As manifestações de jovens convocadas pelas redes sociais – os chamados “rolezinhos” – explicitam o que salta aos olhos dos que ainda tem olhos prá ver: a desconexão crescente entre uma minoria privilegiada que tem acesso a tudo – inclusive, claro, aos centros de consumo de luxo como alguns shoppings; e a maioria mantida do lado de fora pelo cordão de isolamento da mais infame e  obscena desigualdade de renda e de direitos.

Nunca é demais lembrar que o Brasil – apesar do discurso ufanista dos governos de plantão – continua campeão nesse quesito: estamos entre os 10 países mais desiguais do mundo e ocupamos a 85º IDH entre os 187 países nos quais a ONU coleta esse tipo de dado.

O IDH é o índice medido anualmente com base em indicadores de renda, saúde e educação. Na América do Sul perdemos de países como o Chile (40º lugar), Argentina (45º), Uruguai (51º) e Peru (77º). Ficamos na frente apenas do Equador (89º) e Colômbia (91º) – o que significa, na prática, que ocupamos o ante-penúltimo lugar.

Ano após ano o Mapa da Violência repete outro dado que nos deveria fazer corar de vergonha: de cada quatro jovens assassinados no Brasil, na faixa de 15 a 29 anos, três são negros – isto, num país em que 50,7% da população é negra, segundo o Censo do IBGE 2010. 

Temos a quarta maior população carcerária do mundo. De acordo com o Conselho Nacional de Justiça o número de presos chegou a 584 mil no final de 2013. Segundo o CNJ, o país tinha 548 mil presos em dezembro de 2012, mas este número cresceu 29,42% com a entrada de mais 132.781 pessoas no sistema penitenciário falido.

O CNJ também revela um dado que joga por terra a velha e surrada tese de que o brasileiro é cordial, "bonzinho": além de vivermos numa sociedade extremamente violenta nossa taxa de homicídios está muito acima da média mundial: de 29 por 100 mil contra 8,8 por 100 mil. O estudo foi feito pelo CNJ em parceria com o Conselho Nacional do Ministério Público e Ministério da Justiça.

Outra constatação chocante para quem ainda não perdeu a capacidade de se chocar (ou de se indignar): aqui a vida vale menos que o patrimônio, quase nada: 48,9% da população carcerária, em 2012, era de condenados e acusados por crimes contra o patrimônio (furto, roubo, extorsão, receptação e estelionato); 25,21% estava presa por tráfico de drogas; e apenas 11,81% por crimes contra a pessoa (homicídios, sequestro e cárcere privado). Os dados todos são eloquentes a evidenciar que vivemos numa sociedade muito doente.

E o que faz o Estado, o chamado “Poder Público”, instrumento de que se apropriaram históricamente os “bem nascidos”, quase todos brancos e agregados de um sistema político-eleitoral e partidário igualmente falido? Simplesmente os repetem à exaustação, ano após ano. Providência? Nenhuma.

O que os jovens estão dizendo, como já disseram nas manifestações de junho de 2013, é que ninguém aguenta mais esse “blá-blá-blá” de um Estado fiel a sua velha e secular tradição: tratar a questão social como caso de Polícia. O que, aliás, voltou a acontecer com as bombas de gás lacrimogênio e as balas de borracha utilizadas na repressão do último fim de semana nos shoppings de S. Paulo.

Bombas e balas de borracha para cumprir uma decisão em que a Justiça, mais uma vez, decidiu em favor da propriedade e não por direitos igualmente garantidos na Constituição – como o direito à livre manifestação, o direito de ir e vir etc. A lógica é a mesma que explica porque as prisões estão abarrotadas de réus de crimes contra o patrimônio. Temos um Direito Penal que protege o patrimônio, não a vida. Um Estado Penal. A vida? Cada um se vire como puder para proteger a sua. Ou contrate seguro residencial e segurança privada.

Dito isso, o que acrescentar sobre a forma de luta utilizada pelos jovens – os "rolezinhos"? Na realidade, a ausência de expressão política organizada, o descrédito nas instituições – em especial nos partidos políticos, dóceis instrumentos do mercado de votos – fez com que essa multidão de órfãos da democracia representativa perdesse a fé nos instrumentos e nas formas de ação, de que nós, da geração mais velha, lançamos mão: passeatas, concentrações, marchas, são os usos que a velha esquerda fazia e todos sabemos no que deram e quem as utilizou em proveito próprio.

