S. Paulo “Da Senzala à Universidade: Reflexões sobre a trajetória e identidade de adultos negros com formação superior”, Trabalho de Conclusão do Curso de Psicologia da Universidade Paulista (UNIP) apresentado pelas alunas Daniele Elisa, Thizza Leonardo, Celi Regina Ferreira e Dolores Medeiros, obteve nota máxima – 10 -, da banca examinadora na noite desta sexta-feira (14/11), no campus Pinheiro da Universidade.

A banca formada pelos professores Denio Waldo Cunha (orientador do TCC e presidente da bancada examinadora), João Eduardo Coin de Carvalho, do Conselho de Psicologia, e Eliana de Oliveira, doutora em Antropologia Social e pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro da USP (NEINB) destacou a importância do trabalho e sugeriu sua publicação. Segundo os professores trata-se de um trabalho original e que contribuirá para o aprofundamento da reflexão sobre o tema na Universidade.

A pesquisa “Da Senzala à Universidade…”, foi elaborada em 2 anos de trabalho pelas alunas e entrevistou personagens negros em idade de 40 a 60 anos, que enfrentaram as dificuldades geradas pelo racismo para chegar ao ensino superior, em um período histórico em que ainda não haviam, no Brasil, nem cotas, nem políticas de ação afirmativa.

Relatos

Entre os entrevistados L. [os nomes não podem ser divulgados em respeito ao sigilo ético da pesquisa], contou que na rua em que cresceu a maioria das crianças eram negras, e por essa razão não tinha tolerância com atitudes racistas. Quando tinha 9 anos, uma vizinha chegou a ameaça-lo de chamar a polícia porque ele batia frequentemente no filho que o chamava de macaco e que aprendeu a reagir a discriminação com violência.

“Qualquer graça que aparecesse era logo inibida na marra… porrada… então quando o cara falava “macaco”, já era, “fala de novo”, e bum, entendeu? Era porrada!”, afirmou.

Segundo L., “ser negro no Brasil é uma posição política e desde pequeno tinha essa consciência". “Prá gente aqui, ser negro é posição política. Assumir ser negro, eu conheço pessoas da sua cor que não assumem que são negras, não admitem, o tempo inteiro. Na minha família tá cheio de negão que não admite que é negro e me pedem o tempo inteiro para parar com esse negócio. Por que ser negro no Brasil é  uma barra muito pesada, e as pessoas não querem se identificar com isso. Desde pequeninho é difícil”, acrescentou.

Por sua vez, Z., sexo feminino, com graduação em Pedagogia, relatou que na infância sua tia, com quem morava, dizia que as escolas em S. Paulo eram somente para ricos, e não havia possibilidade de estudar. “Minha mãe uma vez mandou carta perguntando se eu tava estudando e ela respondeu que escola aqui era só prá rico”.

Adulta, ela disse que foi muito difícil o período para concluir o ensino superior. Estava divorciada, precisava assumir as despesas de casa, era ajudada por uma irmã com alimentos. Perdeu o controle das finanças, porque além da sua faculdade tinha de pagar a da filha: “aí entrava no cheque especial e ficava aquela bola de neve, eu me sentia muito assim… angustiada porque eu nunca…. sempre andei com a minha vida direitinho, e não foi fácil, até quando surgiu, eu tava no último já, aquela escola da família. Eu fiz, só que só durante um ano”, relatou.

Ela também contou como foi enfrentar a discriminação de frente ao procurar emprego para se manter e custear os estudos. Ao encontrar um anúncio de uma vaga na edição de domingo de um jornal, compareceu a empresa na segunda-feira, antes mesmo do início do expediente, e apesar de ser a primeira a chegar recebeu a informação de que a vaga já estava fechada. Z. destacou que sabia que a vaga estava aberta e não havia outro motivo que justificasse a dispensa para o processo seletivo, senão ao preconceito racial.

Bibliografia e conclusões

A pesquisa que utilizou vasta bibliografia, entre os quais, “Superando o Racismo na Escola”, (Kabenguele Munanga), “Casa Grande e Senzala” (Gilberto Freire) “A Integração do Negro na Sociedade de Classes” (Florestan Fernandes), destaca as barreiras criadas pelo racismo no Brasil e conclui. “Quando refletimos sobre os recursos internos que tiveram que ser acessados para que os entrevistados conseguissem superar os entraves a que foram expostos, compreendemos a importância da Psicologia como instrumento de ação e reflexão e sua contribuição para a desconstrução da ideologia racista e no fortalecimento das potencialidades e ressignificação do negro na sociedade”.

Da Redação