“NO MARACANÃ eu mando, já no samba eu acompanho e aprendo”, disse Petkovic anteontem na quadra da Portela, escola pela qual vai desfilar pela terceira vez no próximo Carnaval. A frase dá pano para alguns comentários. Primeiro: ao longo da história, poucos jogadores (Didi, Garrincha, Zico, Romário…) puderam dizer de boca cheia, sem soar presunçosos, que “mandavam no Maracanã”. Petkovic é um deles.
Craque completo, com uma visão de jogo fantástica, que arma e finaliza com a mesma eficiência letal, que coloca a bola onde quer com a direita ou com a esquerda, Petkovic foi, a meu ver, o grande nome do Brasileirão deste ano.
Mas chamo a atenção para a outra parte da frase, aquela em que Pet se apresenta como um aprendiz do samba. A associação entre futebol brasileiro e samba é quase tão antiga quanto a bola. “O brasileiro joga futebol como quem samba”, reza um dos clichês mais espalhados pelo mundo. Gente de primeira linha, como Gilberto Freyre e Mário Filho, viu no binômio samba/futebol a expressão de qualidades que seriam inerentes aos negros e mulatos: o jogo de cintura, a espontaneidade, a malandragem, a malícia, a capacidade de improvisação.
Hoje se sabe que essa discussão sobre características raciais é um campo minado. A própria noção de “raça” é contestada, e a tendência é considerar mais importantes as interações culturais do que as supostas propensões “naturais” de indivíduos ou grupos.
Domingos da Guia deu certa vez um depoimento precioso: “Ainda garoto eu tinha medo de jogar futebol porque vi muitas vezes jogador negro, lá em Bangu, apanhar em campo, só porque fazia uma falta, nem isso às vezes. Meu irmão mais velho me dizia: “Malandro é o gato, que sempre cai de pé; tu não é bom de baile?” Eu era bom de baile mesmo, e isso me ajudou em campo. Gingava muito. Sabe que eu me lembrava dele… o tal drible curto eu inventei imitando o miudinho, aquele tipo de samba”.
Isso é lindo: a ginga não como pretenso traço intrínseco do homem negro, mas como reação a uma situação cultural e social adversa. O jeito sutil e criativo de os negros e mestiços pobres enfrentarem a discriminação. O futebol brasileiro floresceu aí.
Mas futebolistas de todos os outros quadrantes do mundo puderam aprender e praticar, com maior ou menor êxito, esse estilo de jogo. Ou alguém vai dizer que George Best, Roberto Baggio, Platini, Maradona e Zidane não tinham jogo de cintura?
Do mesmo modo, a ideia de que só o brasileiro, de preferência afrodescendente, tem “samba no pé” é tacanha, reacionária e empobrecedora. Assim como grandes artistas e intelectuais estrangeiros, de Carmen Miranda a Pierre Verger, de Carybé a Hector Babenco, se “abrasileiraram” por amor ao país, Petkovic é aprendiz de sambista.
Já que “ninguém aprende samba no colégio”, como dizia Noel Rosa, o sérvio foi ao lugar certo: a escola de samba. Está aprendendo a ser brasileiro, moreno como nós outros. Em vez de rir dele, de seus eventuais passos errados e da possível falta de jeito, vamos rir junto dele, pelo prazer da troca, da festa, da comunhão.

José Geraldo Couto