E não é só isso. A linha adotada também contempla as publicações opressivas, aquelas publicações que tentam macular a reputação e desacreditar o raciocínio de pessoas aval de competência no tocante às questões afrobrasileiras. Em resumo, constantemente nos deparamos com essas posturas midiáticas discriminatórias, comportamentos esses que tanto fomentam a desigualdade entre seres humanos quanto atentam contra os pilares do sadio e sólido jornalismo, quais sejam: a retidão, a honestidade e a integração entre diferentes povos.
Porém, atualmente, adotou-se uma nova maneira de externar descaso para com as questões de interesse dos negros. A bola da vez consiste em mesclar, no mesmo texto jornalístico, discurso discriminatório e discurso anti-racista. Trata-se, pois, de um estratagema, e com intenções absolutamente bem definidas.
A primeira das intenções, é induzir o leitor a acreditar que se está diante de um jornalismo promovedor da igualdade racial. Mas a segunda, por sua vez, invalida a primeira, à medida que reafirma o pensamento da empresa jornalística em relação aos negros e às aspirações dos mesmos.
Essas duas posições antagônicas tendem a criar no leitor dúvidas quanto à verdadeira posição da empresa jornalística em questão. É que se de um lado apresenta-se um certo ensaio de valorização da equidade racial, de outro, lá está o velho, o velhíssimo preconceito para com os negros. Impávido e altaneiro, o velho preconceito nunca esteve tão intocável, soberano e soberbo.
Considerando, então, que nem todos sabem que empresa jornalística costuma ser absolutamente parcial e considerando ainda a presença do mito da democracia racial no inconsciente coletivo, nos deparamos com uma realidade lamentável. É lamentável constatar que para muitas pessoas as atitudes discriminatórias travestidas de jornalismo são, no máximo, entendidas como sendo um lapso por parte de alguém.
Sim, um lapso! Lapso que de tão prodígio, dispara farpas que visam perfurar e atravessar o espírito de cada um dos negros. Que de tão audacioso, minimiza e decompõe o esforço de quem labuta na promoção da igualdade entre seres humanos. Que de tão preciso, aperta e solda as intenções subjacentes de empresas jornalísticas em relação aos afrodescendentes, e que de tão inteligente, se permite desagregar e fragmentar as potencialidades de milhões e milhões de brasileiros negros e negras.
Lapso referendado pela principal propaganda ideológica nacional, lapso que transforma o auspicioso jornalismo em arremedo de jornalismo. Enfim, lapso que de tão extraordinário, foi elevado à categoria de coisa normal, e que por ter acreditado nessa sua nova condição, passou a agir como se normal o fosse.
Mas nada me autoriza dizer que ninguém, absolutamente ninguém, tem percebido a presença desse novo expediente midiático. De minha parte, não só o percebi como me arrogo no direito de comentar sua presença na matéria publicada por um dos maiores jornais do Brasil, quando esse jornal noticiou o desfecho de determinado episódio racista ocorrido tempos atrás.
Passando em revista
Jornal da Tarde (SP), editoria cidade, pagina 8 A, sexta-feira, 19.03.2010.
A matéria veiculada nesse espaço e por esse jornal diz respeito ao desfecho do acontecimento que ficou conhecido como o “caso Januário”. Relembrando, Januário é o funcionário negro da Universidade de São Paulo que, há alguns meses, foi acusado de estar roubando o próprio carro no estacionamento de um dos supermercados da rede Carrefour, na cidade de Osasco. A acusação foi seguida de espancamentos praticados pelos seguranças do próprio supermercado.
“Carrefour paga indenização”, é o título da matéria.
Trata-se de uma subinformaçao, e visivelmente divorciada do combate ao racismo e ao preconceito racial. É que o correto seria informar – no título – os motivos que levaram a rede de supermercados ao pagamento indenizatório. Todavia, da maneira como se titulou, não se pode tirar do leitor o direito de pensar que a referida indenização ocorreu em razão de qualquer motivo menos por conta de prática racista.
Afinal, no inconsciente coletivo, vivemos em uma democracia racial. Portanto, com essa omissão, o jornal perdeu a oportunidade de ser pedagógico, uma vez que título de matéria não tem que sugerir e nem omitir coisa alguma e sim informar os fatos. Resumindo, simplificou-se o que não poderia ser simplificado.
Mas alguém poderá dizer que não havia necessidade de complementação, uma vez que no canto superior esquerdo da matéria encontrava-se a chamada – racismo. E no meio do texto, a fotografia de Januário, acompanhada de legenda.
