S. Paulo – Na semana em que o Brasil lembrou os 125 anos da Lei Áurea, os reflexos da Abolição, que simplesmente substituiu o regime de trabalho escravo pelo trabalho assalariado sem incluir negros escravizados por quase 400 anos, continua a ser o tema de ativistas e lideranças negras e antirracistas.

O ator e artista multimídia, Jairo Pereira (foto na capa), editor do Diário Preto, um boletim eletrônico em que ele comenta periódicamente temas relacionados ao racismo e à discriminação, afirmou, em forma de poema a que deu o título “Abolição”. “Diante de algo tão composto/Sejamos francos…/A mão que a desenhou/não fez por gosto/Hoje essa palavra não tem rosto/Falta tinta, foi migalha/E depois de 125 anos/continuamos no fio da navalha."

Para o jornalista Thiago Macedo, de Cubatão, não “passou de uma jogada econômica porque sofríamos a pressão da Inglaterra”.

“Tínhamos que fazer isso. E foi mais fácil substituir a mão de obra negra pelos imigrantes europeus devido ao cenário mundial daquela época. Não houve qualquer tipo de compensação pelos séculos de exploração. Numa tardia canetada declararam o nosso povo livre. Chamo de "nosso" porque sou descendente de negros. E como um povo vai ser livre numa sociedade cujos alicerces são o capital? Ficamos a mercê da sorte. Enfim, apesar de considerar importante institucionalizar o fim da abolição, acredito que ela foi mal feita, interesseira e nem um pouco humana. Poderíamos ter sido um pouco melhor nesse nosso trecho da história. Melhor ainda, poderíamos nunca termos escravizado ninguém porque não há diferenças entre eu, ele e você”, conclui.

Veja, na íntegra, o poema de Jairo Pereira

Abolição

Das lutas e batalhas,
Abolição é a sentença de liberdade,
são as portas abertas
Grades destrancadas de verdade
É a chave principal da mansão dos covardes.
O filho que nasce,
A alma de entrega,
O som que reverbera
no destrancar de uma cela.
O que foi assinado
Mera utopia pós escravidão.
Pois da declaração que ocorreu
Pouco se tinha de abolição.
Opressão é lado oposto
Discriminação, lado oposto
Ressignificaram os grilhões
E o termo foi imposto:
"ABOLIÇÃO"
Diante de algo tão composto
Sejamos francos…
A mão que a desenhou
não fez por gosto.
Hoje essa palavra não tem rosto
Falta tinta, foi migalha
E depois de 125 anos
continuamos no fio da navalha."

Jairo Pereira

 

Da Redação