S. Paulo – Uma semana depois dos ataques do PCC, que botaram S. Paulo em pânico, faltam apenas 2 mortes para que a onda de revanche da Polícia produza mais um Carandiru: desde a última sexta-feira, 109 pessoas suspeitas já foram mortas pela Polícia (mais vítimas do que em Bagdá no mesmo período), 57 dos quais apenas nas últimas quarenta e oito horas. No massacre do Carandiru, em outubro de 1992, a Polícia de choque matou 111 presos.
Entre os “suspeitos” mortos na atual escalada, 40 permanecem sem identificação. A Secretaria de Segurança não divulgou a relação dos mortos identificados, nem como e onde as mortes ocorreram.
Enquanto a Polícia parece ter decretado, por conta própria, a pena de morte contra “suspeitos”, cresce o número de famílias que denunciam a força bruta do Estado fora de controle. A maior parte das vítimas é de jovens afrodescendentes como Ricardo Flausino, 22 anos, executado na segunda, por seis homens encapuzados que saíram de um veículo da Força Tática da PM, enquanto esperava a noiva no Jardim Filhos da Terra.
Cerca de 300 moradores do bairro queimaram um ônibus durante o protesto pela morte do jovem e pela invasão da polícia à comunidade, que aconteceu logo depois da execução de Flauzino. A reportagem diz que uma vizinha contou que os policiais usavam máscaras quando tomaram as ruas do bairro. Há também o caso da chacina de cinco jovens em S. Mateus, testemunhada pelos vizinhos.
O diretor executivo da Conectas Direitos Humanos, Oscar Vilhena disse que há sinais de que a violência da polícia tomou conta das periferias. “Familiares de pessoas vitimadas nas últimas horas têm nos procurado, contando que o filho, que era trabalhador, que estava indo ou voltando do trabalho, foi vítima da ação da polícia”, conta.
“Por mais que saibamos que a polícia está traumatizada – e isso é natural – o que nos preocupa são algumas falas do comando das polícias. Um comandante disse, por exemplo, que” a caçada não termina agora “, que” temos que eliminar “. Se há uma reação natural da população, porque todos tiveram seus direitos violados e querem reagir, isso não pode ser aceito por parte do aparato do Estado, especialmente do Comando”, afirma Vilhena. “Caso embarquem nesse caminho, o Estado não vai se diferenciar dos criminosos. O que define o crime é a violação da lei, de um lado ou do outro. Esse tipo de retórica abre espaço para que os maus policiais comecem a agir por conta própria”, diz.

Da Redacao