Não se desconhece a importância da chamada; porém, a mesma não redimi a omissão acima mencionada. Uma coisa é uma coisa, e outra coisa, é outra coisa. Quanto à legenda “Januário foi acusado de roubo”, me pareceu não só insuficiente como tendenciosa. E que Januário foi acusado de roubar o próprio carro, detalhe esse absolutamente significante, mas nem por isso mencionado.
Fico com a impressão que redator e editor não gostaram de saber que, o moço, tinha carro próprio. E estou convencida de que a fotografia de um negro acompanhada por uma legenda onde aparece a palavra roubo, tende a reforçar determinados estereótipos. Enfim, não posso crer que tudo isso foi mais um lapso por parte de alguém.
Quanto ao texto, o considerei a prova provada do novo modus operandi adotado para induzir o leitor a acreditar que se estava diante de um jornalismo promovedor da igualdade racial. E que se de um lado teve-se o cuidado de esclarecer tanto os motivos que levaram à indenização quanto a profissão da vítima, de outro, omitiu-se que Januário era/é funcionário de uma das mais conceituadas universidades do país – a USP.
Em última análise, vai ver, para os responsáveis pela matéria – por extensão, para a empresa jornalística em questão – quando se trata de gente negra, ser vigilante pode; mas ser funcionário da USP, não pode. Preconceito? Não, de forma alguma!
Todavia, muito pior que tudo isso é a pseudo-informação mencionada no olho da matéria – aquele bloquinho de informações que faz o chamamento do assunto a ser tratado. Nesse olho, está escrito: “cliente confundido com ladrão e espancado por seguranças ganha compensação”. Isso mesmo: ganha compensação!
Quer dizer, então, que ser acusado de ladrão do próprio carro e ainda por cima levar pontapé, soco, pancada, enfim, ser humilhado fisicamente e emocionalmente, no final das contas, se resolve com um prêmio, ou seja, com uma compensação. Quem, quem disse que é possível compensar alguém pelas humilhações sofridas? Sim, com toda certeza, redator e editor – por extensão, a empresa jornalística – erraram duplamente: no verbo e no substantivo. Mas erraram, sobretudo, pelo que deixaram de dizer. Não, não houve compensação alguma. O que houve, felizmente, foi indenização.
Esse conjunto de erros primários me levou a assumir uma posição radical. Não reconheço em ninguém, absolutamente em ninguém, o direito de argumentar que as infelizes expressões utilizadas foram mais um lapso por parte de quem quer que seja. Chega, definitivamente, chega. O que reconheço é o predomínio da velha má-intenção, disseminando-se como se disseminam as ervas daninhas. E também reconheço o pouco-caso tentando crestar, empapar, soterrar os legítimos direitos de um irmão. Por fim, reconheço a explicita intenção de desataviar, desbotar e desonrar a dignidade de uma pessoa negra.
Esperança
A despeito disso tudo, penso que todo tempo é tempo para se passar a adotar uma postura midiática benfazeja. Sim, como seria bom, interessante e útil se os meus colegas caprichassem – no bom sentido – na elaboração de matérias, artigos e reportagens dos temas voltados direta ou indiretamente aos afrodescendentes.
Claro, claro que estou sonhando com o sadio e sólido jornalismo, aquele em que todas as coisas nele reboam e refletem, e podem ser vertidas na sua linguagem, plasmadas na sua forma, reproduzidas nas suas cores, e entoadas no seu tom.
Porém, para tanto, empresas jornalísticas, repórteres, redatores, editores precisam aprender urgentemente a arte de caminhar a pés enxutos pela estrada reta da profissão e não pelos atalhos cursivos. E ao longo do caminho, é preciso resistir à tentação de dar guarida ao estreito, ao raso, ao miúdo, ou seja, ao racismo e ao preconceito.
Por fim, é imprescindível depositar no ventre dessa mídia por ora promovedora da desigualdade racial, a semente que poderá se transformar em um embrião tremendamente diferenciado. Um embrião carregado de honestidade, envolto pela retidão, piamente devotado à integração de diferentes povos.
Um embrião inimigo capital das pormenorizações descabidas, das simplificações abusivas, das lógicas infantis, mas amigo intimo da objetividade, da clareza e, sobretudo, do sentido amplo dos fatos. Enfim, embrião que ao nascer possa ser chamado de o verdadeiro jornalismo promovedor da igualdade racial.

Sônia Ribeiro