O jornalista, que foi o representante do Brasil na Alemanha, na Conferência Brasileiros no Mundo promovida pelo Itamaraty no ano passado, descobriu a doença no final do ano passado. Radialista e ativista, responsável pela Rádio Mamaterra e pelo Quilombo Brasil – que ele chama de embaixada popular étnica para todos os negros e antiracistas do mundo – Romão conversou por telefone e depois por e-mail com o editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, no último domingo (21/03), antes de se internar para a cirurgia.
Bem humorado, mesmo depois de dois meses de quimioterapia e radioterapia, e com as “nádegas assadas”, ele se mostrou animado. “Não tem metástase e a possibilidade de cura total, segundo me dizem os médicos, é de 90%”.
Na conversa, que começou por telefone e foi concluída por e-mail, o jornalista perseguido no Governo Moreira Franco, que o demitiu do cargo de sociólogo que ocupava por concurso, falou do trabalho que faz em Hamburgo, dos desafios do Movimento Negro brasileiro, das dificuldades que tem enfrentado, inclusive por conta dos gastos com a doença, da vontade de voltar a viver no Brasil. Emocionado, destacou a solidariedade que tem recebido de amigos brasileiros na luta pela superação da doença.
“O apoio moral tá sendo fantástico, pois o que recebo de receitas para diminuir tumor não está no gibi; até vitamina de genipapo me receitaram. Onde é que vou achar genipapo na Alemanha, meu imão? Minha caixa de e-mail tá estourada, não sei como agradedecer tanto carinho e consciência da rapaziada”, afirmou .
Veja, na íntegra, a entrevista.
Afropress – Há quantos anos você está fora do Brasil e como está vendo de fora o Movimento Negro brasileiro?
Marcos Romão – Fora do Brasil eu estou há 21 anos. Na década de 90 foi um frequente ir e vir entre os dois a países. Fiz muitas reportagens para rádios e tvs alemãs sobre direitos humanos e discriminação racial no Brasil. E aproveitei estas idas ao Brasil para montar redes de defesas dos direitos na tal de Internet, que ainda estava engatinhando. Quando as minhas duas filhas, que nasceram na Alemanha, entraram para a escola ficou mais difícil esta vida de circo.
Criei então a Rádio Mamaterra e depois o Centro Cultural Quilombo Brasil, em Hamburgo, para manter virtualmente um contato com toda a América Latina e parte da África. Claro que 90% disso é ativismo, e com meu trabalho de jornalista e massagista e mais umas merrecas recebidas de instituições de apoio ao trabalho de migrantes, sustento este ativismo. Não não é mole não.
E a família, os filhos…?
Romão – Agora, que minhas meninas já tem 15 anos e fazem um intercâmbio escolar de um ano no Maranhão, penso em voltar ao Brasil. Elas aprenderam desde os seis anos a ler e escrever em Português e Alemão em uma escola bilíngue do Estado de Hamburgo. Projeto que eu tenho um orgulho paterno de ter ajudado a criar. Foi um dos primeiros projetos bilíngues gratuitos de escola regular na Alemanha. Hoje é exemplo para a Europa.
Afropress – Você trabalhava na Escola?
Romão – Não, pois não havia possibilidades legais de me empregar como sociólogo. Assim trabalhei no modelo escambo. Eles me cederam uma sala com telefone e computador para ser o escritório da Rádio Mamaterra, e como jornalista eu fazia o trabalho de base para convencer os migrantes de língua portuguesa a colocarem seus filhos nesta escola.
E imagina que brasileiro nem queria saber de seu filho aprender português com sotaque lusitano de Angola, que era língua materna da professora primária de minhas filhas. Elas agora falam com um sotaque angolês-carioca-alemão, maior barato.
Afropress Quando é que você começou a sair do Brasil?
Romão – Comecei a sair mesmo do Brasil em 1986 quando o governo de Moreira Franco assumiu o poder no Rio de Janeiro e me demitiu do meu emprego concursado de sociólogo da Fundação leão XIII, que era a base da Secretaria de Promoção Social. Olha, que eu havia sido o primeiro sociólogo negro brasileiro a entrar para um serviço público, via concurso. Eu conhecia as favelas, conjuntos habitacionais, centros de mendigos, prisões e a vida dos povos da rua de meu Estado, na palma da mão. Eu era apaixonado pelo meu trabalho.
