No espaço de trinta dias, dois motoboys assassinados – um sob tortura num quartel da Polícia Militar na Zona Norte e outro espancado até a morte na frente da própria mãe, quando chegava em casa -; um aposentado baleado na cabeça, por um segurança de empresa privada, ao se dirigir a uma agência bancária para receber a primeira parcela da aposentadoria que não pôde usufruir. Só em S. Paulo, na Grande S. Paulo. 
 

Todos negros. Não os únicos; os mais chocantes, talvez. Todos sabemos que os três casos são apenas os mais recentes. Todos sabemos que, se somados os episódios de violência e morte, de cada cidade, de cada Estado, se teria uma noção, uma idéia mais próxima das dimensões da guerra civil, que está sendo travada e que tem como teatro das operações, principalmente, as periferias das grandes cidades. 

O risco que corre um jovem negro no país da democracia racial de ser assassinado é 130% maior que o de um jovem branco, segundo o Mapa da Violência e Anatomia dos Homicídios no Brasil, divulgado pelo Instituto Sangari, com base nos dados do Subsistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde. Só no ano de 2007 mais de 17,4 mil jovens foram assassinados no Brasil, o que representou 36,6% do total ocorrido no país.

Será coincidência, que sejam negros os alvos? Claro que não. Os dados do Mapa da Violência são eloqüentes demais. Quando numa guerra, as baixas se dão apenas em um dos lados é porque esse lado é o mais fraco, é o mais vulnerável. Quando é o Estado que mata, por meio de agentes pagos pela população, com requintes de selvageria e crueldade; quando o grau de barbárie chega ao ponto de se matar a pancadas, chutes e pontapés um pobre e franzino garoto em frente à sua casa, na presença de sua mãe, como um cão, ou um inseto, estamos diante de algo que repugna, causa horror e nojo a qualquer ser humano, digno dessa condição e atributo.

Todos os limites foram ultrapassados. É impossível falar-se em guerra neste caso, sem se que se explicite a natureza do conflito: trata-se de uma guerra desigual movida por parte de um Estado – que, ao menos no papel, se apresenta ao distinto público como Republicano e Democrático de Direito -, com armamento pesado e com o suporte dos mais sofisticados e caros equipamentos de inteligência.

Se o diagnóstico está feito, porque razão não esboçamos uma reação a essa matança sem fim, acobertada por “pedidos” de desculpas e pelo marketing com que Governos fingem implementar políticas públicas para enfrentar o abismo da desigualdade sócio-étnico-racial? Por que não temos sequer a capacidade de mobilizar as forças democráticas e progressistas da sociedade, porventura ainda existentes, as mesmas que se uniram nas ruas contra a ditadura, para exigir do Governador de S. Paulo a exoneração imediata de todo o Comando da Polícia Militar, bem como do seu Secretário de Segurança Pública, incompetentes para coibir a onda de violência, que começa a assumir ares de chacina pública?

A resposta é simples: não temos um Movimento Negro protagonista capaz de cobrar de Governos um paradeiro para esses massacres à céu aberto; temos poucas lideranças capazes de enxergar para além dos próprios umbigos; não temos entidades – ou como alguns preferem chamar pomposamente de organizações – com capacidade de esboçar ações unitárias. Os que não estão presos à lógica dos “puxadinhos” (dos Partidos, dos Governos, ou na Academia), preferem o atalho – que não deixa também de ser uma espécie de puxadinho – do discurso prenhe de fórmulas, de raiva e ressentimento, rosário de clichês de uma sub-esquerda negra, incapaz de um mínimo de análise da realidade, tampouco de qualquer ação.

O grande debate que hoje ocupa espaço nas cabeças de uma certa militância é o casamento inter-racial. Um homem negro casado com uma branca? Oh! blasfêmia inominável, dizem os puristas e o seu esquadrão patrulheiro de usos e costumes, o último guardião da pureza racial, que deve-se se manter intacta, a qualquer custo e a qualquer preço. À propósito, antes que os patrulheiros de plantão se pintem para a guerra, antecipo: considero o projeto de quem acha que relações amorosas devem se subordinar a lógica das relações raciais, de índole absolutamente totalitária, uma espécie de racismo primitivo que, na melhor das hipóteses constitui a expressão de espíritos tacanhos e, na pior, resulta em nazismo, puro e simples.

Não temos um Movimento Negro digno de todos os negros e os aliados anti-racistas, ainda – embora a luta de resistência dos negros e pobres por Justiça e Liberdade, Democracia, Direitos, tenha a idade do país. E não temos porque nenhum movimento social digno desse nome pode abdicar da política como instrumento de ação, numa sociedade de classes, capitalista, vale dizer, profundamente dividida por interesses e em que os grupos que detém e monopolizam os meios de produção – e por extensão, o Estado -, mantém privilégios seculares às custas de modelos de exclusão da massa pobre em que negros são a imensa maioria.

Um Movimento Social que abdica de fazer política, na verdade faz a política dos que cotidiana e rotineiramente nos massacram. Na prática, o que faz é uma opção pelo conservadorismo. É reacionário na essência, porque desarma os despossuídos, os desvalidos, do único instrumento de que dispõem para mudar o rumo das coisas. Mas, não serão as nossas lideranças extremamente politizadas? Não temos entre os nossos quadros, os negros do PT, do PMDB, do PSDB, do PC do B, do PTB, do PSOL, até negros do DEM – o partido dos herdeiros da Casa Grande? Sim, é verdade.

Temos políticos negros fazendo e submetidos à agenda de todos os partidos, subordinados às suas direções, que reproduzem – conscientemente ou não – o racismo institucional que permeia todas as relações sociais, econômicas, políticas e de poder. Porém, não temos negros políticos, com capacidade de usar os Partidos existentes para influenciar a sua pauta, para romper com os limites impostos por suas direções (todas adeptas do mito/mentira da democracia racial) e para impor a agenda de um movimento social que, representa, no mínimo os interesses da banda excluída do país.

Este é o quadro que se mantém intacto e que explica porque diariamente continuam sendo mortos – por bala perdida, nas chacinas, no tráfico ou nas mãos da polícia -, Eduardos, Alexandres, Domingos… Quem serão os próximos? Até quando?

Editorial