Hoje gostaria que o pensando em música trouxesse algumas reflexões sobre o mercado nacional de música produzida pelos afrodescendentes. Como vimos no último artigo, o Brasil é um país que tem como predominância em sua música, a rica influência dos rítmos africanos e, isto por si só, seria uma glorificação para o acervo cultural de uma nação. Mas na realidade, existe a discriminação de um seguimento da sociedade que faz questão de ligar os rítmos africanos com a religiosidade.

Embora pela Constituição o Brasil seja um Estado laico, os afrodescendentes, não só em sua religiosidade, mas também em sua arte, não tem a aceitação que merecem.

Gostaria de lembrar que não somos só samba e capoeira. Diga-se de passagem estas duas manifestações artísticas, só ganharam expressão nacional, quando tais agremiações começaram a ser insufladas pelos brancos que vislumbraram aí uma forma de amealhar milhões, mais uma vez as custas de mão de obra barata, pois os afrodescendentes só queriam expressar a sua alegria, sem pensar em ganhos materiais.

Houve época em que o sambista era preso por expressar a sua arte. Até quando só poderemos expressar a nossa arte a partir da aceitação da sociedade branca e com isso nos alienarmos de nossa real e fantástica herança?

Infelizmente alguns afrodescendentes embarcam neste mito, acreditando que a música, embora seja universal, tem de ter exatamente a identidade que costumam impor a ela, ou seja: só se faz música afrodescendente com atabaques e tambores. Acho que isto é prender demais a criação artística, e arte não se aprisiona.

Na realidade o que sinto hoje na sociedade é que tudo que tem inspiração africana e não européia ou judaico-cristã é demoníaca, e o pior é que este pensamento permeia a mente de muitos de nós.

Sofremos um genocídio físico e cultural, em que somos taxados de adoradores e,  mais uma vez, abatidos como sempre foi o costume.

Rio – 27/01/2013 

Jorge Ramos