Campo Grande/MS – O homem responsável pelo espancamento e tortura do vigilante Márcio Antonio de Souza, 33 anos, tomado por suspeito de furto de ovos de Páscoa, no último sábado (23/04), nas dependências das Lojas Americanas da Rua 14 de Julho e Avenida Calógeras, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, já foi identificado: trata-se de Décio Garcia de Souza, funcionário da empresa S & V Segurança.
O nome do agressor vinha sendo omitido pela delegada que preside o inquérito Daniela Kades, da Polícia Civil, que fez declarações ambíguas sobre a autoria do crime. Num primeiro momento, a delegada disse ser cedo para apontar o responsável pela agressão. “Os dois Boletins apresentam incoerências, por isso não podemos apontar de início quem estava errado. Acredito que com a análise das câmeras de segurança e com os depoimentos das testemunhas já teremos um indicativo”, afirmou Kades.
Motivação racista
Para a família do vigilante a agressão teve motivação racista. Segundo o irmão da vítima, Gilson Fernandes, Marcio – que havia comprado os ovos de Páscoa nas lojas Makro, conforme Nota fiscal em poder da família – foi tomado por suspeito de roubo, apenas pelo fato de ser negro.
O nome do agressor, que seria lutador de jiu-jitsu foi divulgado por Edson Godoy, apresentador do Programa Balanço Geral, da TV MS Record de Campo Grande, afiliada da TV Record em Mato Grosso do Sul.
O caso lembra o episódio em que o vigilante Januário Alves de Santana, foi tomado por suspeito do roubo do seu próprio carro – um Ford EcoSport – nas lojas do Hipermercado Carrefour de Osasco/SP, em agosto de 2009.
Pressionado pela repercussão do caso – que ganhou espaço nos jornais e telejornais das principais redes de TV – o Carrefour teve de indenizar Santana por danos materiais e morais, e a Polícia de S. Paulo acabou por enquadrar os agressores por crime de tortura, motivada por discriminação racial, medida inédita no Brasil.
Repercussão
O caso da agressão e tortura ao vigilante nas Lojas Americanas já começou a repercutir em Brasília. Nesta terça-feira (26/04), o Ouvidor da SEPPIR, advogado Carlos Alberto de Souza e Silva Júnior, encaminhou ofícios ao Ministério Público do Estado e ao Ministério Público Federal, pedindo o acompanhamento da investigação. O mesmo ofício foi enviado à direção da Polícia Federal, tendo em vista que as licenças para funcionamento das empresas de segurança são emitidas pela PF.
Também o deputado Pedro Kemp, do PT de Mato Grosso do Sul, ocupou a tribuna da Assembléia Legislativa para repudiar a agressão. “Ele foi levado para uma sala antes mesmo de poder mostrar a Nota fiscal que comprovava a compra dos ovos em outro estabelecimento”, relatou o parlamentar.
Kemp pediu que a Comissão de Direitos Humanos da Assembléia envie expediente a administração das Lojas Americanas, em Campo Grande, pedindo providências sobre o caso e sugerindo cautela na contratação da empresa responsável pela segurança. “Que as pessoas não sejam mais agredidas violentamente. As Lojas Americanas não podem resolver situações na pancadaria, nem mesmo se as pessoas tivessem furtado, o que não é o caso”, enfatizou.
Punição
Por sua vez, a Comissão Permanente de Direitos Humanos da Câmara Municipal de Campo Grande decidiu entrar no caso da tortura do vigilante. “Esse episódio não pode ficar sem punição. Como membro da Comissão de Direitos Humanos e presidente da Comissão de Segurança Pública da Câmara Municipal, estarei entrando com um pedido na Casa para que sejam cobradas explicações ao estabelecimento e para que as nossas autoridades apliquem as leis cabíveis ao caso. Isso foi uma barbárie e temos que exigir justiça para esse trabalhador”, afirmou o vereador Marcos Alex Azevedo de Melo, do PT.
Alex esteve nesta terça-feira (26/04) na casa do vigilante para prestar solidariedade. O vereador disse que também já pediu uma reunião com o presidente da Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso, Leonardo Duarte, no próximo dia 02 de maio, para tratar do caso.
A Câmara, por sugestão de Alex, também quer ouvir os gerentes das Lojas Americanas e os responsáveis pela empresa de segurança.
Veja reportagem exibida no Programa Balanço Geral da MS TV Record, afiliada da TV Record de Mato Grosso do Sul