Nessa altura sucediam-se episódios tristes de humilhação de africanos (angolanos no caso) no aeroporto de Lisboa. Alguns governantes portugueses chegaram a fazer declarações a rair a xenofobia – lembro-me de um ministro do Interior, Dias Loureiro, que chegou a fazer coincidir jovens negros com grupos de delinquentes; outro, um deputado, Paulo Portas, para quem os portugueses só tinham de se orgulhar do “seu” colonialismo, afirmou, numa discussão sobre a naturalização, que ser português era um privilégio e que os candidatos tinham de provar que o mereciam…
E foi assim que então ser africano imigrante, negro vale dizer, se tornou num estigma em Portugal: ele tinha sempre de provar tudo: que não era indocumentado, que não era marginal, que não estava desempregado.Quantas vezes fui “parada” (não humilhada, simplesmente porque tinha instrumentos para pleitear) no aeroporto Lisboa, para justificar as muitas viagens que fazia?! Houve uma vez em que o meu caso, levei-o às instâncias mais altas da hierarquia institucional portuguesa: considerava um abuso, uma violação grosseira dos meus direitos considerar que eu, porque era africana e negra, tinha de provar que não prevaricava.
Foi assim que o polícia do SEF (Serviços de Estrangeiros e Fronteiras) pôs a questão: havia muitos africanos que não deviam cá estar, por isso eu tinha de provar que os documentos que trazia não eram falsos – daí o interrogatório que resolvera conduzir. Enganou-se na negra – tão simplesmente! Corria o ano de 1996, não tanto tempo assim…
Algumas pessoas com quem falei então, quando foi das declarações de Belmiro de Azevedo, regozijaram-se com o que consideravam “inversão de lugar”. Não tiveram em conta que esse regozijo apenas contrariava, na minha opinião, a ideia de que o mundo deve realmente ser o Universo… Não no sentido de “fronteiras perdidas” ou de “cidadão do mundo” (que continuo à espera que me expliquem o que seja porque, tanto quanto me apercebo, apenas os Ocidentais – portadores de passaportes europeus e americanos – podem usufruir desse estatuto), mas no sentido de que a nossa Casa deve ser onde nos sentimos bem.
Lembro-me destes tempos e desses episódios neste momento em que em Portugal se discute a justeza ou a inoportunidade de uma ideia do Governo português que mais parece uma filosofia de governação.
Antes de prosseguir, porque certamente há leitores que não estão a par dessa polémica portuguesa, direi que tem a ver com o facto de dois governantes portugueses, o secretário de Estado da Juventude e o Primeiro Ministro, terem considerado que os portugueses devem considerar a emigração como uma saída à crise que assola o país (bem, as palavras daquele, o secretário, foram até mais corrosivas, porque a ideia foi que os jovens deveriam “abandonar a zona de conforto” para irem “além das [suas] fronteiras”, como se, depois de tirar um curso e estar a viver à custa dos pais e sob o fio da navalha do despedimento e dos contratos a prazo algum jovem sentirá que vive em “zona de conforto”!).
Dias depois, a fogueira foi atiçada com outra declaração de um eurodeputado social-democrata, Paulo Rangel, que propôs a criação de uma agência nacional de apoio à emigração. É assim que o caso entrou definitivamente para a ordem do dia: que governo é esse que, face à diversidade, incentiva a emigração? O que pode ganhar um país, cada vez mais velho, que incita à emigração, ainda por cima de jovens?
Eu reformulo a questão e trago-a para onde me interessa que ela esteja: o que pode ganhar um país dos seus emigrantes, se a emigação for inevitável?
Não querendo discutir da justeza dessas afirmações de governantes portugueses, ou das razões da indignação de muitos portugueses, lembrei-me de que nem tudo é tão mau assim: é que aí os emigrantes são vistos como portugueses, tão portugueses quanto os outros. Pelo contrário, há muitos países em que a emigração ainda é vista como um mal que os cidadãos emigrantes desses países carregam.
Não admira que cada vez mais se vem substituindo a palavra “emigração” por outra que se julga menos negativa, “diáspora”, escamoteando completamente o sentido desta palavra. Isso apenas denota não apenas a forma negativa com que aqueles que tiveram de sair dos seus países quer por razões claramente socioeconómicas quer por razões políticas (que muitas vezes se confundiram), como ainda contribui para a sua baixa estima: hoje, em Portugal pelo menos, tornou-se uso os imigrantes africanos em Portugal referirem-se a si próprios como “diáspora”.
