– Como novo Presidente do conselho Editorial e Coordenador Editorial e da Revista Raça, quais as mudanças que pretende fazer na linha editorial da publicação?
Maurício Pestana – Pretendemos fazer uma revista mais politizada, que esteja mais próximo dos problemas da comunidade negra, seja no aspecto político, econômico ou social, e também na cultura negra, na beleza, no trato com a auto-estima e outros aspectos.
Afropress – A Revista fez história no Brasil e ainda continua a fazer. O que a população negra pode esperar da Revista Raça sob a sua direção?
Pestana – Meu trabalho sempre demonstrou uma certa indignação com relação ao racismo deste país, tentaremos fazer o mesmo na revista.
Afropress – Você já manifestou simpatia pela mobilização em defesa do Estatuto da Igualdade Racial. Como pretende que a Revista Raça apóie essa iniciativa?
Pestana – Não só o Estatuto, mas outras Leis tão importantes quanto, que tramitam pelas Câmaras em defesa das nossas causas terão espaço na revista.
Afropress – Você acha que houve algum avanço em relação à forma como a mídia trata as nossas questões?
Pestana – Acredito que a grande mídia, digo os grandes jornais, revistas e TVs, já tiveram um papel de total desprezo pela questão racial, poucos falavam, poucos comentavam ou cobriam nossas manifestações. Com o avanço da nossa luta, principalmente no que diz respeito à legislação, garantia de direitos, esse papel passou a ser diferenciado e hoje vemos o papel de alguns órgãos de imprensa nitidamente contrários a esses avanços como no caso do Estatuto da Igualdade Racial e as cotas nas Universidades. Acredito que nossa grande batalha hoje será no campo da informação.
Afropress – Como publicitário e jornalista, qual a análise que você faz da mídia negra hoje no país?
Pestana – Acho bastante combativa principalmente o trabalho que os sites e blogs que são mídias mais acessíveis para nossa comunidade têm feito, entre elas destacaria o trabalho de vocês aqui da Afropress.
Afropress – Em relação a Parada Negra, marcada para novembro, como a Revista e você, pessoalmente pretende participar?
Pestana – No passado eu participei da parada, estive na paulista e aquilo foi maravilhoso, mais de 20 mil pessoas e grande destaque na mídia com capa dos principais jornais. Este ano estaremos participando novamente, como disse pretendemos colocar a Revista em todos os momentos da vida política do negro e não poderá ser diferente na Parada Negra.
Afropress – Como vê a proposta lançada por entidades negras – entre as quais o Movimento Brasil Afirmativo – no sentido da criação de uma Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, tanto no município quanto no Estado? E em relação a uma representação da Fundação Palmares em S. Paulo?
Pestana – Acredito que qualquer iniciativa que busque uma maior interlocução seja com o Estado ou com as organizações da sociedade civis na busca de solucionar o gravíssimo problema da nossa exclusão e do racismo brasileiro é bem vista.
Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes.
Pestana – Acredito que no passado podíamos nos dar ao luxo de nos separarmos por questões partidárias e até ideológicas, porem hoje, para garantir o mínimo de conquistas que alcançamos e seguir avançando temos que nos conscientizar que os inimigos estão bem atentos aos nossos passos e prontos para interceptar qualquer ação que vise o avanço de nossa luta, qualquer deslize será fatal. Vide o massacre sofrido pela ministra Matilde recentemente, os ataques que os assentamentos quilombolas e a Fundação Cultural Palmares vêm sofrendo, o caso Gêmeos na UnB e agora esta tal pesquisa tentando demonstrar que uma das elites mais retrógradas do mundo que é a nossa é “boazinha” e que ruim são os pobres (ou seja nós, uma vez que somos a maioria deles). Tudo isso são sinais que estamos vivendo um momento muito delicado. Em breve os primeiros alunos cotistas estarão no mercado de trabalho disputando vagas com os filhos dessa elite e aí se não estivermos unidos nos nossos princípios independente da questão partidária e ideológica uma vez que o racismo assim como o machismo está presente na direita, na esquerda no centro e todo lugar neste país. Nossa luta pela igualdade racial sofrerá um massacre e, infelizmente, também seremos responsáveis, principalmente aqueles que não conseguem sentar na mesma mesa nem para fechar meia dúzia de propostas em comum!