Bem, feita esta consideração, usarei sempre nesta coluna o termo MNCB em lugar de MPB e estamos conversados. Inicio nesta minha primeira coluna e continuarei nas próximas, uma cartografia ético-estética da produção da MNCB.
DJAVAN & O BLUES ZENISTA DO BRASIL DE HOJE
É óbvio que existe uma profunda ligação entre o Blues e Samba, ambos são expressões do banzo africano em fusão com matrizes da música européia, do mesmo modo que o cordel nordestino é uma variação de fusões da poesia provençal européia com os modos de escrita oral dos habitantes do nordeste do Brasil.
Djavan em seu ultimo trabalho Ária interpreta (na verdade mapeia) o cancioneiro brasileiro em busca dessa tênue fronteira entre o banzo dos escravos e a melancolia do europeu, fronteira que já se chamou cool jazz quando explorada por brancos de alma negra como Chet Baker por exemplo.
Em Ária Djavan trafega, desta vez como intérprete pelas bordas dessa fronteira. O tratamento que Djavan dá a canções do repertório de Cartola e Caetano acentuando um tom de lamento com uma postura zenista (Da cultura do zen oriental) é impressionante porque foge do caráter impressionista que impera em outros intérpretes que se apropriam de moldes rítmico-harmônicos do blues tendo o samba como base.
Djavan é um dos músicos negros mais originais do mundo Miles Davis segundo consta era um de seus fãs e se não tivesse partido tão cedo, certamente gravaria um dos sofisticados e complexos temas de seus discos iniciais, e em Ária ele retoma de certo modo seu primeiro disco de 1976, mas desta vez sobre outra chave rítmico-estilística, muitos críticos já apontaram o cromatismo das composições do cantor e compositor alagoano, filho de mãe afro-brasileira e pai neerlando brasileiro, como uma característica apenas estética, sem citar ou perceber o aspecto ético simbólico desta alusão freqüente e PR que não dizer rimbaudiana da cor como evocação do mundo.
Retornando ao seu décimo nono e mais recente disco, Ária o que temos é uma radical proposta de revelar nuances de um delicadíssimo banzo zen blues por trás de uma seleção de canções de um cânone que privilegia não mais uma evocação estética a partir de um certo cromatismo vocal, mas uma visão da situação interna do Brasil de hoje. O disco começa com Disfarça e chora de cartola e termina com Palco de Gilberto Gil.
Serviço: Djavan, Ária, Gravadora Biscoito Fino/Luanda records.
O título original do artigo é “Pequena meditação sobre a Música Negra Contemporânea do Brasil”.

Marcelo Ariel