Então, o que fazem? Usam as redes sociais ao alcance em qualquer lan house da esquina para “zoar”, para “causar”, para serem vistos, já que a invisibilidade é a regra que garante a acomodação de uma classe média que não aprecia o barulho da multidão revolta e tem prevenções claras quando, quem está à frente, é um jovem, preto, de boné, da periferia. Fôsse um “mauricinho” dos jardins a coisa mudava de figura, porque este, pela simples aparência, estaria apto ao direito de circular sem ser importunado ou constrangido. Ao contrário: dezenas de recepcionistas estariam à disposição para lhe estender  "tapetes vermelhos". Mas, pobres e pretos não têm onde cair morto. Portanto, são um perigo. Fazem parte das  "classes perigosas".

Não tenho ilusões: a soma de tais  “rolezinhos” é igual a zero do ponto de vista do avanço da luta social por transformações profundas – e necessárias – na sociedade. Pior: podem servir, mesmo, a retrocessos, porque ninguém, em sã consciência, acredita que esse caminho criará as condições para mudanças que garanta a esses jovens, além da conquista da visibilidade, o acesso aos bens de consumo e ao universo de direitos. Performances ou factóides midiáticos não tem o poder de alterar a realidade (infelizmente), apesar dos que insistem em glamourizar tais eventos.

Pior: na prática, tais manifestações acabam por servir para manter assustada uma classe média que já não gosta (e nunca gostou) de barulho – a não ser nos campos de futebol quando em torcida por seus times ou na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, de triste memória que, por acaso, esse ano completa 50 anos e que deu suporte a um sinistro golpe militar que durou exatos 21 anos, não custa lembrar. Além do mais do mais reforçam o estereótipo vigente de que pobre e preto é suspeito, o suspeito padrão que todos conhecemos desde sempre.

Essa classe média, que olha com estupor e medo tais irrupções expontâneas, prisioneira nos seus próprios condomínios fechados, precisa ser ganha para a necessidade de mudanças profundas no país – para que não se torne, como já está, refém e vítima da insegurança e da violência urbanas.

Mas, quem se importa? Na real, o que querem os jovens pretos e pobres das periferias é dizer: “olha aqui, eu existo? Também tenho direitos – inclusive, o de entrar num shopping e comprar o que vocês estão comprando. Já que a mim é negado o direito ao futuro, ao menos quero acesso ao consumo no presente. Não quero ser mais invisível”. Quem pode, em sã consciência, condená-los ou acusá-los, conhecendo a realidade do Brasil?

Na geração da minha juventude "nossos heróis morreram de overdose e os inimigos estavam no poder", como cantava o poeta Cazuza. E os jovens dos "rolezinhos" que nem heróis tiveram? Quanto aos inimigos, não estão no poder – são o próprio poder materializado em um sistema impessoal, excludente, violento, que não oferece esperança nem futuro.

Por fim, a decisão judicial que atendeu os donos dos shoppings reflete a mesma desconenexão dos outros dois poderes – o Executivo e o Legislativo, que perderam (se é que algum dia tiveram) a noção da realidade; vivem no seu mundinho de fantasia – dos partidos alimentados por negócios privados; de um poder que existe só prá si, que se exerce de costas para a multidão. Essa tem sido a tônica, e é verdadeiramente inacreditável que isso esteja ocorrendo em plena democracia representativa, depois de 21 anos de ditadura militar, em governos de um Partido que, num passado recente (aliás, bem recente) tinha como principal patrimônio a estreita sintonia com as ruas.

O Poder Público parece viver, no Brasil, em estado de auto-engano permanente. O Estado, que cada vez mais arrecada, não está nem aí para a qualidade dos serviços – saúde, educação, transporte, enfim, direitos. Onde estão as forças políticas e seus partidos com projetos capazes de catalisar essa energia jovem contestadora de uma ordem/desordem? Estão todos no poder, passando bem, obrigado! E confiantes – todos – que vencerão as próximas eleições.

O Judiciário não pode ser medido por essa decisão de um juiz, porém, é inegável que, ao conceder a liminar, o magistrado mandou às favas o direito de ir e vir, esqueceu que os estabelecimentos, embora pertençam a iniciativa privada, são espaços semi-públicos e a proibição de acesso ao público em geral nesses espaços significa tornar oficial aquilo que todos secularmente sabemos: que, no Brasil, existem os cidadãos de primeira, de segunda, de terceira e de classe nenhuma.

E para estes últimos – em que se incluem os jovens negros e pobres das grandes periferias – a regra é clara: bala, bomba e cadeia. É o apartheid explícito que nenhum discurso consegue esconder. Por mais que se tente.

Crédito das fotos: Uol Notícias, Portalregional.net.br

Dojival Vieira