Olá, leitores de Afropress!

No pensando em música de hoje, com a permissão de vocês, gostaria de falar, não só sobre música, mas também sobre postura profissional e como nos colocamos diante ao público que se põe à disposição para apreciar nosso trabalho. Tenho o hábito de me apresentar em várias partes do mundo, na realidade, meu trabalho  de pianista, regente e de compositor, é mais conhecido no exterior, do que no Brasil, pelo longo tempo que lá estive e também por um péssimo hábito, ao meu ver, imposto ao brasileiro de só apreciar aquilo que a mídia lhe impõe.

Com o trabalho que tenho desenvolvido de divulgação da música instrumental, muitos agentes da imprensa, tem o desvelo de me anunciar como “O maestro negro Jorge Ramos” ou então usam outros adjetivos sempre com a pueril preocupação de evidenciar a minha afrodescêndencia. Na realidade, fico consternado pelo fato de minha escolha profissional causar espanto ou surpresa, por minha ascendência ser africana. A africanidade em minha música está lá, é latente extremamente audível e muitas vezes, chega a ser visível, mas, como todo profissional, acho que não é necessário pontilhar tal observação. Nunca li ou ouvi em nenhum meio de comunicação falar sobre o maestro fulano de tal ser caucasiano ou qualquer coisa do gênero.

Acredito que, na realidade, quando procuram sublinhar tal situação estejam enviando mensagens subliminares que querem dizer: “Agora, vocês verão um peixe fora d’água, uma aparição“. Repudio tal gesto, pois, mais uma vez coloca-se os afrodescendentes em guetos, onde só podemos consumir as migalhas que o sistema nos reserva, sem nenhuma possibilidade de ascender, de sonhar e obter objetivos diferenciados do que nos designam.

Alguns conseguem encontrar nesta prática uma deferência, mas eu só consigo enxergar um paradigma imposto a uma a uma estratosfera social, que é onde procuram nos colocar, pois é uma forma de nos dizer que mesmo que consigamos ir em frente em nossos objetivos, nunca conseguiremos ser absorvidos em uma sociedade como cidadãos comuns, sociedade esta que tem por base em sua constituição que,”Todos os cidadãos são iguais, independente de credo, etnia e condição social”. 

Rio, 20/04/2013

Navio Negreiro – novo cd de Jorge Ramos, informações:

Maestro Jorge Ramos

[email protected]

http://maestrojorgeramos.wix.com/mjr

Jorge Ramos