É claro que a disponibilidade mental e psicológica de um emigrante enquanto imigrante depende muito da sua relação com a pátria. Considerar, por exemplo, que os cidadãos que estão fora são maus patriotas quando criticam o Governo do país, como há pouco tempo explicitou um ministro são-tomense, um ministro da Cultura e durante um Fórum sobre a Cultura Nacional – São Tomé e Príncipe que é um país em que um terço da sua população vive fora.
Isso revela, entre outras coisas, as razões dessa tensa relação entre o emigrante e a pátria – para além de revelar uma ideia fascista, de um monolitismo ideológico que vem do tempo do Partido único, que se concedia o poder de dizer quem era bom cidadão e quem não era, ou até quem nem sequer cidadão nacional era, consoante a sua filiação, a sua capacidade de bajulação ou o seu servilismo em relação às ideias desse partido único. É por isso que eu considero que os emigrantes destes países vivem um eterno exílio.
Com efeito, a disponibilidade mental e psicológica de um português imigrante na Alemanha ou de um cabo-verdiano imigrante na Holanda é de um estado de espírito pacífico em relação à terra em que está a dar a sua força de trabalho, fazer a sua vida, educar os filhos, enfim, viver. Mas na certeza de que irá acabar a sua velhice no seu país natal, sua pátria, na sua “santa terrinha” (no caso do português) ou na sua tabanca (no caso do cabo-verdiano), junto dos seus irmãos, junto de amigos de infância, junto do espírito dos seus antepassados.
E essa relação instrumental com o espaço de imigração suaviza o seu quotidiano e os condicionalismos de uma vida de imigrante (que há sempre, em maior ou menor grau), porque ele, o imigrante, pode e está a prever o seu futuro: ele está a construir o seu futuro.
Mas quando o seu país está em guerra, ou numa constante e insensata instabilidade, ou o desconsidera porque ele ousou emigrar, a relação com o espaço de imigração é tensa e conflituosa, porque ele odeia estar fora da sua terra (porque eu não acredito que alguém, se pudesse, não viveria na sua terra) mas sabe que não tem condições para voltar ou não sabe se um dia pode voltar. Sente-se apátrida (no sentido em que a nossa pátria é onde nos sentimos bem), porque a sociedade que o acolhe também lhe lembra todos os dias de que ele é um intruso.
E como é doloroso esse sentimento de não se estar na sua terra e nem se saber se se pode voltar…
Por isso, ocorreu-me também uma personagem do romance “De amor e de Sombra”, da chilena Isabel Allende, numa pungente cena de despedida entre um filho que está de partida para o exílio e um pai, ele próprio exilado político:
“- Luta contra a nostalgia. A nostalgia é o vício do ex-patriota [expatriado]. Cria raízes. Faz do mundo a tua casa.”
Não sendo o exílio político o caso da maioria dos africanos em Portugal (embora possa haver um minoria nessa situação), devo dizer que me parece que pior do que vício, é quando a nostalgia se torna amarga: o nostálgico torna-se um indivíduo acriticamente crítico, amargurado com o mundo que o rodeia. Quando não, a nostalgia pode fazer perder o sentido às ideias antes perfilhadas e defendidas.
E é com amargura que constato que criar raízes não é, à partida, um antídoto contra a nostalgia. Antes pelo contrário, pode reforçar o sentimento de que se está na margem, de não pertença a espaço nenhum, uma situação que a geração seguinte já tende a ultrapassar ao assumir o lugar de exílio dos pais como o “outro lugar pátrio”, que se concilia com “o lugar mátrio”, algures no outro lado do Oceano.
E a nostalgia, não raro, pode não ser apenas do país, pode transformar-se em regressiva, numa postura do “regresso ao passado”. E no contexto dos Cinco (países africanos de língua oficial portuguesa) que me servem de contraponto à nostalgia ficcionalizada por Isabel Allende, o regresso ao passado é um insulto à História épica desses povos, que nada têm a ver com o demérito (e o desmerecimento) de muitos políticos que os governam.
Por isso digo que emigrar pode ser certamente uma saída para a crise – mas é sobretudo uma opção de sobrevivência para muitos países e é muitas vezes uma opção de identidade. Creio que os países ou governantes que neste século XXI ainda não perceberam isso não terão grandes hipóteses de se alavancarem a entidades do Universo.
O artigo foi publicado originalmente no Semanário Angolense, edição da semana passada.

Inocência Mata