
Depois de cinco anos, este homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista: – Esse pássaro aí não é galinha.
É uma águia. – de fato – disse o camponês. É águia. Mas eu a criei como galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.
– Não – retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar às alturas.
– Não, não – insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.
Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:
– Já que você de fato é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe!
A águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.
O camponês comentou: – Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!
– Não – tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.
No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurrou-lhe: Águia, já que você é uma águia, abra suas asas voe!
Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.
O camponês sorriu e voltou à carga: – Eu lhe havia dito, ela virou galinha!
– Não – respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia.
Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.
No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha.
O sol nascente dourava os picos das montanhas. O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:
– Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!
A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.
Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau das águias e ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez para mais alto.
Voou… voou até confundir-se com o azul do firmamento…”

Essa estória evoca dimensões profundas do espírito de superação, indispensáveis para o processo de realização humana: o sentimento de auto-estima, a capacidade de dar a volta por cima nas dificuldades quase insuperáveis e a criatividade diante de situações de opressão coletiva que ameaça a esperança das pessoas.
James Aggrey tinha razão: cada negro(a) tem dentro de si uma águia. Ela quer nascer. Sente o chamado das alturas. Busca o sol. Por isso somos constantemente desafiados a libertar a águia que habita dentro de cada um de nós.
Amor e Liberdade ao povo preto. Vamos trabalhar verdadeiramente pela superação dos problemas que afetam nossa gente. Não vamos desistir nunca. Isso nos mantém vivos, pois como diria Steve Biko: “Ou você está vivo e orgulhoso, ou você está morto”. Quantos irmãos e irmãs estão mortos (as) ?

José Raimundo dos Santos Silva