Afropress – Como está preparando o lançamento da Cartilha sobre a “Revolta dos Búzios”, lançado em parceria com o Olodum na Bahia? Quando será o lançamento?
Maurício Pestana – O lançamento já tem data marcada. Será no dia 21 de março na Casa das Rosas. O livro já foi lançado, em Salvador, no final do ano passado, e agora lançaremos oficialmente aqui. Há muito tempo não lanço trabalhos em S. Paulo. O último foi o livro “São Paulo Terra de Toda Gente”, durante as comemorações dos 450 anos da cidade. Tenho estado muito fora daqui. Ano passado iniciei o ano lançando o “O negro no Rio Grande do Sul”, em Porto Alegre”, e encerrei em Salvador com a “Revolta dos Búzios”. Foi um ano de muitas viagens e exposições, em Brasília, em mais 15 cidades do interior paulista. Neste lançamento quero rever amigos e lembrar que ainda sou de São Paulo. Tenho me surpreendido com o número de pessoas que acham que resido no Rio.
Afropress – Entre os teus trabalhos de mais de 25 anos de cartuns, este é o trabalho mais importante?
Pestana – É difícil dizer. Cada livro ou Cartilha teve sua importância em sua época. Como são mais de 40 cartilhas e 12 livros publicados ao longo desse 25 anos de carreira é difícil dizer qual o mais importante , mas não tenho duvida em apontar a “Revolta dos Búzios” como um dos 5 trabalhos mais importantes que realizei, principalmente em termos de conteúdo pois reúne mobilização, audácia, estratégia de luta, educação, poder político, auto estima e juventude negra todos ingredientes em uma história negra verídica no Brasil, é realmente de arrebentar. Fui mais um que contaminou-se por essa história contagiante.
Afropress – O que representa Revolta dos Búzios para a luta do Povo Negro ainda hoje no Brasil?
Pestana – Tudo! As reivindicações de equiparação de salários entre brancos e Negros libertos, a auto estima dos quatros jovens lideres da revolta, a participação da mulher negra, a articulação política daqueles jovens e a mobilização e a solidariedade fazem uma das paginas mais bonitas da história do Brasil que precisa ser estuda compreendida e servir como exemplo para nossa luta nos dias de hoje. Embora isso tenha acontecido há mais de 200 anos os ideais continuam vivos e atuais!
Afropress – Como surgiu a idéia de fazer Revolta dos búzios em quadrinhos?
Afropress – Estava em Salvador Participando do CIAD – Encontro de intelectuais, artistas e chefes de estados da África e da diáspora quando encontrei João Jorge, presidente do Olodum. Ele me fez a proposta de fazer a publicação. A proposta foi dele mas, devo dizer que duas mulheres foram fundamentais para a realização do trabalho: Cristina Calácio e Mara Felipe, diretoras da Escola Olodum que pressionaram bastante para que eu topasse e terminasse o trabalho. Tarefa bastante difícil, pois ao tomar conta da história fui me apaixonando (é impossível não fazê-lo e paixões quando são boas você tem dificuldades para terminar). Quis resgatar minuciosamente está história que julgo depois de Palmares a mais importante do povo Negro no Brasil. Foi um trabalho difícil pois tive que reconstituir a Salvador do final do século 18 e tínhamos um prazo lançar ainda no ano de 2006. Foram cerca de três meses de pesquisa, arte e editoração exaustivos, mas ficou maravilhoso o trabalho.
Qual a distinção que você entre a Revolta dos Búzios, Palmares e a Revoltados Malês, também na Bahia?
Pestana – Também foram importantes, mas Búzios nós dá exemplos de articulação política sem a presença religiosa que havia nos Malês. E mais: a participação das mulheres negras em Búzios é diferente da dos Malês. O comportamento de uma burguesia branca pseudamente solidária também serve de exemplo para os dias atuais. Aliás nada diferente daqueles que assinaram o documento contra as cotas. Enfim a Revolta dos Búzios é o tempo todo um espelho para seguimos em nossa luta nos dias de hoje.
