S. Paulo – Passados exatos 30 dias, a Polícia de S. Paulo ainda procura o homem que na noite do dia 22 de maio passado executou a tiros a angolana Zulmira de Souza Borges Cardoso, 26 anos, estudante de Engenharia da Uninove, em um bar da Rua Cavalheiro, no Brás, centro de S. Paulo.
O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), da Secretaria de Segurança de S. Paulo, encarregado da investigação, chegou a fazer o reconhecimento fotográfico de suspeitos na semana passada, porém, a identificação não foi confirmada presencialmente por testemunhas do crime.
Enquanto não acontece a prisão, os angolanos que vivem em S. Paulo – onde, segundo estimativas, reside 60% da comunidade daquele país – ainda convive com o medo de ataques e sob a sensação de insegurança.
“Nossa expectativa é que se faça Justiça. Queremos que a Polícia detenha os assassinos. Nós como estudantes estamos apegados aquilo que a Lei diz e a Constituição brasileira também nos protege. Num primeira fase todos nós angolanos nos sentimos lesados. Foi uma perda irreparável para os pais de Zulmira e para os amigos”, afirmou Solange Malorita Manoel Tomás, 23 anos, estudante do 2º ano do Curso de Direito na Universidade Paulista (UNIP) e integrante da União dos Estudantes Angolanos.
Nascimento
No episódio, que foi antecedido de uma discussão em que o assassino xingou os angolanos de “macacos miseráveis”, além de Zulmira, três outros jovens foram atingidos pelo atirador, entre os quais o namorado de Zulmira, Gaspar Armando Mateus, estudante de 27 anos, no Brasil há três. Os outros dois foram Renovaldo Manoel Capenda, de 32, e Celina Bento Mendonça, 34.
Gaspar recebeu um tiro no abdômen e chegou a ser hospitalizado, mas recebeu alta no mesmo dia, o mesmo ocorrendo com Capenda. O caso de Celina, porém, foi mais delicado.
Grávida de oito meses, ela ficou sob o risco de perder o bebê, porque o tiro atingiu a barriga. As dúvidas sobre o estado de saúde da criança, porém, acabaram no último sábado (16/06), com o nascimento, no Hospital Santa Catarina, de Patrícia Vitória, uma menina com três quilos e 25 gramas e com saúde perfeita.
“O nome dela já havia sido escolhido: era Patrícia. Mas, decidi acrescentar Vitória depois do que aconteceu”, contou a mãe à Afropress. Celina permanece internada se recuperando da cezárea a que se submeteu.
Prisão
O advogado Hédio Silva Jr., constituído pelas famílias das vítimas, que acompanha o caso também em nome do Consulado Geral de Angola, em S. Paulo, disse estar confiante na prisão do acusado e do homem que lhe deu fuga. Segundo Hédio, agentes do DHPP já recolheram garrafas e objetos do bar para perícia. As câmeras de segurança existentes na rua também estão sendo periciadas. “Eu acredito que a Polícia está muito próxima da prisão do autor”, afirmou Hédio.
Ele não tem dúvidas de que o crime teve motivação racial. “Entre o conjunto de motivações está cristalino que houve motivação racial”, acrescenta.
O Consulado Geral de Angola também está preocupado com a conclusão do caso. Segundo Manoel Damião, chefe de gabinete do Consul, Albertino Manoel de Jesus, as autoridades angolanas aguardam a captura do assassino para que seja feita Justiça.
Revolta
Por sua vez, Gaspar, o namorado de Zulmira, também estudante, há três anos no Brasil, disse que ainda não se conforma com o que aconteceu. “Eu estou me sentindo muito mal ainda com toda essa situação. Eu sai de casa de manhã. Ela ficou estudante e me disse que mais tarde iria para o Brás”, relembra.
Ele descreve o autor dos disparos como um homem branco, de aproximadamente 1,80 de altura, de cara reonda. O que atirou usava uma jaqueta preta e branca, e o outro que ficou no carro, que deu fuga, usava bermuda, segundo relata.
“As vezes fico ainda pensando como é que aconteceu isso. A Zulmira era uma pessoa alegre. Não tinha inimizade com ninguém. Era amiga de todo o mundo”, acrescenta. Segundo Gaspar o tiroteio demorou cerca de 20 minutos, e logo depois de esvaziar o revólver o homem saiu no carro onde o comparsa o esperava.

Da Redacao