Causou-me tristeza, indizível tristeza, a postura da maioria dos nossos veículos de comunicação em relação à data acima mencionada. É que tudo indicava que quase nenhum deles havia atinado que a efeméride em questão é uma homenagem a todas as mulheres, inclusive, às mulheres não brancas.
Por assim pensar, foi decepcionante abrir diferentes jornais daquele dia e deparar com matérias e artigos retratando as conquistas femininas – brancas – como se as outras mulheres – nós, por exemplo – não tivéssemos em nossas trajetórias nenhuma conquista digna de também ser mencionada e enaltecida. E tão ou mais decepcionante foi encontrar não sei quantos cadernos falando de beleza, mas pouco ou quase nada da beleza negra; do talento, da criatividade e do pioneirismo de uma infinidade de mulheres, mas se esquecendo completamente da existência dos mesmos predicados em muitas das minhas irmãs.
Por fim, da luta diuturna de profissionais novatas e veteranas – tanto as de nível de escolaridade elevadíssimo quanto as que se encontram às voltas com as primeiras letras – mas omitindo quase que criminosamente a luta de incontáveis mulheres negras com essas mesmas características.
Tudo isso me levou a conjeturar se essas atitudes discriminatórias para com as mulheres não brancas – no caso, as negras – não teriam ocorrido/ocorrem em razão de boa parte dos profissionais da nossa mídia regional pensarem que vivemos todas sob um outro céu, e que por isso os nossos vultos transitam infixos – ora destacados e isolados ora em cenas complexas e confusas – feito pesadelo. Mas também fiquei/fico com a impressão – de resto verdadeira – que tudo não passou/passa de pouco caso, racismo, conceitos pré-estabelecidos, pra não dizer as três coisas combinadas.
Mas me parece, ainda, que muito pior que as omissões ocorridas no meu querido Vale são as simplificações abusivas e as pormenorizações descabidas que correm soltas por ai, seja o dia que for, quando o assunto é mulher negra. Por exemplo, no que diz respeito às simplificações, que nascemos para certos ofícios e não para determinadas profissões; quanto às pormenorizações, de tão ridículas, me recuso a comentá-las.
A minha indignação ocorreu, sobretudo, porque entendo que a comunicação sempre foi a principal ferramenta de integração entre os povos, além de proporcionar o conhecimento progressivo dos diferentes ambientes e da natureza humana. Isso significa que o comunicador social – dos grandes centros ou do interior – sempre teve papel absolutamente relevante.
Todavia, quando adotam a tática de excluírem as questões que envolvem as mulheres negras das pautas diárias – inclusive, em pleno Dia Internacional da Mulher – não só agridem os princípios da comunicação social como acabam contribuindo maravilhosamente para com a solidificação daquela lógica infantil, aquela que há séculos preconiza que mulher negra não apresenta nada digno de nota em momento algum exceto, claro, no carnaval.
Porém, como acredito que sempre é possível corrigir tanto as pequenas quanto as grandes falhas, confio que sei lá quando, empregados e empregadores dos veículos de comunicação – de qualquer lugar – toparão o desafio de se interessarem pelas questões que dizem respeito aos negros deste país, por sinal, universo esse formado também por nós – as mulheres.
Objetivamente, é preciso que se pare de pensar que gente negra – e gente negra feminina – não gera e nem consome notícia.
Contudo, em caso do raciocínio excludente persistir, acredito que seria, então, o caso de se reler com atenção os ensinamentos legados há mais de dois mil anos por Marius Fabius Quintilianus – o primeiro professor oficial de Roma. É que em seu trabalho intitulado Institutione Oratore, Quintilianus assegurou que para ocorrer o aprendizado em qualquer uma das áreas do conhecimento era preciso ter resposta para o seguinte roteiro:
a) quis: o quê
b) quid: quem
c) ubi: onde
d) cur: como, de que maneira
e) quibus auxilius: com que auxilio
Sendo assim, amarrando uma coisa à outra, talvez tivéssemos – no mínimo – o seguinte roteiro:
a) o que significa ser mulher negra – no Brasil e em diferentes países?
b) quem disse que não há discriminação e preconceito para com ela?
c) onde vive, do que vive, como vive?
d) como, de que maneira sustenta a si própria e a muitos dos seus?
e) com o auxilio de quais ferramentas passará a ser, finalmente, também lembrada no dia Internacional da Mulher?
Sendo assim, por não ter lido resposta para nenhuma dessas e nem de outras perguntas básicas, chego a pensar na necessidade de existir curso de qualificação em cultura negra também para aqueles que militam nos veículos de comunicação.
Contudo, se nem o princípio de Quintilianus – fundamental para quem deseja exercer um jornalismo tão correto quanto possível – e nem o curso proposto ajudarem a combater o racismo, o preconceito e a exclusão de que é vítima a maioria das mulheres negras, talvez tenhamos que apelar para uma revolução que ouso chamar de “Revolução das Saias Excluídas”.
É, talvez assim – de maneira coercitiva – alguém se toque que tanto e quanto as mulheres brancas nós, as mulheres negras, também temos o direito de ver nossos anseios e conquistas registrados, comentados e enaltecidos nas páginas dos jornais diários e, inclusive, em manchetes nos próximos Dia Internacional da Mulher.

Sônia Ribeiro