Tem lá no primeiro Diário Oficial do Governo Moreira, cento e tantas nomeações e uma demissão, não de cargo de proveta, mas da minha profissão de sociólogo.
Sim, foi racismo puro. Não tinham uma vírgula de acusação contra mim. Muito pelo contrário, pois em tudo quanto é lugar que eu havia administrado o estado economizava, pois eu era especialista em trancar as torneiras, e dirigir as verbas para o atendimento dos mais carente. Eu era um mal exemplo para o que viria, e que você vê até hoje em meu Estado e no Brasil.
Afropress – Como foi a luta pela tua readmissão e porque não teve êxito?
Romão – Tentei, sim, tentei lutar, fui acompanhado de uma delegação de notáveis negros de vários partidos e do Movimento Negro, entres os quais Abdias Nascimento, Benedita da Silva, Januário Garcia, Ivanir dos Santos e Carlos alberto da Silveira. Eram mais de dez notáveis.
Moreira Franco prometeu que ia resolver, mas a chefia da Fundação estava nas mãos do irmão dele. Me paparam em familia.
Aí ficou claro para mim o racismo instituicional, pois não estavam demitindo somente o sociólogo negro, e sim a pessoa que tinha atuado três anos no Conselho de Direitos Humanos do Estado. Lá eu promovi os primeiros encontros de lideranças de minorias com o sistema de segurança,. Com o coronel negro e meu amigo pessoal, fizemos campanhas para diminuir e punir quando fosse o caso, a violência policial.
A experiência prática que me tornava incõmodo nos encontros do Conselho de Direitos Humanos, vinha do SOS Racismo, que plantei as raízes, primeiro em Niterói, em 1980 meu trabalho paralelo como ativista e não remunerado do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras junto com um time de primeira. E a maioria dos que aprenderam na escola do SOS continuam agitando numa boa.
Pois é, o bicho pegou, a pessoa que me substituiu na Fundação Leão XIII, foi um tal de Miguelão, notório capanga de políticos, especializado em participar em tropas clandestinas para acabar no cassete manifestações de trabalhadores, como foi o caso da dissolução de um greve de professores, em que ele armada de uma metraca portátil, perseguiu um membro do SOS Racismo no Largo do Machado, no Rio. Esse cara foi assassinado no final do Governo. Queima de arquivo? Não sei.
Afropress – Como está vendo de fora os desafios e os dilemas do Movimento Negro no Brasil?
Romão – O Movimento Negro no Brasil tá bem. As lideranças no governo e nos partidos estão reaprendendo a lidar com o movimento. Pois ele está muito mais avançado e ligado aos movimentos sociais e às reivindicações dos despossuídos no Brasil, do que o que restou de liderança, depois da verdadeira hecatombe que foi a experiência de nossos ministros negros, que mataram antes que nascesse a esperança de muita gente, e não só negros.
É, foi menos incúria do que ingenuidade. Digo até uma certa soberba que parece que bate em nosso pessoal quando chega ao poder.
É a esquizofrenia do funil do racismo, pois mesmo em um pequeno emprego de chefe de zeladoria, o negro fica com medo de chamar outro negro para não dar na vista, prá não chamarem de racista ao contrário. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
Conversndo com meu amigo do Movimento, chegamos à conclusão que a ex-ministra Benedita da Silva, foi a pessoa negra que chegou mais perto do poder desde a Abolição. Prá mim foi um baque ela ter se afastado da opinião de militantes experientes.
Afropress – O que aconteceu com a Benedita?
Romão – Não não sei. Eu adoro ela, pessoalmente. O que aconteceu com ela aconteceu com muitas outras pessoas negras na história do Brasil. Mas rolou agora, né? Deixou muita gente paralizada. Agora só temos uma secretaria petitória não é? Mas estamos então no mesmo pé dos povos indígenas, tá na hora de pedirmos nossa emancipação política em conjunto, chega de departamento de adminstração colonia pros coitados dos negros e indíos.
