Já disse aqui que considero exagerada a punição dada a Luis Suárez.

Mesmo levando-se em conta que há agressões – por exemplo, mordidas ou cusparadas – que são graves, mesmo não deixando sequelas como um nariz fraturado ou uma perna quebrada, achei exagerada a suspensão por nove jogos.

Claro que o passado de Suarez não o ajuda. Já foi suspenso por manifestação de racismo numa partida do campeonato inglês (o que – atenção! – é inaceitável) e esta é a terceira vez em que o jogador foi punido por morder adversários em campo (o que também não é pouca coisa). E, por favor, que ninguém me venha dizer que tal comportamento é demonstração de combatividade, garra e valentia em campo.

De qualquer forma, preferia que Suárez sofresse advertência pública e uma multa alta (mesmo sabendo que esta provavelmente seria paga pela federação uruguaia).

Mas – aproveitando-se da merecida má fama da Fifa – muitos uruguaios estão criando um clima que deixa o jogador como vítima de uma trama diabólica arquitetada por ela para dar o título ao Brasil.

Isso é ridículo.

Não há qualquer motivo para que, num suposto intuito de dar o título ao Brasil, o Uruguai seja alvo e vítima de manipulações. Ele está longe de ser uma das melhores seleções da Copa. Levou um banho da Costa Rica e é visivelmente mais fraco do que Alemanha, Holanda, Argentina, além de ser mais fraco do que o próprio Brasil.

A história do fantasma do Maracanazo, evento do qual parece viver o futebol uruguaio há mais de 60 anos, não se sustenta. Está ficando cada vez mais velha. Foi levantada em 1970, quando Uruguai e Brasil se enfrentaram na semifinal da Copa no México. O Brasil venceu por 3 a 1. Foi levantada, de novo, nas eliminatórias para a Copa de 1994, quando no mesmo Maracanã, o Brasil eliminou o Uruguai sem maiores dificuldades, com dois gols de Romário.

Os uruguaios precisam se convencer que o tal Maracanazo foi uma linda vitória que deve orgulhar seu futebol. Mas já passou.

Ademais, é bom lembrar que, em 1950, o Uruguai tinha um belo time, equivalente ao brasileiro, que tinha um ataque excepcional e uma defesa fraca. Os confrontos entre os duas seleções naqueles tempos não apresentavam uma clara vantagem para qualquer dos lados. Assim, creditar a vitória na final da Copa simplesmente aos “culhões” dos jogadores uruguaios é bobagem.

Muitos uruguaios acreditam sinceramente que a sua seleção é mais valente e combativa do que as demais, como se a garra com que costuma jogar resolvesse todos os problemas em campo. Isso não é verdade, como pode ser visto pelo retrospecto das copas do mundo dos últimos 64 anos. Depois de 1950 o Uruguai nunca mais chegou a uma final. Mesmo jogando com garra na maioria das vezes.

Enquanto essa coisa de ser mais macho que os demais é dita na brincadeira, na galhofa, deve ser levada também na brincadeira e na galhofa. Quando toma ares de seriedade, fica patético.

Está para ser provado que um povo seja mais valente do que os demais (ou melhor, ou mais inteligente, ou mais puro ou escolhido por quem quer que seja como “eleito”). As tentativas de estabelecer “verdades” desse tipo não deram boa coisa.

O que resolve em campo é a qualidade dos times. É verdade que, dentre os atributos de um bom time está a garra. Mas ela é um aspecto, nem sempre determinante. E, sozinha, não costuma levar a resultado algum.

Como, aliás, é fartamente demonstrado pelo retrospecto das copas.

 

Cid Benjamin