Até em 1970, mesmo preso e sabendo que a ditadura trataria de pegar carona numa vitória da seleção, torci pelo Brasil. Com muito mais razão, vou torcer agora.

Quanto à expressão "Não vai ter copa", nunca a apreciei muito. Primeiro, porque a copa não deixaria de acontecer, havendo ou não manifestações. Depois, porque prefiro encarar o futebol como uma forma de cultura popular no Brasil, e não como uma espécie de "ópio do povo".

Penso que o povo não é contrário à realização da Copa no Brasil. Sua oposição é a outras coisas relacionadas com a competição: a gigantesca corrupção que envolveu as obras; a construção de elefantes brancos que ficarão às moscas; a ingerência descabida da Fifa na vida do país, aceita passivamente pelos governos Lula e Dilma; os atropelos à Constituição, com a Lei Geral da Copa instalando uma espécie de estado de sítio no país, que chega ao ponto de proibir manifestações políticas em ruas próximas aos estádios; e por aí vai.

E isso tudo num país em que os serviços públicos são extremamente precários. Isto posto, como disse, torcerei pelo Brasil.

Só peço aos meus amigos petistas que não me cobrem ter o comportamento de neopachecos, assumido por muitos deles. Não percam o senso crítico. Torcer pelo Brasil e não ser contrário à Copa não significa necessariamente ter uma atitude de Poliana diante dos absurdos que cercam a competição.

No mais, esse surto de neopachequismo é ridículo.

Cid Benjamin