Afropress Tem acompanhado o debate sobre as cotas no Brasil?
Romão – Estamos perdendo muito tempo com as cotas nas universidades. Como me falou, meu companheiro Jauário Garcia, estamos olhando as coisas pelo ponto de vista do branco e ficamos atrás de migalhas percentuais. O branco brasileiro tem 99,9% das cotas há séculos!
O princípio das cotas precisa ser institucionalizado e constitucionalizado. Para tudo. Você, veja, tu é um negão, descola um emprego beleza de chefe de cozinha de um restaurante.
Aí, pinta uma vaga lá. Você vai falar pro chefe que tem um cara que voê conhece lá na favela que é a pessoa ideal pro posto? Ou vai pensar duas vezes? Pô, você conhece o cara, um dia ele tomou umas pinga e fez besteira, será que ele vai fazer na saída?
É pois é, toda carreira de negro, de chefe de faxina à ministro é vigiada e auto-vigiada. Não pode dar um vacilo. Com cotas fica claro. Não tem preto? Não tem indio? Não tem mulher? Não tem homossexual? Está errado. Porque nós é que sempre temos que provar que um banco é racista quando lá só tem brancos no balcão?
Com cotas vai ser todo mundo menos infeliz, vai ver melhor distribuição e menos inveja. Mais paz social e etc. Sem cotas amplas gerais e irrestritas, a opção é continuar a pequena grande guerra mental na vida cotidiana de cada brasileiro. Fica todo mundo escondendo alguma coisa, negro com medo de negro, indio com medo de indio, mulher com medo de mulher, e os que tem 99% das cotas, rindo da nossa cara.
Afropress – Como é o dia a dia como coordenador da Rádio Mamaterra e Quilombo Brasil?
Romão – A Rádio Mamaterra foi uma saída para sobreviver mentalmente aqui na Europa. Ma não só isto. Eu sempre vivi com a filosofia de que meu mundo é minha esquina; é com a Rádio que boto na Internet há dez anos, vivo com minha família e amigos em contato com muitas outras esquinas no mundo. Se você me perguntar o que aconteceu ontem aí na esquina de sua casa, talvez eu saiba mais que você (risos).
Foi natural com a rádio que fundasse o Quilombo Brasil em 2005. Nesta época entrou um governo de extrema direita em Hamburgo, e antes que me expulsassem do escritório que tinha na escola pública bilíngue, eu saí fora e com minha família fundei o Quilombo. Tava com uma mão na frente e outra atrás.
A máquina de café foi doada pela mesquita aqui perto, as cadeiras pelos protestantes, o computador pelos católicos, e as mesas pelo sindicato de jornalistas da cidade, que, aliás, reúne a sua diretoria todo mês aqui no Quilombo.
A turma de estudantes pan-africanistas de toda a África usa aqui como sede, e o primeiro conselho de cidadãos brasileiros também. Até os homens pintam por aqui quando acham algum brasileirio perdido na cidade (risos).
Mas o que mais curto com o Quilombo Brasil e a Rádio Mamterra, é minha ligação com o Brasil. Com o Ras Adauto da Rádio Pindorama, de Berlim, e o brancão Joca Neto, da radio Made in Brazil, de Estocolmo, estamos ligadíssimos com o Movimento Negro e social do Brasil. No que chamamos Mamaterra, a primeira rede de comunicações com olhar afro-indígena e feminino a partir da Europa.
Quero voltar ao Brasil, mas deixar esse Quilombo funcionado como embaixada popular étnica para todos os negros e antirracistas do mundo.
Afropress – Como está enfretando as dificuldades de saúde e qual seu estado de ânimo?
