S. Carlos – Acusado por membros da própria entidade, em Boletim de Ocorrência registrado no 4º DP da cidade (BO 1020/08) para apuração dos crimes de fraude e estelionato, o presidente da autodenominada Câmara Nacional de Participação e Desenvolvimento dos Afro-Brasileiros (CNPDAB), não foi mais visto em S. Carlos. Nem a mulher com que vive há dois anos – a enfermeira Luci – diz saber do seu paradeiro.
Mesmo assim, na terça-feira (15/04) ele enviou e-mail a Redação da EPTV central – que retransmite a programção da Rede Globo em S. Carlos e região -, com uma “Declaração Pública” em que, de forma confusa, tenta justificar a fraude, alegando não ter tido subvenção pública e ainda anunciando “o início das aulas para início do mês de maio”.
Em S. Carlos, porém, nem os alunos nem as lideranças que o denunciaram o levam mais à sério e admitem terem sido enganadas. “Muitas vezes tirei dinheiro do meu próprio bolso”, afirma a professora aposentada Minervina Packer, que junto com a professora Karina Olívio de Souza, não apenas procuraram a Polícia, mas também constituíram o advogado Paulo Pinho para acompanhar o inquérito e preparar ações, inclusive trabalhistas, contra Cassiano.
É que ele contratou nove pessoas – entre auxiliares e secretárias – com salários que variavam de R$ 501,00 a R$ 3 mil – e a quem tratava como empregadas. Ninguém recebeu os salários prometidos.
Entre os estudantes do Cursinho fantasma, a reação foi de espanto e revolta, conforme conta a jornalista Alice Garcia, de São Carlos, à Afropress. Veja, na íntegra, reportagem de autoria da jornalista, publicada terça-feira (15/04) no Jornal Primeira Página, com o título “Trezentos e cinqüenta jovens e adultos ficam sem curso pré-vestibular”.
PRIMEIRA PÁGINA
Com material escolar novo em mãos e com a intenção de estudar para ter uma chance de ingressar em uma universidade pública, cerca de 150, dos 350 inscritos no suposto curso pré-vestibular da Organização Não-Governamental Câmara Nacional de Participação e Desenvolvimento dos Afro-Brasileiros (CNPDAB), presidida por João Carlos Cassiano, estiveram ontem às 19h, no local divulgado como sede do cursinho, na rua Jesuíno de Arruda, para terem início às aulas; fato que não ocorreu.
No local, que tinha uma placa de aluga-se no portão, os profissionais que trabalhavam em prol da implantação do cursinho e que não tinham conhecimento, até a última sexta-feira, de que o curso poderia ser uma fraude; explicaram aos alunos o ocorrido e, juntos ambos buscam, além de esclarecer o caso perante as autoridades, uma forma de fazer com que os inscritos tenham acesso ao estudo.
ESTUDANTES – Segundo Thiago B., um dos inscritos no curso e nomeado como porta-voz do grupo, foi uma grande decepção para todos o fato de não haver o curso, principalmente por que muitos deixaram de fazer hora extra no serviço para estudarem e fizeram um esforço para pagar os R$ 30,00 de custo para a inscrição e aquisição da camiseta.
“Nós escolhemos o curso por que era gratuito e apresentava uma ótima grade de disciplinas. Por achar que iria ocorrer e que era verdadeiro nós deixamos de procurar outros cursos comunitários para fazer este, agora, como estamos em abril não conseguiremos mais vaga em outros cursos comunitários”, relatou.
“Fiquei sabendo do curso e prontamente me inscrevi, estou me sentindo enganado, nós só queríamos estudar e ter uma chance maior de entrar em uma universidade pública”, disse Clodomiro Antônio da Silva, que se inscreveu no curso.
A fim de apoiar os alunos e esclarecer o ocorrido, a coordenadora pedagógica do projeto junto com outras duas funcionárias explicaram aos inscritos o fato e que para elas, o projeto era verídico; prova disso é que toda o programa pedagógico do curso estava pronto.
