Brasília – A Polícia Federal já sabe quem foram os autores do atentado racista contra os estudantes africanos da Universidade de Brasília. O delegado Francisco Serra Azul concluiu o inquérito indiciando os estudantes Roosevelt Reis, vulgo Russo, José Francisco Rodrigues de Araújo, mais conhecido como nazista, e Wagner Guimarães Guedes (foto), considerado o mentor intelectual do atentado.
A autoria do crime vinha sendo mantida em sigilo até esta quarta-feira, (12/09) quando Afropress teve acesso com exclusividade às conclusões do inquérito policial 307/2007, encaminhadas à Justiça Federal.
Os três foram indiciados em vários artigos do Código Penal, e no artigo 20 da Lei 7.716/89, alterada pela lei 9459/97, que trata de crimes de discriminação racial. O delegado chegou a pedir a prisão preventiva dos acusados, alegando que “a aparente normalidade e descaso com que são tratados os incidentes, estimulam a sua pepretração de forma reiterada e crescente, havendo necessidade de segregação cautelar dos principais autores para garantia da ordem pública”. A Justiça, entretanto, negou o pedido.
Atentado
O crime ocorreu no dia 28 de março passado, quando as portas dos apartamentos onde moravam os estudantes africanos foram incendiadas por volta das 4 horas da madrugada.
A demora na apuração vinha levantando suspeitas da existência de uma “Operação Abafa”, envolvendo a própria PF e setores da mídia, desde o início interessados em retirar do caso conotações raciais.
O delegado concluiu o inquérito no dia 31 de agosto, quando encaminhou as conclusões de autoria do atentado à 10ª Vara Federal de Brasília. As conclusões são eloquentes. Serra Azul, logo após concluir o trabalho, licenciou-se. A Assessoria de Imprensa da PF não soube dizer se o delegado está de licença médica ou de férias. Agora, o juiz da 10ª Vara decidirá se aceita a denúncia. Se isso acontecer os acusados passam à condição de réus no processo.
O atentado foi considerado “grave”, inclusive pelo Itamaraty, dada a repercussão nos países de origem dos africanos, como a Nigéria e o Senegal, onde o caso ganhou a primeira página dos principais jornais.
Evidências
Na denúncia o delegado não deixa dúvidas da conotação racista do crime. “Não se tratou de fato isolado na casa do estudante da UnB (CEU), mas sim de um pico de violência e de intolerância político-social e de procedência nacional (Lei 7.716/89) contra os estudantes africanos (estrangeiros) que habitavam as unidades incendiadas”, relata.
Serra Azul também encontrou fartas evidências nos depoimentos e nos exames periciais realizados pela PF contra os três. José Francisco Rodrigues de Araújo é conhecido entre porteiros como nazista, devido à cabeça raspada que faz lembrar um “eskin-head” (sic). Araújo foi reconhecido por Adilson Fernandes Indi, de Guiné Bissau, uma das vítimas do atentado, como “a pessoa que usava máscara para praticar atos de vandalismo (…) esvaziando extintores, além de ser notório seu desentendimento com estudantes estrangeiros onde foi ateado incêndio, utilizar substâncias inflamáveis”.
Mentor
Wagner Guimarães, segundo o delegado da PF, é líder estudantil “e se aproveita do crime para divulgação própria, além de ser traficante de drogas, de acordo com provas recolhidas no laudo pericial”. “Ademais Wagner Guimarães trabalha com a dissimulação, alto poder de liderança e intimidação dos colegas, através de Roosevelt Reis (Russo), com alto grau de agressividade, que inclusive distraiu os porteiros para a preparação do incêndio e juntamente com José Francisco discriminam os estrangeiros por entender que os mesmos não podem participar da AMCEU (Associação dos Moradores da Casa do Estudante) e que não podem fazer festas, pois suas festas são barulhentes”. Wagner teria pretendido justificar o ato como sendo político e não racial “esquecendo-se que isso normalmente é feito contra as minorias”.
O delegado também aponta que o decano da UnB afastado Reynaldo Felipe Tarelho, responsável pelo alojamento “foi criminosamente omisso e conivente” no relato de fatos graves à reitoria , e teria comportamento que dava a impressão de tratamento especial a Wagner”
O delegado também acusa a Reitoria da UnB de inércia e alerta que outros suspeitos poderão ser identificados a qualquer momento assim que forem concluidos novos laudos de DNA.

Da Redacao