S. Paulo – O vendedor negro André Luis Souza, 29 anos, contou nesta terça-feira (07/04) em uma audiência pública convocada pelo Conselho da Comunidade Negra do Estado (07/04) como foi submetido a uma espécie de Tribunal de exceção em plena Avenida Cupecê, zona Sul de S. Paulo, por cinco policiais do Grupo de Operações Especiais (GOE) da Polícia Civil.
Eles discutiram entre si o que fariam com sua vida, depois de rendê-lo, forçá-lo a deitar-se no chão e alvejá-lo com dois tiros nas pernas: “O que a gente vai fazer com ele? Mata ou não mata?”, perguntou um dos policiais, provavelmente o autor dos disparos.
Segundo a Secretaria de Segurança Pública de S. Paulo, o responsável pelos disparos – cujo nome é mantido em sigilo – foi afastado provisoriamente para apuração dos fatos. Os policiais do GOE disseram no Boletim de Ocorrência registrado no 97º DP (Americanópolis) que André segurava uma mochila, em uma das mãos e na outra “um objeto de cabo escuro que estava dentro da mochila”. Na hora dos disparos, porém, o jovem negro estava rendido e deitado de costas.
Terror
O caso aconteceu na madrugada do dia 03 de março, entre 0h30 e 1h da manhã, quando André retornava para casa de táxi, depois de deixar uma amiga em casa. Ele disse que está vivo por milagre, não apenas porque o veredito do Tribunal de exceção montado pelos policiais poupou-lhe a vida, mas também porque os tiros nas pernas – um na parte posterior da coxa esquerda e o outro na panturrilha da perna direita – não atingiram pontos vitais.
Ontem, amparado numa muleta, ele contou detalhes dos momentos de desespero e dor que viveu depois de abordado pela viatura do GOE. “Desci com as mãos prá cima. Eles me ordenaram que deitasse no chão e quando estava deitado de costas, recebi os dois tiros nas pernas – um na parte posterior da coxa esquerda e outro na panturrilha direita”, contou a professora Elisa Lucas (foto), presidente do Conselho da Comunidade Negra e ao advogado Antonio Carlos Arruda, que assumiu à sua defesa.
No salão do Conselho, o advogado Marco Antonio Zito Alvarenga, da CONAD (Comissão do Negro e Assuntos Anti-Discriminatórios da OAB/SP), e advogados negros como Rodnei Jericó da Silva, do Geledés – Instituto da Mulher Negra, e Eginaldo Honório, ativista de Jundiaí, além da ex-deputada Teodosina Ribeiro e do Babalorixá Pai Francisco de Ogum.
Eles ouviram o relato do jovem negro entre perplexos e indignados, “Eu pensei que, no máximo iam me algemar”, contou André, um garoto franzino, que nunca teve passagem pela Polícia e trabalha como vendedor no Shopping Morumbi.
Sua mãe, a doméstica Sônia Regina de Souza, 54, disse ter sido procurada no hospital por um delegado do GOE que tentou confortá-la. Ela afirmou ter ouvido desse delegado que tivera sorte, pois a tropa de elite é preparada e atira para matar. “Eles fizeram isso porque ele é negro”, disse a mãe ainda muito assustada.
Tortura
A tortura em plena Avenida Cupecê em local movimentado e sob o olhar atônito e assustado do motorista do taxi, de nome Antonio, não pararia aí. Depois dos tiros, André conta que começou a perder muito sangue e achou que ida perder os sentidos. Foi aí que, depois de decidirem não matá-lo, os policiais o colocaram no mesmo táxi e ordenaram ao motorista que fosse para o Hospital Sabóia. Segundo o jovem, o motorista de taxi ficou desesperado. “Eu estava perdendo muito sangue”, acrescenta.
Ainda assim, não seguiu a ordem dos algozes e lembrou que o Hospital do seu Plano de Saúde era o Santa Marina, na Vila Santa Catarina, onde chegou minutos depois, e recebeu os primeiros socorros. Três dias depois foi transferido para o Hospital Santa Cecília, onde eve de fazer uma cirurgia vascular porque não sentia o pé direito.
André conta que teve muita sorte porque os dois tiros à queima roupa não atingiram nenhum nervo nem a veia femural, o que o teria levado à morte.
Denúncia e reparação
Segundo o advogado Arruda, que tem acompanhado outros casos de violência policial envolvendo negros, o inquérito leva o número 177/09 da Delegacia de Crimes Funcionais da Polícia Civil. O caso foi registro em Boletim de Ocorrência pelos próprios policiais, uma tentativa, segundo o advogado de montar uma farsa. Os policiais que aparecem como testemunhas e que teriam participado da ação são, respectivamente, Guilherme Jorge Sabee Antar, agente de telecomunicações, e Rafael Elias Machado Pereira Antunes, carcereiro.
André, entretanto, disse que os envolvidos são cinco – que ele disse não ter condições de reconhecer porque estava de costas.
Arruda disse que vai aguardar a conclusão do inquérito e o oferecimento da denúncia pelo Ministério Público. “Depois vamos entrar com uma Ação de Indenização para reparação dos danos contra o Estado”, acrescentou.
Experiente na defesa de casos de violência policial contra negros, Arruda lembrou o caso do assassinato do dentista negro Flávio Santana, em fevereiro de 2.003, e contou que ele próprio recentemente passou por constrangimentos numa revista na esquina de sua casa. “Exigiram que eu botasse as mãos prá cima e foi aí que pedi para que baixassem a arma porque eu já estava dominado. Em seguida disse que era Professor de Direito Constitucional e Igualdade Racial, mas a revista continuou”, contou. Arruda disse que no final da revista informou ao oficial que comandava a revista que era professor do comandante geral da PM Álvaro Camilo.
Audiência com Secretário
“Eu acho que a Polícia Civil do Estado de S. Paulo é uma das piores instituições que existem. Tanto isso é verdade que eles tem um prédio inteiro de Corregedoria. São 15 andares, com viaturas e delegados só para atender exclusivamente crimes cometidos por policiais civis”, afirmou.
A presidente do Conselho Elisa Lucas garantiu que pedirá uma audiência com o Secretário de Segurança Pública para tratar do caso. A ex-deputada Teodosina Ribeiro afirmou que é fundamental a união dos negros para evitar que violências como essas se repitam. “A palavra chave é conscientização. Na medida em que nos conscientizarmos, vamos começar a unos unir”, acrescentou.

Da Redacao