Há poucos dias fui desafiado a reconhecer que o atual governo, independente do nosso posicionamento político, teria praticado boas ações em prol da população, mas para nós o que mais conta é a necessária visibilidade à raça negra brasileira, através da ocupação de cargos relevantes de primeiro escalão na área administrativa de qualquer governo, seja ele federal, estadual ou municipal. Para nos cingirmos ao governo federal, decidimos marcar aqui, ainda que com possíveis falhas alguns acontecimentos de destaque durante o período que acompanhamos a política brasileira.
Durante a efêmera passagem de Jânio Quadros pelo Palácio do Planalto, que designou o jornalista e escritor Raimundo Souza Dantas, colaborador da campanha presidencial do “vassourinha”, como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário do Brasil na República de Gana,no Continente Africano e que diante do quadro de instabilidade política ocasionada pela desastrada renúncia de JQ só assumiu o posto no governo João Goulart, tivemos no governo do caudilho gaúcho a designação do extraordinário professor e jornalista Geraldo Campos de Oliveira, que ocupou o cargo de presidente nacional do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários-IAPB e do ex-campeão olímpico de Salto Triplo, o advogado Adhemar Ferreira da Silva, designado para ocupar na Embaixada brasileira na República Federal da Nigéria, também na África, a função de Adido Cultural. Nos governos militares não houve destaques para figuras exponenciais da comunidade negra, exceção feita ao único marechal negro da história do Exército Brasileiro, o marechal João Batista de Matos, mas se não houve visibilidade algumas figuras da raça negra foram atuantes nos meandros dos órgãos de informações e contra-informações nas áreas de Segurança Nacional.
Passado o período de governos comandados por militares, no governo José Sarney, o ex-governador neonegro de Sergipe, João Alves, ocupou um cargo de ministro de Estado, mas foi graças à atuação da então deputada federal Benedita da Silva e outros parlamentares da raça negra, além do trabalho incansável dos ministros José Aparecido e Aloisio Pimenta, que se deu forma e instituiu-se a Fundação Cultural Palmares, até hoje atuante, apesar de todas as críticas que recebe. No governo menos efêmero de Fernando Collor de Mello, o jornalista Cláudio Humberto Rosa e Silva, um dos principais coordenadores da collorida campanha eleitoral, foi designado para chefiar um dos mais importantes órgãos daquele governo, a toda poderosa SECOM-Secretaria de Comunicações da Presidência da República.
No governo de Fernando Henrique Cardoso, a comunidade negra passou a ter um pouco de destaque, a partir do instante que ele publicamente reconheceu: > O Brasil é um país racista, declaração que revoltou alguns alienados que se posicionaram contra a fala presidencial, dizendo que S.Exa. estava equivocado pois vivíamos numa “democracia racial”, mas a fala do mais alto mandatário da Nação na época jamais poderá ser contestada, até hoje. Sérgio Abranches do alto de sua autoridade como cientista político lembrou bem: > Fernando Henrique fez um gesto inédito da história da Presidência brasileira: assumiu o reconhecimento coletivo da existência do racismo no documento que o Brasil apresenta a Conferencia Mundial Contra o Racismo. Foi o primeiro passo de uma longa caminhada. Ele ainda pode, dar o próximo antes de terminar seu governo, adotando iniciativas pioneiras de ação afirmativa.” A comunidade negra passou a ter um pouco de visibilidade no governo FHC com a promoção e designação de irmãos nossos oriundos das Forças Armadas e outros civis que passaram a ocupar cargos considerados importantes na hierarquia administrativa federal.
