Naquela oportunidade, procurei conhecer as características de um processo histórico contemporâneo marcado pela contradição que se realiza em dois momentos simultâneos: de um lado, a constituição do bloco econômico europeu – que pressupõe o desenvolvimento de um certo nível de homogeneidade a ser construída entre os Estados-membros; de outro, a reivindicação da diferença ou de identidades específicas, que se contrapõe e que reage à homogeneização. O foco foi uma diretiva comunitária que trata da escolarização dos filhos de imigrantes, cuja questão de fundo é procurar regulamentar a circulação de trabalhadores pela Europa.
A partir de uma experiência pessoal, estive mergulhada na situação da pesquisa proposta e passei a viver a ambigüidade de ser sujeito e objeto de minha reflexão. Não apenas por ser a antropóloga que deve estabelecer uma relação de empatia com as pessoas que quer conhecer, mas porque eu era uma estrangeira, em país estrangeiro, procurando saber como os estrangeiros são tratados na escola. Mesmo transcorridos dez anos, essa experiência pode ajudar a responder à pergunta do título.
Quando cheguei à Bélgica (sede administrativa da UE), meus dois filhos logo começaram a freqüentar a escola. Minha filha passou a freqüentar a classe de 4ª série (do ensino fundamental) junto com as outras crianças. Segundo o diretor desse nível de ensino, essa seria a maneira mais apropriada para o aprendizado da língua, imergindo-a nas atividades cotidianas da classe, o que lhe permitiria, em breve, o acompanhamento das matérias. Foi recebida com toda atenção, carinho e gentileza pelo professor e por seus colegas de classe.
Meu filho, no nível médio, do mesmo modo foi recebido pela escola, cuja direção acordara que ele seria avaliado a partir de sua situação especial de aluno estrangeiro, que começara o ano letivo dois meses depois de iniciado. Porém, no que diz respeito ao aprendizado do francês, nesse nível de ensino, a escola tinha dúvidas sobre qual seria a melhor maneira de superar esse obstáculo ao processo de ensino.
Durante algumas semanas, a diretora e o adjunto expressaram opiniões divergentes sobre a questão. Para a primeira, meu filho deveria permanecer entre os outros alunos da mesma série e da mesma idade, enquanto o segundo recomendava que ele freqüentasse apenas um curso intensivo de língua francesa, oferecido pela escola, para adultos estrangeiros. Aparentemente, prevalecendo à opinião da diretora e com a revalidação dos estudos realizados no Brasil, meu filho passou a freqüentar as aulas normalmente.
Em dezembro, um mês após nossa chegada, os primeiros exames foram realizados. Embora meu filho não dominasse o francês e desconhecesse parte da matéria dada até aquele momento, insisti para que fizesse os exames para conhecer melhor o funcionamento da escola belga e para mostrar seu interesse em aprender, mesmo porque, daquela experiência ele poderia tirar algum proveito. Aconselhei-o a tentar os recursos possíveis de comunicação para se fazer entender (as poucas palavras que conhecia em francês, o português ‘afrancesado’, desenhos, esquemas), dando mostra de seu conhecimento nas questões que pudesse responder. De fato, achei que isso poderia servir de estímulo para que ele enfrentasse as dificuldades e que isso certamente iria sensibilizar o corpo docente da escola.
Orgulhosa com a coragem de meu filho que enfrentara a situação adversa e interessada em conhecer a opinião da escola, contatei os responsáveis, tão logo os exames terminaram. Encontrei, naquela oportunidade, o diretor adjunto. Falei que estava consciente de que meu filho não obtivera bons resultados nos exames de dezembro, pelas razões conhecidas, mas que gostaria de saber como a direção da escola percebia as suas chances de terminar o ano com sucesso e como eu poderia ajudar.
Não me lembro de, em se tratando de um educador, ter encontrado alguém que falasse de maneira tão arrogante. Ele me respondeu que eram praticamente inexistentes as chances de meu filho conseguir ser aprovado naquele ano escolar, uma vez que desconhecia o francês. Foi quando tive a minha primeira e dolorosa impressão de como a escola belga tratava a questão da diferença cultural de seus alunos…
Saí da escola furiosa e arrependida por ter aconselhado meu filho ao esforço inútil de aprender, no final das contas, uma indesejável lição de intolerância. Faltava-me a sobriedade para definir qual a melhor atitude a tomar ante aquela evidente manifestação de preconceito. Afinal, ninguém tem a autoridade de julgar a capacidade de uma criança, pelo fato de não dominar a língua de ensino! Faltavam ainda seis meses para que o ano escolar terminasse e um ‘educador’ me dizia que meu filho não obteria êxito?
Contei o episódio para minha irmã que morava na Bélgica e acertara a vinda das crianças para aquela escola. Do mesmo modo, ela ficou indignada com o que ocorrera. Logo em seguida foi falar com a diretora, pedindo esclarecimentos e providências, inclusive solicitando a presença do adjunto para que ele explicasse a situação. No dia seguinte, eu mesma fui falar com a responsável querendo saber se a escola estaria verdadeiramente disposta a oferecer a oportunidade de meu filho tentar mudar o destino que havia sido traçado pelo adjunto. A titular garantiu que o acordo firmado inicialmente seria respeitado e que o resultado final dependeria do esforço que meu filho demonstrasse nos meses seguintes, embora soubesse que ele encontraria muitas dificuldades.
Ao sair da escola, pensei nas situações que poderiam ser vividas pelos pais de crianças estrangeiras na escola belga. Afinal, tinha a clareza de que o desfecho do episódio mantinha uma relação estreita com os signos de poder que eu e minha irmã possuímos e fizemos absoluta questão de apresentar: a uma doutora em Antropologia, professora universitária no Brasil, enviada para fazer um pós-doutorado na Université Catholique de Louvain e a uma dentista, com consultório estabelecido no país, não se poderia dizer bobagens e permanecer impune. No melhor do estilo ‘Você sabe com quem está falando?’, inegavelmente autoritário, essa intervenção legitimou-se na medida em que foi uma resposta ao autoritarismo daquela flagrante manifestação de preconceito ante um estrangeiro. Também não se pode negar que nossa formação intelectual favoreceu a interpretação e reação rápida ante o fato ocorrido, colocando a escola sob vigilância e como alvo de permanente controle, a partir daquele momento. A maior prova de que eu estava certa e que o destino escolar de uma criança não pode ser definido por ninguém, foi, finalmente, a aprovação obtida por meu filho, contrariando a previsão do ‘educador’.
Qual poderia ser a reação de um trabalhador imigrante sem domínio da língua do país hospedeiro, muitas vezes analfabeto, caso seu filho fosse envolvido numa situação semelhante? Além da impotência e da revolta muda o que poderia exprimir? Como seria uma eventual reação e as conseqüências? O que acontece às crianças estrangeiras que não têm quem brigue, reaja, controle por elas? Como superar a expectativa de insucesso dentro e fora dos muros escolares? Poderão um dia reagir por si ou com fúria incontrolada?

Ana Lúcia Valente