Afropress – Como será o seu trabalho como articulista político?
Pestana – Recentemente fui contratado para ser cartunista e articulista da Revista Flash, uma revista com grande tiragem e de circulação nacional, dedicada ao mundo das celebridades e dos formadores de opinião. Terei uma página semanal. É um grande desafio, uma vez que a revista tem um público diferente do qual estou acostumado a lidar. Caberá a mim a tarefa de fazer semanalmente comentários sobre política e economia nacional e internacional com uma visão crítica e bem humorada. É desafiador. O clube dos articulistas da política com circulação nacional é restrito e formado básicamente por brancos.Talvez uns 20. Fazendo o trabalho que farei na imprensa brasileira só existe o Millor Fernandes.
Afropress – Esse é o primeiro trabalho na grande imprensa?
Pestana – Não. Muita gente não sabe mais trabalhei 17 anos como cartunista político em vários órgãos da grande imprensa como Diário Popular, Diário do Grande ABC, Gazeta Esportiva, entre outros.
Afropress – Como você pretende manter a liberdade do trabalho que vem realizando de forma independente numa revista semana de grande circulação?
Pestana – Um dos acordos que fiz para firmar o contrato foi o de que isso não impediria meus outros compromissos e hoje com a agilidade da internet e da informação posso fechar minha página de qualquer lugar deste planeta. Para você ter um idéia, o primeiro número fechei de Salvador onde estava durante o carnaval.
Afropress – Como você está acompanhando as discussões do Movimento Negro para a construção de uma agenda unificadora da luta anti-racista no Brasil?
Pestana “Demorou..”, como dizem os jovens de hoje! Vejo com grande entusiasmo, eu mesmo em uma entrevista anterior aqui na Afropress falava da necessidade de criarmos um ponto em comum algo que nos unisse uma vez que valorizamos tanto o que nos separa, sejam as questões político partidárias ou ideológicas, na maioria das vezes criadas por um sistema racista e excludente exatamente para nos dividir.
Afropress – Você participou do Seminário “Os desafios para um Brasil Afirmativo”. Como vê a tentativa de se criar uma articulação de lideranças com autonomia em relação ao Estado e independência em relação aos Partidos e aos Governos?
Pestana – Este foi outro ponto que toquei naquela entrevista a necessidade de criarmos um movimento independente que pudesse dialogar, aberta e francamente, com o Estado, independente de governos ou de políticas partidárias. Foi ótimo participar daquele seminário e sentir que essas idéias estão aí e começam a serem colocadas em prática.
Afropress – Depois de 20 anos de trabalho comprometido com a luta contra o racismo, o que há de novo hoje no Brasil em termos de avanço da luta pela igualdade racial.
Pestana – Acho que hoje, quando começamos a pensar em criar um movimento amplo aglutinador acima de diferenças político-partidárias, como o Movimento Brasil Afirmativo, isso é novo e revolucionário.
Afropress Que balanço você faz dos 25 anos de trabalho?
Pestana – Ao completar 25 anos, desde a publicação do primeiro desenho, seja nas redações por onde trabalhei ou com as organizações governamentais e não governamentais nas quais colaborei com meu traço, sempre persegui o ideal de me comunicar de forma direta e precisa os nossos desejos, nossas ansiedade, nossa história e nossa luta. Acho que a comunicação é fundamental em qualquer movimento da vida, seja ele social ou individual. Percebo isso ao ver as pessoas tomarem contato pela primeira vez com a “Revolta dos Búzios”, através da cartilha, a mudança de atitude. Percebo também ao encontrar pessoas comentando e conscientizando-se, muitas vezes através de noticias publicadas aqui mesmo na afropress, ou no meu site que tem hoje uma visitação de mais de 250 pessoas por dia. Acredito que se pensássemos de forma mais intensa em caminhos de educação, conscientização e através da comunicação direta criaríamos rapidamente o movimento de massa com um poder político maior de negociação e de avanço.

Maurício Pestana