Romão – Xará, eu tinha uma pesquisa para fazer no Brasil, neste primeiro semestre, ia ser bem pago, e me ajudaria a preparar meu retorno à terrinha. Aí quando cheguei do Brasil em novembro de 2009, pintou o diagnóstico da quisila contemporânea, “carcinoma retal”. Aquele baque, dois meses de químio e radioterapia e nádegas assadas. Só doía, quando eu ria. Funcionou, é o que vale. Não perdi o humor e diminuí em 50% o tumor… Sentiu a poesia? Agora é cortar prá nunca mais voltar.
Afropress – Como tem sido a solidariedade dos velhos companheiros do Brasil?
Romão – Tá sendo demais. Você sabe que eu tenho uma família de militantes e super carinhosa. A agitação começou com meus amigos de infância, que procuram minha irmã para prestar solidariedade e, como eu chamo a grana, colocar um cacauzinho na minha conta, pois como disse meu amigo médico, o Jones, quem ganha em Euro gasta em Euro, e trabalhador autônomo, a viúva não garante. Pude tomar sopa com bacalhau no Natal.
O Luis carlos Gá, publicista do primeiro SOS Racismo, falou com minha irmã, e com a Ana, do Memória Lélia Gonzalez: botaram a boca no trombone para me dar um reforço. Quase me matam do coração de alegria.
Se eu tenho vergonha de receber ajuda? Olha meu irmão sou da turma que tomava birita com Nelson Cavaquinho nas escadas de Santa Teresa. “Se alguém quiser fazer por mim, que faça agora…”
E o apoio moral tá sendo fantástico, pois o que recebo de receitas para diminuir tumor não está no gibi. Até vitamina de genipapo me receitaram, e onde é que vou achar genipapo na Alemanha, meu imão? Minha caixa de e-mail tá estourada, não sei como agradedecer tanto cartinho e consciência da rapaziada.
Afropress – Quais os desdobramentos da sua representação no Encontro promovido pelo Itamaraty no ano passado?
Romão – Agora estou candidato a ser membro do futuro Conselhão de Brasileiros no Mundo com 16 migrantes em todos os continentes. É um processo natural do que venho fazendo há 21 anos. Mostrar a cara multicolorida do migrante brasileiro e que, 90% dos migrantes ao enviarem, anualmente, 5 bilhões de dólares para o Brasil, não só ajudam suas famílias como dão uma injeção financeira para o Brasil. Apesar de enriquecermos os bancos que cobram taxas absurdas para o envio de dinheiro, deixamos de comprar roupa e sapatos para pagar escola de nossos filhos no Brasil. O paraíso não é dourado como falam.
Afropress – Quantos filhos você tem?
Romão – Tenho 4 filhas e um filho mais velho. A de 20 anos, que mora em Bremem e nasceu na Cruzada São Sebastião, passou agora um ano trabalhando em um conjunto habitacional da periferia, em São Gonçalo, e durante este tempo morou com minha filha do Rio na casa da minha primeira ex.
Sim, sou viajado, mas assumo a responsabilidade de todos os meus filhos, no que posso, é claro.
Afropress – Qual é a sua previsão de alta depois da cirurgia? E quando pretende voltar ao Brasil?
Romão – Olha meu querido, depois dessa quero estar pronto para uma próxima. Adiei minha ida ao Brasil, onde além de trabalhar, iria organizar meus papéis para dar entrada na minha Anistia pelo Governo do Rio de Janeiro. Edialeda Nascimento estava correndo atrás, mas se foi, grande guerreira. Anistia e Abolição são eufemismos; reparação pela injustiça que me foi feita é o que eu quero. Está na hora de eu fazer um SOS para mim mesmo. Toda esta solidariedade de minhas amigas e amigos gostaria que servisse de exemplo para que aumentasse a solidariedade entre nós. Está na hora de acabarmos com nossa autofagia
Nota da Redação
Afropress se soma a Corrente de Solidariedade desencadeada por amigos e companheiros do jornalista Marcos Romão. Quem quiser e puder participar é só fazer depósito de qualquer quantia na conta aberta no Banco do Brasil.
João Marcos Aurore Romão
CPF: 209382927-49
Banco do Brasil: 001
Agencia: 4459-8
Conta Corrente: 5925-0

O sociólogo e jornalista Marcos Romão, em entrevista à Afropress.