A história acontece se renovando a cada dia e na minha humilde preocupação de observador do quadro político nacional no que diz respeito à trajetória dos nossos irmãos inseridos no processo político em várias unidades da Federação, saltou-me aos olhos em 1989, uma acusação feita por dona Miriam Cordeiro, contra seu ex-marido, então candidato a Presidência da República:> O Lula sempre foi um homem racista. Ele nunca suportou negro. No nosso tempo de namoro ele dizia que detestava negros e quando aparecia algum artista negro na TV, ele mudava de canal ou desligava o aparelho. A acusação encomendada ou não, da qual a primeira parte para nós negros não nos dizia respeito, exceto por convicção religiosa de alguns, foi muito bem explorada por seus adversários e martelada constantemente no horário político daquele pleito presidencial, o primeiro com o voto direto, após 29 anos da falta da presença do povo no processo político. Passaram-se as eleições de 89, 94 e 98 e sempre me saltou aos olhos a imagem da acusação contra o ex-metalúrgico do ABC paulista, ao qual sempre fiz minhas restrições políticas e declinadas em tempo e hora certos e quando o Instituto Vox Populi, segundo a revista ÉPOCA nº 216, em 2002 divulgou uma pesquisa em que o candidato Luis Inácio Lula da Silva surgia com a maior aprovação dos eleitores da raça negra, onde ele aparecia com 49% na preferência da comunidade, pensei com meus botões, se for eleito Presidente da República vai ter a oportunidade de desmentir ou não, no exercício do cargo a acusação de 1989. Não estou filiado a qualquer partido político e nunca fui próximo da grei partidária do atual Presidente da República e critiquei ferozmente o candidato Lula quando durante sua campanha eleitoral em 2002, quis se comparar a Nelson Rolihlahla Dalibunga Mandela quando declarou publicamente: > Esse negócio de experiência, sabe o que me lembra? Lembra o Mandela. Sabe qual a experiência do Mandela? Vinte e sete anos de cadeia. E, quando ele sai, é eleito presidente. Mais do que a minha simples e determinada crítica na época, foi marcante a aula crítica de Sonia Knopf em 15 de agosto daquele ano, que ensinou:> Por mais valor que tenha o candidato, não há comparação entre essas duas pessoas no que diz respeito à experiência e ao futuro para exercer um cargo de governo. (…) Desde que nasceu Mandela foi preparado para liderar e governar. (…) Preparou-se política e culturalmente. A contestação foi decorrência do momento histórico vivido pela África. Mas não foi por contestação ou aprisionamento por 27 anos, que se tornou um dos maiores lideres morais e políticos do nosso tempo, homenageado com mais de 50 títulos “honoris causa” por universidades – além de possuir o título de advogado pela Universidade Witwatersrand, de chanceler da Universidade do Norte e Premio Nobel da Paz – título que aceitou em 1993, em nome de todos os sul-africanos, que sofreram e se sacrificaram em nome da paz em seu país”. A esdrúxula pretensão do ex-lider metalúrgico, de querer se comparar ou até se querer mostrar superior em sofrimento e idéias a Nelson Mandela, mostra que ele não foge a regra comum e já querendo se inserir na sociedade dominante que tem a pretensão de querer ter ascendência e dominação sobre a comunidade negra, escrevi na época.
Com todos os tropeços enfrentados, a eleição do ex-operário como Presidente da República em 2002, sepultou o projeto tucano do ex-ministro Sérgio Motta de 20 anos contínuos de Poder e nos levou a esperança de que o tempo, Senhor da Razão, iria provar ou não, que a acusação de 1989 de ele ser racista, teria a partir de 2003 a oportunidade de ser contestada, pois sempre acreditamos nas assertivas da mulher negra e favelada, ex-vereadora, ex-deputada federal, ex-senadora e ex-governadora Benedita da Silva, liderança respeitada no seu partido, pessoa por quem sempre tive respeito, carinho e admiração imorredoura, a quem conheci antes de ocupar cargo público, de que um dia Lula provaria que muito do que se falou sobre a sua aversão aos valores da raça negra, seria contestado e arquivado por suas atitudes como homem público.
De Jânio Quadros até os dias de hoje, Luiz Inácio Lula da Silva, por quem não morro de amores, mas respeito como autoridade máxima do Brasil, inegavelmente foi o único Presidente da República que deu visibilidade a comunidade negra no cenário político administrativo do país, procurando respeitar os militantes negros do seu partido, não se podendo deixar de reconhecer nós como observadores, a importância de petistas históricos que podem e acredito terem feito um trabalho vital para que ele abrisse os olhos para a necessidade de fazer um governo voltado também para a conscientização sobre a nossa importância na vida democrática da Nação e a necessidade da nossa visibilidade no cenário político, pleito buscado lá atrás por petistas como Aguinaldo “Bola” Bezerra, Hamilton Cardoso, Hermógenes Almeida Silva Filho, Francisca Trindade, figuras excepcionais como políticos que já deixaram nosso convívio. Foram importantes para que a luta fosse seqüenciada pelas figuras incomparáveis como da mulher negra teimosa Benedita da Silva, Ben-Hur Ferreira, Marina Silva, Paulo Paim, Jurema Batista, Geraldo Cândido, Carlos Santana, Luiz Alberto Silva Santos, Ideli Salvatti, João Grandão, Gilmar Machado, Vicente Cândido, Edson Santos, Telma de Souza, Eduardo Valverde, Siba Machado, Milton Barbosa, Claudete Alves, Antonio “Pitanga” Luiz Sampaio, Euripedes Camargo, Keila Maria Cândido, Sebastião “Tiãozinho do PT” Arcanjo, Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho da CUT e do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, além de outros valorosos militantes petistas ou não, que desalojando ou se compondo com companheiros de sua grei partidária, vão ocupando espaços para se sentar à mesa das decisões políticas nacionais em benefício da maioria da população brasileira.
A visibilidade alcançada pela comunidade negra neste governo aí está e só não vê ou não reconhecem os que são dotados para a crítica fácil e irresponsabilidade política, pois somos queiram ou não os críticos contumazes, partícipes de um governo que ainda tem tudo para dar certo.

Antonio Lúcio