Segundo a coordenadora pedagógica do cursinho, Karina Olívio de Souza, ela e as outras duas funcionárias Minervina Packer e Kátia Ap. de Jesus, sabiam que os alunos estariam no local no dia que supostamente iniciariam as aulas, e se dirigiram a ele para apoiar o manifesto dos alunos e para esclarecer a situação para aqueles que não sabiam que o curso não ocorreria.
“Para mim, enquanto educadora, foi um choque ver as pessoas com caderno na mão e preparadas para estudar. Nos estávamos pregando uma igualdade de oportunidades e tudo isso caiu por terra. Nós três estamos dispostas a ajudar os alunos a ter acesso a um curso pré-vestibular, não abandonamos a causa do cursinho que envolve esses 350 alunos, por isso iremos lutar para fazer com que ele acontece”, disse.
MOVIMENTO – Além de envolver os alunos e os profissionais que atuavam no projeto, o presidente do CNPDAB dizia ter apoio de entidades do movimento negro nacional como o SOS Racismo, Brasil Afirmativo, Assembléia Legislativa de São Paulo e Rede Educafro, o que dava respaldo a seus trabalhos.
No dia 4 de abril, realizou um seminário na Câmara Municipal de São Carlos, denominado I Seminário Regional Brasil Afirmativo que reuniu alguns dos principais nomes do movimento negro nacional, regional e local assim como representantes das entidades.
Para Dojival Vieira dos Santos, editor da Afropress e membro da coordenação do Movimento Brasil Afirmativo, quando Cassiano o procurou para apresentar o curso pré-vestibular ele achou uma idéia positiva, mas nunca fez parte do projeto. O que fez foi participar do seminário e apoiar essas atividades em prol do movimento negro.
Para ele, esta suposta fraude do cursinho, lesou muitas pessoas e diversas entidades que acreditavam na veracidade do trabalho que ele realizava; quando tomou conhecimento de que poderia ser uma fraude acionou a justiça.
“Ele provocou danos significativos às pessoas envolvidas e a imagem do movimento negro, que em nome da causa que ele dizia defender, disponibilizaram-se a participar do evento que ele organizou. È importante deixar claro que todas as entidades que participaram do seminário são sérias e lutam pela causa nobre do movimento negro e pelo fim do racismo”.
“As pessoas que trabalharam com ele na criação do cursinho e apresentaram os fatos as autoridades, agiram corretamente, por isso devem ser vistas com credibilidade perante a sociedade”, disse.
A suposta fraude está sendo apurado pela polícia; quanto ao cursinho, os alunos e as organizadoras irão em busca de parcerias para que consigam um local para que os inscritos consigam a oportunidade de estudar.
“Nós estamos chateadas com a situação, não pelo fato do dinheiro, pois nos 90 dias em que trabalhamos para o presidente da CNPDAB não fomos remuneradas, mas pelo o que vimos ontem diante do local que seriam ministradas as aulas; os jovens com vontade de estudar, para poder prestar um vestibular e quem sabe ser aprovado para conseguir ter um curso superior de qualidade e público”, relatou Kátia Ap. de Jesus.
ENTENDA O CASO
Como divulgado na edição de terça-feira do jornal Primeira Página, um grupo de pessoas que se sentiu lesada compareceu ao Plantão Policial na noite da sexta-feira e registrou um boletim de ocorrência para averiguar o possível caso de estelionato aplicado pela ONG CNPDAB, presidida por João Carlos Cassiano, que pode ter vitimado as 350 pessoas, além dos funcionários.
A decisão de comunicar o fato à polícia aconteceu após uma reunião de membro de entidades do movimento negro em São Paulo e dos funcionários do cursinho, Luiz Carlos Germano, Derval João Leonardo, Karina Olívio de Souza, Minervina Packer e Kátia Aparecida de Jesus.
O caráter da fraude ficou evidente depois que as pessoas envolvidas por ele no projeto descobriram que não havia material didático, carteiras, nem espaço físico para as aulas.
O curso teve grande divulgação em órgãos de imprensa como jornal, rádio e TV. O acusado não foi encontrado pela reportagem.

Da Redacao