Tendo muita gente acreditado nessa conversa, alguns “militantes” negros petistas, ocupantes de mandatos eletivos ou não e pretensos esquerdistas do chamado Movimento Negro arvorados de “marxistas”, que nunca souberam mesmo rudimentarmente, quem foi ou leram uma linha sobre Karl Marx, passaram a sorrelfa pregar que eu estava a serviço de alguma grei partidária ou de algum ocupante de cargo público. Primeiramente, não estou filiado a qualquer partido político ou ligado a ocupante de qualquer detentor de cargo público do qual possa depender financeiramente para sobreviver, estando sempre ao lado da verdade que não deve ser sonegada à nossa comunidade, quando se tem o mínimo de informação séria que possa ser veiculada nos espaços por onde levo a muitos anos meus modestos escritos. Não estou a cata de elogios de coleguinhas, militante político de esquerda, de centro ou de direita, ocupantes de cargos públicos ou não, mas um dia quando vi alguns petistas esculhambar o militante petista de carteirinha, o anti-racista ator Paulo Betti, que disse considerar o petismo demodé e o seu líder maior um ignorante cultural “pois Lula nunca foi a um teatro” e que estava decepcionado com sua administração, pensei, se agem assim com um pregoeiro partidário, qualquer crítica mais severa ao petismo e aos seus métodos de atuação, precisamente àquelas voltadas para sua concepção totalitária, mesmo sem ser analisada, haverá de ser repudiada, sempre.
A concepção de alguns militantes políticos da nossa comunidade é de que os poderosos do dia, não podem ser criticados e menos ainda, os negros ocupantes de cargos públicos nos governos federal, estadual ou municipal, que no nosso entendimento devem receber a crítica construtiva para se aprimorarem na função que estão exercendo, sem se melindrar ou pensarem que querem sua cabeça, pois a preocupação maior deveria ser não com a administração pública, mas sim, com os achincalhes e racismo explícito de que somos vítimas através de instituições sérias como ABC Sem Racismo, as Religiões de Matrizes Africanas, entidades de Defesa dos Direitos Humanos e das Minorias, vítimas permanente de grupos nazi-facistas e racistas, alguns incrustados em sites, jornais e revistas, além de emissoras de rádio e televisão sem que os defensores negros de uma capenga administração se preocupem com o que nos atinge mais de perto, os ataques à nossa história, cultura e tradição religiosa que diz respeito a nossa ancestralidade.
O importante para nós é que quem tem a intenção de verdadeiramente participar do processo político nacional não fique, enquanto negros militantes políticos, profissionais liberais, trabalhadores de uma forma geral, alheios ao que ocorre no centro dos Poderes, pois para nos considerarem alienados basta um passo, pois não é crível que não nos manifestemos sobre os atos de corrupção e saque aos cofres públicos para os quais vai o nosso dinheirinho sugado através de impostos que pagamos sem titubear. Dia seguinte após a entrevista do ex-deputado federal Roberto “Bob” Jefferson à jornalista Renata Lo Prete, denunciando a corrupção efervescente no governo, encontrava-me em Brasília e senti o ânimo da grande mídia em tentar abafar a repercussão das denuncias do então parlamentar carioca, com a alegação de que o mesmo era “boquirroto”, portanto não merecia confiança e seria melhor esquecer o assunto, mas quando o parlamentar alertou o país sobre a figura do “carequinha de Belo Horizonte” e convidou solenemente o “primeiro-ministro” a se movimentar de lugar com a expressão “vai pra casa”, em pouco tempo ficou provado que se não fosse Jefferson, os escândalos sucessivamente revelados não teriam certamente chegados à grande imprensa, que em sua boa parte deve desculpas ao parlamentar, pela incredulidade, rancor e desconfiança sobre suas palavras. Em mais de um semestre de exposição dos escândalos de corrupção e assalto aos cofres públicos, aos olhos do país, não assisti qualquer manifestação de militantes políticos negros sobre o assunto e apenas um detentor de mandato parlamentar, o deputado federal Alceu Collares, se manifestou, ainda que fosse somente sobre os meandros regimentais da votação do processo de cassação do mandato parlamentar do então “primeiro-ministro”.
Não sou macaquinho de souvenir, não bato palmas para macaco dançar e não me aborreço de forma alguma com as críticas de militantes políticos negros, ocupantes de cargos públicos ou detentores de mandatos eletivos, e até entendo a preocupação deles, pois como ensina o mestre Leôncio Martins Rodrigues, cientista político, in “Para quem vem debaixo, o deslumbramento é maior” (…) Essa é a primeira vez que esse grupo vindo mais de baixo pode usufruir, ou tentar usufruir, totalmente dos benefícios do Estado em dimensão nacional. (…) Há ainda a oportunidade de se beneficiar de um padrão de vida e de outras vantagens, que estavam ao alcance apenas das classes altas. Isso de poder entrar num restaurante fino, pedir um bom vinho, comer bem, estar bem vestido, ser reconhecido, ser chamado de Vossa Excelência, receber deferências, ser bajulado pelos que estão mais abaixo, empregar os amigos e parentes e outras coisas mais.
A democracia nos autoriza a criticar sempre com liberdade, qualquer fato desairoso que atinja a todos nós brasileiros, pois o debate que interessa é defender o respeito, a dignidade e os cofres públicos da sanha dos assaltantes.

Antonio Lúcio